Morre Juarez Machado: por que a pneumonia é perigosa para o coração?
Entenda a ligação entre infecções e risco cardíaco, em especial para idosos, e a relevância da vacinação para a saúde do coração
O artista plástico Juarez Machado morreu nesta terça-feira, 6, aos 85 anos. Ele estava internado há cerca de um mês devido a um quadro de pneumonia e faleceu de infarto, de acordo com a imprensa nacional.
Ao longo de mais de 60 anos de carreira, Machado foi pintor, escultor, desenhista, caricaturista, ilustrador e cartunista.
Ele ficou especialmente famoso por combinar desenho e mímica em um quadro de sucesso no programa Fantástico, da TV Globo, na década de 1970. No programa, o artista desenhava ao vivo enquanto interagia com suas próprias criações.
O falecimento foi confirmado pelo Instituto Internacional Juarez Machado (IIJM), que destacou que o artista “construiu uma trajetória singular nas artes, reconhecida no Brasil e no exterior”.
Quando a pneumonia pode favorecer um infarto?
A pneumonia é uma infecção que provoca inflamação nos pulmões. Ela atinge principalmente os alvéolos, pequenos “saquinhos” de ar que ficam no final das vias respiratórias e são responsáveis por passar o oxigênio que respiramos para o sangue.
Quando a doença ocorre, esses alvéolos podem ficar cheios de líquido ou pus, dificultando a entrada de oxigênio no sangue e a eliminação do gás carbônico.
Mas o problema não fica necessariamente restrito aos pulmões. “As infecções respiratórias podem agir como gatilhos cardiovasculares por diferentes mecanismos”, explica Carolina Casadei, coordenadora do Projeto Insuficiência Cardíaca da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp).
Para entender essa relação, primeiro é preciso lembrar o que acontece em um infarto.
O ataque cardíaco ocorre quando o fluxo de sangue para o coração é interrompido, o que geralmente acontece quando um coágulo bloqueia uma artéria. A partir daí, acontece a morte das células do músculo do coração por falta de oxigênio.
Uma infecção pode favorecer esse processo de algumas maneiras. Uma delas envolve as placas de gordura que se acumulam nas artérias, a chamada aterosclerose.
Durante uma invasão de micro-organismos, o corpo libera substâncias envolvidas na resposta inflamatória usada para nos defender.
Em pessoas que já têm placas nas artérias – o que é muito comum, especialmente com a idade –, a inflamação pode contribuir para torná-las mais instáveis.
Se uma placa dessas placas instáveis se rompe, o organismo tenta “consertar” o local formando um coágulo que, em seguida, pode bloquear uma artéria que leva sangue ao coração, levando ao infarto.
Além disso, agentes infecciosos também podem enviar sinais que deixam as células responsáveis por estancar sangramentos (as plaquetas) mais ativas, ou seja, mais propensas a aderir umas às outras e participar da coagulação.
Ao mesmo tempo, as toxinas liberadas por vírus e bactérias podem causar uma disfunção do endotélio, o revestimento interno dos vasos sanguíneos, o que só aumenta o risco de um coágulo.
Para piorar, sintomas típicos de quadros infecciosos, como a febre, aceleram o metabolismo, fazendo o corpo consumir mais oxigênio.
O coração, então, precisa trabalhar dobrado, enquanto a inflamação pulmonar pode reduzir a oferta de oxigênio para a circulação. A bagunça sobrecarrega o coração e, em quem já tem doença cardíaca, pode aumentar o risco de complicações graves.
“Em suma, uma infecção grave não é apenas um problema respiratório ou localizado, mas um evento que estressa e modifica a saúde de todo o sistema circulatório”, resume Cristiane Zambolim, cardiologista do Pronto Atendimento do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Idosos são mais vulneráveis?
A idade avançada aumenta a vulnerabilidade a complicações de uma pneumonia e outras infecções respiratórias, principalmente na presença de doenças cardiovasculares prévias, diabetes, hipertensão ou outros problemas de saúde.
Há pelo menos duas razões para isso. A primeira é que, com o passar dos anos, é mais comum que a pessoa já tenha algum grau de aterosclerose ou doença cardiovascular, mesmo que ainda não tenha apresentado sintomas.
A segunda está relacionada ao próprio envelhecimento do sistema imunológico. Com a idade, a resposta do organismo às infecções se modifica e pode ser menos eficiente em alguns aspectos.
“Na pessoa idosa, todos esses mecanismos podem ser mais exacerbados. Ela pode ter uma reserva cardiovascular menor e responder de maneira mais intensa à infecção”, explica Casadei.
Por conta desse comprometimento imunológico, inclusive, nem todo idoso apresenta sintomas, o que atrapalha ainda mais diagnóstico e tratamento.
Não à toa, a recuperação de uma pneumonia entre idosos merece atenção mesmo depois que os sintomas respiratórios começam a melhorar.
Quais são os sinais de alerta durante uma pneumonia?
Nem toda pessoa com pneumonia está prestes a sofrer um infarto, ainda assim alguns sintomas merecem atenção, especialmente se surgirem de repente ou representarem uma piora em relação ao quadro anterior.
Dor ou pressão no peito, falta de ar que se intensifica, palpitações persistentes, tontura intensa, sensação de desmaio ou perda de consciência são alguns deles.
Confusão mental, lábios ou extremidades arroxeados e uma queda importante da oxigenação também podem indicar que a infecção está provocando uma sobrecarga maior no organismo.
Em casos de dor forte ou pressão no peito, falta de ar intensa, desmaio ou piora rápida do estado geral, a orientação é procurar atendimento de emergência imediatamente.
Vacinas para o coração
É por causa de situações como as provocadas pela pneumonia que a vacinação se torna uma estratégia muito importante para proteger o coração, especialmente o dos idosos.
+Leia também: Vacinas e infarto: o que a ciência sabe sobre benefícios e riscos para o coração
Embora não existam imunizantes que protegem contra todos os tipos de pneumonia, o Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil começou a ofertar este ano a vacina pneumocócica 20-valente, conhecida como pneumo 20, para pessoas com 85 anos ou mais e crianças pequenas.
A estratégia busca justamente proteger as faixas etárias mais vulneráveis a formas graves de doenças causadas pela bactéria Streptococcus pneumoniae, incluindo pneumonia e meningite.
Além disso, o calendário de vacinação dos idosos também engloba a prevenção de algumas das infecções que levam às formas mais graves da doença. É o caso das vacinas contra a gripe e a covid-19.
A vacina contra influenza deve ser tomada uma vez por ano, a cada temporada, enquanto a recomendação atual para covid-19 é de uma dose a cada seis meses. Os idosos também podem fazer uso das vacinas contra hepatite B e difteria e tétano, conforme o histórico vacinal.
“A vacinação entrou para as diretrizes de recomendações da cardiologia. Isso porque, ao proteger alguém de formas graves de doenças infecciosas, também estamos protegendo-a de eventos cardiovasculares”, opina Casadei.





