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12 consequências da apneia do sono

Estudos alertam para a gravidade da apneia obstrutiva do sono, marcada por roncos e interrupções na passagem de ar nas horas de repouso noturno

Por André Biernath Atualizado em 13 jun 2017, 11h51 - Publicado em 13 jun 2016, 14h54

A biomédica Monica Andersen, diretora de ensino do Instituto do Sono, em São Paulo, traça a seguinte comparação para dar uma ideia do que é ter apneia obstrutiva do sono: “Imagine que todas as noites, enquanto você dorme, um sujeito vem e o acorda até 35 vezes a cada hora”.

Pois é isso o que acontece com cerca de 30% dos habitantes da capital paulista – estatística que tende a se repetir em outras cidades do Brasil e do mundo. Obviamente, não estamos falando de um pentelho que atormenta o descanso alheio, mas de uma doença que, tudo leva a crer, faz mais do que impor microdespertares (muitas vezes despercebidos) ao longo da madrugada.

A apneia é caracterizada por interrupções temporárias na entrada de oxigênio durante o sono. Isso acontece porque os músculos da parte de trás da boca relaxam, bloqueando a garganta e a passagem de ar. Um de seus sinais mais comuns e barulhentos é o ronco. “Homens, obesos e idosos correm maior risco de desenvolver o problema”, conta o pneumologista Pedro Genta, do Hospital do Coração, em São Paulo. O diagnóstico depende do relato e dos sintomas do paciente. “Mas a confirmação vem por meio de um exame, a polissonografia, que avalia a qualidade do sono em vários aspectos”, diz Genta.

O distúrbio passou a ser visto com mais seriedade nos últimos anos, tanto por sua incidência quanto pelo surgimento de estudos relacionando a suspensão do entra e sai de ar a encrencas da pesada. O assunto ganhou tamanho destaque que o Current Hypertension Reviews, jornal científico especializado em pressão alta, dedicou recentemente uma edição inteirinha ao elo com a apneia. “No Brasil, várias sociedades médicas começam a reconhecê-la como um problema de saúde pública”, nota a neurologista Dalva Poyares, presidente da Associação Brasileira de Medicina do Sono. A seguir, você verá 12 possíveis (e graves) desdobramentos da apneia. Eles só reforçam a necessidade de flagrar e silenciar quanto antes esse sufoco noturno.

1) Apneia mexe com o cérebro

Toda vez que a garganta se fecha, o corpo precisa fazer um empenho danado para reabrir as vias aéreas, o que força pequenos despertares. Não é que o indivíduo acorde pra valer, mas deixa de atingir as etapas reparadoras do sono. Cientistas da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, resolveram verificar o que ocorre no cérebro dos apneicos. Eles mediram os níveis dos neurotransmissores GABA e glutamato, que modulam as emoções – o primeiro funciona como um inibidor e acalma as coisas, enquanto o segundo dá uma acelerada na cachola. Observaram, então, que na massa cinzenta de quem sofria com a doença os níveis de glutamato estavam bem acima do normal. “Isso explicaria o estresse dos pacientes, capaz de evoluir para ansiedade e depressão”, diz o neurocientista Paul Macey, autor do trabalho.

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    2) Faz a pressão decolar

    A conexão entre apneia e hipertensão é a que carrega a maior quantidade de provas científicas. “Já sabemos que o distúrbio provoca uma ativação exagerada do sistema nervoso autônomo, que controla o fluxo sanguíneo, perpetuando o problema cardiovascular“, detalha o pneumologista Geraldo Lorenzi Filho, diretor do Laboratório do Sono do Instituto do Coração (InCor), em São Paulo. Novas evidências sugerem que a obstrução não apenas joga a pressão lá pra cima mas também atrapalha a eficácia dos remédios anti-hipertensivos. De acordo com o HeartBEAT Study, realizado pela Academia Americana de Medicina do Sono, 58% das pessoas com apneia severa não tirariam proveito desses fármacos e criariam uma espécie de resistência ao tratamento.

     

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    3) Sabota o trabalho dos rins

    O recado vem do Extremo Oriente: médicos do Hospital Geral de Veteranos de Taipei, em Taiwan, descobriram que a apneia complica a vida da nossa dupla de filtros naturais. Para chegar a essa conclusão, eles levantaram informações de 43 mil indivíduos – desses, 8 mil tinham descompassos respiratórios na madrugada. Todos eles foram seguidos por quase quatro anos. Nesse período, a probabilidade de desenvolver doença renal crônica entre os roncadores era 58% mais elevada em comparação àqueles que dormiam sem intercorrências. “A diminuição dos níveis de oxigênio, conhecida como hipóxia, está por trás do estresse oxidativo, que aumenta a suscetibilidade de desordens nos rins”, destrincha o elo o nefrologista Yung-Tai Chen, líder da pesquisa.

