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Como a sífilis voltou a crescer no Brasil e no mundo?

Mesmo com tratamento barato, a infecção sexualmente transmissível teve um aumento de casos nos últimos anos

Por Fernanda Bassette, da Agência Einstein* 2 mar 2022, 16h17

Um crescimento silencioso da sífilis avança no Brasil e a maioria dos infectados talvez nem saiba que está transmitindo a bactéria.

O último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, divulgado em outubro do ano passado, traz números alarmantes sobre o tema e chama atenção para a necessidade de investimento no diagnóstico precoce da doença, que pode causar sequelas nos olhos, coração, sistema nervoso e mesmo levar à morte, se não for tratada adequadamente.

Segundo os dados do boletim, entre 2010 e 2020, o número de casos confirmados de sífilis no Brasil saltou de 3 936 para 115 371 – valor 29 vezes maior.

Uma das explicações para esse crescimento é que a doença passou a entrar na lista de notificação compulsória em 2010 (a cada novo caso, a secretaria de saúde do município precisa informar as autoridades sanitárias).

Além disso, com os avanços no tratamento do HIV/Aids tornando a doença crônica, houve um relaxamento no uso dos preservativos de barreira (camisinhas) nas relações sexuais.

+ Leia também: Sífilis congênita: saiba o que é e como prevenir

“Nos anos 1990 as pessoas se protegiam mais porque tinham muito medo da Aids, uma doença que deixaria manifestações clínicas visíveis e poderia levar à morte. Com os avanços do tratamento, as pessoas relaxaram no comportamento sexual, embora ninguém queira ter Aids. Mas hoje não é mais aquele desespero, aquela sensação de finitude de vida. O problema é que não é apenas o HIV que se transmite por relação sexual. Existem outras doenças sexualmente transmissíveis e as pessoas se expõem sem cuidados”, alerta a infectologista Tânia Vergara, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e coordenadora do Comitê de Terapêutica de HIV/Aids da SBI.

A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível causada pela bactéria Treponema pallidum. Pode ser repassada também por meio de transfusão ou pelo contato direto com sangue contaminado, e de mãe para filho (transmissão vertical) na gestação.

É uma doença curável, com tratamento barato e disponível no SUS – feito por meio da penicilina benzatina (Benzetacil é o nome comercial mais conhecido), que chegou a correr riscos de desabastecimento mundial e é considerado o medicamento mais eficaz no tratamento da enfermidade.

+ Leia também: Benzetacil: o que é, para que serve e os principais efeitos colaterais

Impacto da Covid-19

Outro fator que pode favorecer o aumento da sífilis é a falta de acesso ao diagnóstico e tratamento adequados — especialmente durante a pandemia — quando muitos postos e unidades básicas de saúde interromperam os atendimentos ambulatoriais para se dedicarem exclusivamente aos casos de Covid-19.

De acordo com Vergara, é preciso investir no diagnóstico precoce da doença, para que o tratamento seja rápido. Isso porque, segundo ela, uma pessoa infectada pode ficar semanas e até anos sem nenhum sinal visível da doença e continuar transmitindo sem saber.

Em geral, após a contaminação, surge uma pequena lesão ulcerativa na genitália (no pênis dos homens ou nos pequenos lábios das mulheres), mas ela desaparece espontaneamente, passando uma falsa sensação de cura.

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Mais tarde, podem surgir pequenas manchas vermelhas, geralmente associadas a possíveis alergias. Assim, na maioria dos casos, o indivíduo só descobre a doença em fases mais avançadas.

O diagnóstico precoce é possível por meio de um teste rápido – que está disponível gratuitamente em qualquer unidade básica de saúde — ou por meio de um exame de sangue de rotina.

“A pessoa não precisa ir a um infectologista para receber um pedido de exame de sífilis, HIV, hepatite. Todo médico deveria pedir esses exames nas consultas de rotina”, avalia a especialista, que acrescenta: “É muito difícil convencer as pessoas a mudarem o comportamento sexual [como usar preservativo de barreira em todas as relações sexuais, por exemplo]. Por isso é tão importante fazermos o diagnóstico precoce”, afirma.

O boletim do Ministério da Saúde aponta também que no ano de 2020 o Brasil registrou 22 065 casos de sífilis congênita (transmitida de mãe para filho) e 186 mortes. “Já que esta é uma doença que pode ser diagnosticada precocemente na mãe, ao ser tratada neste momento, não será transmitida para o bebê”, ressalta Tânia.

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Ressurgimento da doença

Nos últimos anos, os números de sífilis vêm aumentando não apenas no Brasil, mas no mundo todo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que existam 12 milhões de pessoas com a doença.

A preocupação com o aumento de casos fez pesquisadores da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, do Instituto Wellcome Sanger e da Agência de Segurança de Saúde do Reino Unido mapearem o ressurgimento da infecção para tentar compreender o atual cenário mundial.

O estudo “Global phylogeny of Treponema pallidum lineages reveals recent expansion and spread of contemporary syphilis”, publicado no periódico científico Nature Microbiology, mapeou dados de como a cepas da bactéria estão se movimentando geograficamente.

Os pesquisadores analisaram 726 amostras de sífilis de 23 países e identificaram duas linhagens predominantes (Nichols e SS14), que circulam em 12.

Além disso, eles constataram que as amostras eram quase idênticas àquelas presentes em 14 países, o que sugere evidências de transmissão generalizada e de forma regular das cepas no mundo todo, confirmando o “ressurgimento” da doença.

Estudos que determinam as cepas circulantes são importantes porque podem servir de base para novos medicamentos, caso se tornem resistentes aos tratamentos disponíveis – o que não é o caso, segundo a infectologista Vergara.

“Até o momento não existe Treponema resistente à penicilina. Mas estudos desse tipo são importantes para buscarmos o plano B, caso a bactéria se torne resistente”, diz.

*Esse texto foi publicado originalmente pela Agência Einstein.

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