Síndrome de Lázaro? Entenda o que aconteceu com bebê dado como morto
Caso de Rio Claro pode ser exemplo de fenômeno raríssimo em que atividade cardíaca volta espontaneamente após se tornar indetectável por tempo prolongado
O bebê Noah Gabriel da Cruz Santos, que virou notícia em julho após dar sinais de vida cerca de duas horas depois de ser declarado morto, voltou para casa nesta semana.
Com apenas um mês de idade no momento do raríssimo episódio, ele se tornou um possível exemplo da chamada “síndrome de Lázaro”, um fenômeno não totalmente compreendido da medicina em que uma pessoa pode “voltar à vida” mesmo depois de um tempo significativo sem atividade cardíaca.
Entenda melhor o caso e o que se sabe sobre esse fenômeno.
O que aconteceu
Em 15 de julho, exatamente um mês após nascer, o pequeno Noah Gabriel entrou em parada cardiorrespiratória. Prematuro e com fenda palatina, ele já vinha apresentando a saúde fragilizada nos dias anteriores e precisava se submeter a uma cirurgia.
Desde o nascimento, o bebê seguia na UTI neonatal da Santa Casa de Rio Claro, no interior de São Paulo. Quando a saúde se agravou, procedimentos de ressuscitação foram iniciados, mas não tiveram sucesso. Sem sinais vitais, Noah foi declarado morto pela equipe que o atendia.
O “milagre” aconteceu duas horas depois, quando um agente funerário foi recolher o corpo, já depositado em um saco para cadáveres, e percebeu que a criança se mexia. Novos exames foram realizados e confirmaram a volta dos sinais vitais. Noah voltou ao tratamento intensivo e se recuperou, recebendo alta nesta semana.
O que exatamente é a síndrome de Lázaro?
Também conhecida como fenômeno ou efeito Lázaro, a “síndrome” se refere a situações em que os sinais vitais voltam espontaneamente após uma interrupção total da atividade cardíaca ser confirmada por uma equipe médica.
Em geral, isso ocorre mais de 10 minutos após qualquer procedimento de ressuscitação ser encerrado, quando normalmente não há mais perspectiva de recuperação.
Não se sabe exatamente por que isso acontece. Hipóteses incluem uma possível resposta tardia a medicamentos, uma expansão do coração após ser comprimido durante a reanimação cardiopulmonar (RCP) ou uma possível manutenção da circulação em níveis indetectáveis, mas que de alguma forma seriam capazes de manter a vida.
A síndrome de Lázaro é extremamente rara e, com frequência, supostos casos desse fenômeno acabam sendo explicados por erros médicos em determinar que uma pessoa morreu. Segundo a Cleveland Clinic apenas 76 casos foram documentados na literatura científica nas quatro décadas entre 1982 e 2022. A Santa Casa de Rio Claro diz que todos os protocolos foram seguidos para determinar a morte de Noah Gabriel.
O nome do fenômeno é uma referência à história bíblica de Lázaro de Betânia que, segundo a tradição, foi trazido de volta dos mortos por Jesus Cristo.
Cuidados devem continuar nos dias seguintes
O retorno de uma pessoa à vida após uma parada cardíaca considerada irreversível é motivo de celebração, mas não representa o fim da atenção médica: nos raríssimos casos conhecidos desse fenômeno, muitos pacientes acabaram morrendo dias depois ou apresentaram sequelas cerebrais associadas à interrupção do fluxo sanguíneo.
Por isso, pacientes que eventualmente passem por uma situação do tipo devem seguir tendo a saúde monitorada nos dias e semanas seguintes, até se certificar com um bom grau de segurança que estão aptos a sobreviver sem atenção médica continuada. Foi o que aconteceu com Noah Gabriel, que, após o episódio de julho, permaneceu outro mês internado antes da alta.