    4) Prejudica o coração

    O músculo cardíaco de 1 625 mulheres foi objeto de estudo no Brigham and Women’s Hospital, nos Estados Unidos. Aquelas que roncavam possuíam muita troponina, substância que indica o início de uma insuficiência cardíaca. “O esforço para respirar causa uma forte pressão no peito e dificulta as batidas do órgão”, disseca Lorenzi Filho. Em longo prazo, o órgão se desgasta e fica sem forças para trabalhar.

    5) Aumenta o risco de acidentes

    Um time liderado pelo epidemiologista Ludger Grote, do Hospital Universitário Sahlgrenska, na Suécia, reuniu dados de 635 mil motoristas. Os 1 478 apneicos eram duas vezes mais propensos a se envolverem em batidas de carros. “Eles não mantêm a concentração e a atenção por muito tempo nas tarefas diárias”, justifica Grote.

    6) Deixa os ossos fracos

    A falta de oxigênio estremece o esqueleto, diz investigação do Centro Médico Chi Mei, em Taiwan, país campeão em descobertas sobre a apneia. Cerca de 1 300 asiáticos com o entupimento noturno da faringe foram acompanhados por oito anos. A incidência de osteoporose neles era 2,7 vezes maior em relação aos livres do enrosco.

    7) Prejudica os dentes

    A Universidade de Otago, na Nova Zelândia, recrutou dez voluntários, que dormiram algumas noites com a boca fechada e outras com a cavidade aberta – para garantir a entrada de ar pela boca, eles usavam clipes nasais. Nas sonecas de língua de fora, a quantidade de saliva caía consideravelmente e o pH da região ficava ácido, situação que abre alas para a deterioração dos dentes. “Em alguns casos, a apneia é motivada por obstruções nasais que levam à respiração bucal”, lembra Dalva Poyares. Diagnosticar a causa poupa, portanto, até a dentição.

    8) Sabota a audição

    O Centro Médico Albany, nos Estados Unidos, tabulou dados de quase 14 mil cidadãos hispânicos. Aqueles que apresentavam apneia tinham um risco 31% maior de perda auditiva de alta frequência e 90% de surdez de baixa frequência – a diferença das duas está no comprimento das ondas sonoras que não são escutadas. Os pesquisadores já arriscam algumas hipóteses para justificar o achado. O abalo auditivo pode ser fruto de danos nos vasinhos que irrigam a cóclea, responsável pela recepção dos sons, ou de traumas causados (pasme!) pelos roncos altos.

    9) Abala a ereção

    “Os sintomas depressivos e a baixa qualidade de vida de homens com apneia chegam a impactar até o sexo”, afirma o otorrinolaringologista Hyun-Woo Shin, do Hospital Universitário Nacional de Seul, na Coreia do Sul. O especialista publicou os resultados de um estudo que analisou 713 sujeitos por oito anos. Além de prejuízos aos vasos do pênis que propiciam a ereção, a doença do sono derruba a libido e bagunça a fabricação de testosterona – cenário que acaba com a possibilidade de qualquer transa.

    10) Patrocina pneumonias

    Os primeiros segundos após o bloqueio da faringe são aflitivos. A respiração volta com tudo, junto com estrondos e engasgos. E há um perigo extra nessa história: a retomada de oxigênio facilitaria a aspiração de partículas maléficas, que vão parar nos pulmões. O alerta partiu do Hospital Geral de Veteranos de Taipei (eles de novo!), num trabalho com 34 mil pacientes. “Para piorar, a apneia abala a imunidade, o que favorece infecções como a pneumonia“, acrescenta o investigador principal, Kun-Ta Chou.

    11) Estimula o câncer

    Alguns artigos insinuam que a barulheira da madrugada incentivaria a formação de tumores. Para tirar essa história a limpo, pesquisadores da Universidade de Toronto, no Canadá, observaram 10 mil pessoas por 16 anos. Porém, eles não encontraram nenhuma interligação entre as duas moléstias. A verdade é que ainda estamos longe de um veredito por aqui. Até porque um experimento do Hospital Clínico de Barcelona, na Espanha, revelou que a hipóxia estimula a criação de novos vasos sanguíneos para um câncer que já se estabeleceu, o que ajudaria a doença a se expandir. O fato foi comprovado em 24 ratinhos. “Se o que vimos nos camundongos for igual em humanos, a apneia seria um fator determinante da agressividade do câncer”, especula o urologista espanhol Antoni Vilaseca Cabo.

    12) Eleva o açúcar no sangue

    “O distúrbio é capaz de alterar a ação da insulina, hormônio que permite à glicose entrar nas células”, ensina o neurofisiologista Geraldo Rizzo, do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Em última instância, esse perrengue molecular resulta em diabete. Tal ligação, aliás, foi reforçada recentemente após uma experiência conduzida pela médica do sono Tetyana Kendzerska, na Universidade de Toronto. Ela demonstrou que, quanto mais graves as crises de ronco, maiores são as possibilidades de conviver com muito açúcar circulando. “Mesmo ao descartarmos agravantes como peso, males cardíacos, idade e sexo, só a presença de apneia severa já aumenta em 30% a probabilidade de ter diabete”, calcula.

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