Aneurisma da aorta: como o tratamento evoluiu e quando operar
Endopróteses e exames de imagem ampliaram as opções, mas a escolha da técnica ainda depende das condições de cada paciente
Quem acompanha o tratamento dos aneurismas da aorta há algumas décadas viveu uma mudança importante na prática cirúrgica. Durante muito tempo, a cirurgia aberta foi o principal recurso de que dispúnhamos.
Hoje, boa parte desses pacientes pode ser tratada por via endovascular, com a introdução de uma endoprótese pelas artérias, por meio de cateteres, evitando as grandes incisões da operação convencional.
O início dessa mudança costuma ser associado ao trabalho de Juan Parodi e seus colaboradores, que realizaram um reparo de aneurisma da aorta abdominal em 1990 e publicaram os resultados no ano seguinte.
Desde então, a técnica foi sendo aperfeiçoada. A experiência acumulada pelos cirurgiões, somada ao desenvolvimento de materiais pela indústria, permitiu superar muitas das limitações iniciais.
Endopróteses mais versáteis
As primeiras endopróteses exigiam uma anatomia bastante favorável. Os dispositivos eram volumosos, difíceis de introduzir em artérias estreitas ou tortuosas, e os pontos de fixação precisavam ser bem escolhidos.
Com o tempo, os sistemas ficaram menores e mais flexíveis, e o implante ganhou precisão. Passamos, assim, a tratar por essa via casos que antes dependeriam de uma cirurgia aberta.
Na prática, isso fez diferença sobretudo para os pacientes idosos, frequentemente portadores de doenças cardíacas, pulmonares ou renais. A cirurgia aberta exige incisões maiores e o pinçamento temporário da aorta, com repercussões que podem ser importantes para esses órgãos.
O tratamento endovascular costuma ser mais bem tolerado e permite uma recuperação mais rápida. Isso, porém, não torna a indicação automática. Há casos em que a anatomia dificulta o procedimento ou compromete a segurança e a durabilidade do resultado.
Um avanço que merece destaque foi o desenvolvimento das endopróteses fenestradas e ramificadas. Com elas, tornou-se possível tratar aneurismas que envolvem a origem das artérias renais e das artérias que irrigam os órgãos abdominais.
As aberturas e ramificações da prótese permitem manter a circulação desses órgãos enquanto o aneurisma é excluído. São procedimentos que exigem planejamento detalhado, materiais específicos e uma equipe habituada a realizá-los.
Ainda assim, trouxeram alternativas para pacientes que antes teriam pela frente uma operação de grande porte, inclusive nos aneurismas que se estendem pelo tórax e pelo abdome.
Planejamento e acompanhamento
A maneira de planejar também mudou. A angiotomografia, com reconstruções tridimensionais, permite avaliar o trajeto da aorta, suas medidas, os pontos de fixação e as condições das artérias de acesso.
Muitas decisões que antes dependiam dos achados durante a operação são tomadas antecipadamente. Nas salas híbridas, a qualidade das imagens ajuda a orientar o implante e a conferir o resultado.
A recuperação mais rápida e o menor tempo de internação são benefícios que o paciente percebe de imediato. Já a necessidade de acompanhamento merece uma conversa cuidadosa.
Depois do implante, podem surgir endoleaks, que são vazamentos de sangue para o saco aneurismático, ou alterações na posição e nos componentes da endoprótese. Algumas dessas situações exigem nova intervenção. Por isso, sempre procuro explicar que o tratamento não termina na alta hospitalar.
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Como escolher a melhor técnica
A cirurgia aberta mantém seu lugar. É uma solução duradoura e continua sendo a melhor opção em determinadas situações. Na aorta ascendente, permanece como o principal tratamento.
A escolha entre as técnicas depende da localização do aneurisma, da anatomia, das condições clínicas e da expectativa de vida do paciente. Também depende dos recursos disponíveis, especialmente numa emergência. Nem todos os hospitais contam com equipe, estrutura e materiais para realizar um reparo endovascular complexo.
Ao longo desses anos, ganhamos possibilidades de tratamento que antes não existiam. Mas continuamos precisando responder às mesmas perguntas: é o momento de operar? Qual técnica oferece o melhor resultado para este paciente? O que ele pode esperar da recuperação e dos anos seguintes?
Os novos dispositivos ajudam muito, mas essas decisões ainda dependem da avaliação do cirurgião e de uma conversa franca com o paciente.
* Ricardo Aun é cirurgião vascular, professor associado à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e membro da Brazil Health
(Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health)







