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‘Flurona’: quando gripe e Covid atacam ao mesmo tempo

Meio de transmissão parecido facilita a ocorrência simultânea de influenza e coronavírus, mas infecção dupla não é considerada uma nova doença

Por Fabiana Schiavon Atualizado em 6 jan 2022, 12h26 - Publicado em 5 jan 2022, 14h04

A junção da epidemia de gripe H3N2 com a pandemia de Covid está resultando em situações onde as duas doenças ocorrem ao mesmo tempo. A coinfecção já tem até apelido, “flurona”, mistura de coronavírus com flu (gripe em inglês), e centenas de casos já foram relatados em diferentes cidades brasileiras.

Em primeiro lugar, é importante destacar que não se trata de uma doença nova, apesar de o termo passar essa impressão. Pegar mais de um vírus e bactérias é comum. “Esse é um fenômeno antigo, que pode ocorrer com outros vírus respiratórios além do influenza e do Sars-Cov-2, já que eles são transmitidos de forma muito semelhante”, lembra Renato Grinbaum, infectologista e docente de Medicina na Universidade Cidade de S. Paulo (Unicid).

Além do contágio ser parecido — pelo contato com gotículas respiratórias e superfícies contaminadas—, gripe e Covid se juntaram agora por motivos extras.

Houve uma baixa adesão à vacinação contra o influenza ao longo de 2021 e um relaxamento das medidas de distanciamento nos últimos meses, que coincidiu com a chegada de uma variante mais transmissível do coronavírus, a Ômicron, abrindo espaço para a disseminação das duas doenças.

+LEIA TAMBÉM: Como diferenciar gripe, resfriado ou Covid-19 em crianças?

Com todas essas possibilidades no ar, pesa ainda o fato de que, quando o indivíduo desprotegido pega um vírus, seu corpo fica debilitado. Portanto, mais vulnerável a outros micro-organismos. “A segunda infecção pode ocorrer durante o período de incubação da primeira, quando ainda não há sintomas, por isso as pessoas não percebem”, lembra Rafaela Rosa Ribeiro, biologista celular e pesquisadora na LizarBio Therapeutics.

Ainda não há informações suficientes para afirmar se os casos de coinfecção estão crescendo pelo país, e é importante haver testes disponíveis para levantar esses dados, defendem os especialistas.

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“É bom que tenha tanta gente correndo atrás porque é importante distinguir a doença para o tratamento e ainda ter uma ideia melhor de que tipo de vírus estão circulando. Quanto mais testes, mais probabilidade de os laboratórios receberem amostras para o sequenciamento genético – que possibilita a diferenciação das variantes”, afirma Rafaela.

Entretanto, ainda é preciso testar mais no Brasil, segundo especialistas. Outro ponto que dificulta a vigilância adequada é o acesso aos números do Ministério da Saúde sobre casos de Covid-19 e síndrome respiratória aguda grave (SRAG), a complicação mais perigosa das duas infecções. Desde dezembro, o sistema sofre com instabilidades após um apagão generalizado.

Sintomas e diagnóstico

Só fazendo um teste para ter certeza de que há uma coinfecção. Há a possibilidade de realizar o exame RT-PCR ou antígeno para cada vírus, ou pagar por uma análise mais completa, que distingue quatro infecções virais.

No mais, poucas pistas nos sintomas podem levantar a suspeita. “Quando, por exemplo, ocorrer uma febre muito alta nos primeiros dias, que é mais característico de Influenza, e haver uma piora inesperada depois, apontando para a Covid”, afirma Raquel Stucchi, infectologista da Unicamp e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Estudos tentam diferenciar os sinais das duas doenças, mas as mutações dos vírus complicam o cenário. “Depende de cada indivíduo também. A Covid-19 causa preocupação quando há febre e baixa saturação, mas há casos de Ômicron que atacam mais o aparelho digestivo, o que também pode ocorrer com a infecção pelo Influenza”, reflete Rafaela.

Para complicar, um material recém-publicado no The British Medical Journal pelo governo do Reino Unido aponta coriza, dor de cabeça e fadiga como os sinais mais prevalentes da nova variante – queixas bastante comuns em outras infecções virais.

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Ou seja, na dúvida, é importante buscar testes e atendimento médico quando há indícios de um quadro respiratório agudo: febre, calafrios, dor de garganta, dor de cabeça, tosse, coriza, distúrbios de olfato ou paladar. Até que a diferenciação seja feita, o quadro é tratado como síndrome gripal, termo genérico que engloba essas doenças.

Como fica o tratamento?

Se os sintomas e a forma de transmissão são semelhantes, cada doença tem protocolos diferentes – daí vem a relevância dos testes, como já dito. “Muda a forma como evolui, os tratamentos possíveis e os protocolos de isolamento, por isso é importante saber com que vírus estamos lidando”, reforça Monica.

+ LEIA TAMBÉM: Gripe H3N2: como evitar, quais os sintomas e a eficácia da vacina

O coronavírus ainda não possui um antiviral específico aprovado no país, mas há medicamentos que podem servir para alguns casos graves. Já a gripe tem o oseltamivir, antiviral que atua contra o influenza, mas que também possui um protocolo bastante específico de uso e não é uma bala de prata. “O remédio, conhecido como Tamiflu, é o melhor que a indústria pôde fazer, mas é bem limitado”, explica Rafaela.

O protocolo de isolamento é de sete dias quando a infecção é pelo influenza, 14 dias se for Covid.

A coinfecção pode ser mais grave?

Ainda antes da vacina contra a Covid ser realidade, um estudo inglês fez um alerta de que infectados pelo coronavírus teriam o dobro de risco de morrer se contraírem junto a gripe. Com a imunização, contudo, a figura muda.

“Sabemos que as vacinas estão cumprindo bem o papel delas, que é evitar casos graves e mortes. Uma pessoa com coinfecção pode ter sintomas mais leves de Covid porque está protegida, mas pode sentir mais os danos da Influenza. De qualquer modo, duas infecções podem sobrecarregar o organismo”, avalia Rafaela.

A infectologista da SBI lembra ainda que os grupos de risco para cada doença precisam de atenção extra. Para Covid, são os idosos. Para influenza, crianças menores de cinco anos, além da terceira idade. Pessoas com comorbidades e imunossuprimidos estão mais vulneráveis nos dois casos.

Ainda não há estudos suficientes para saber se um jovem com bom estado de saúde pode ter o quadro agravado pela coinfecção.

Como se proteger?

Com a chegada da Ômicron, o ideal é garantir o esquema vacinal completo da Covid, que inclui a terceira dose. Já que se sabe que só as três doses podem dar uma proteção mais eficaz contra a nova variante.

A vacina da Influenza está sendo aplicada em algumas regiões, mesmo não contendo a nova cepa da H3N2. Vale tomar ela também.

“Há estudos apontando que a variante de Hong Kong, presente no imunizante, é bem distante da Darwin, causadora dos surtos atuais. Mas, como estamos vivendo uma epidemia, é recomendado que se tome essa dose para estar ao menos parcialmente protegido”, afirma Monica Levi, presidente da Comissão de Revisão de Calendários Vacinais da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Uma vacina atualizada, contendo a nova cepa, deverá chegar aos postos em meados de março. É recomendado um mês de intervalo entre as duas injeções, então dá para se vacinar com a dose disponível agora, entre janeiro e fevereiro.

É bom lembrar que as vacinas integram um conjunto de outras medidas preventivas. Nesse cenário de alta circulação de dois vírus, usar máscara, evitar aglomerações e lavar as mãos com frequência ainda são prioridades, reforçam os especialistas.

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