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Virosfera

O mundo também é dos vírus. E o virologista e especialista em coronavírus Paulo Eduardo Brandão, professor da Universidade de São Paulo (USP), guia nosso olhar sobre esses e outros micróbios que circulam por aí.
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A viagem do coronavírus pelo corpo humano

Acompanhe o que o vírus da Covid-19 pode fazer pelo organismo e suas repercussões — elas não se resumem a ataques ao aparelho respiratório

Por Paulo Eduardo Brandão
Atualizado em 6 jul 2021, 10h43 - Publicado em 5 jul 2021, 15h36

No filme de ficção científica Viagem Fantástica, de 1966, um submarino e sua tripulação são miniaturizados e injetados no organismo de um paciente para tentar resolver um hematoma cerebral. Assim, eles acabam viajando por artérias, coração e pulmões, e lutando contra as células imunológicas. Além de incrivelmente instrutivo, o filme nos serve de inspiração para contar como o vírus da Covid-19 viaja pelo corpo humano.

O Sars-CoV-2 não trafega solto pelo ar, pois seu envoltório é muito sensível ao calor e à falta de água e ele não resiste muito tempo em superfícies. Assim, ele se protege e circula dentro de gotículas de água. Gotículas grandes, que eliminamos quando tossimos, espirramos ou mesmo falamos, podem voar por uns 2 metros de distância. E, daí, conseguem chegar ao nariz ou à boca de outra pessoa.

É por isso que precisamos usar máscaras, um jeito de barrar a entrada e saída dessas gotículas. Mas gotinhas ainda menores contendo o coronavírus também podem ficar no ar no formato de spray e representam uma via secundária de transmissão — mais um motivo para utilizar máscaras. Aliás, as gotículas ainda podem levar o vírus até os olhos, de onde eles abrem caminho, célula a célula, até o tecido respiratório. Não à toa, outra estratégia preventiva é lançar mão de óculos de proteção ou escudos faciais.

Ao aterrissar no interior do nariz, os coronavírus se sentem em seu território. Começam a entrar nas células e a se replicar bem rápido: mil novos exemplares surgem de um só a cada oito horas. As células esgotadas pela exploração viral acabam morrendo e o agente infeccioso vai passando de uma a outra velozmente.

Esse rastro de destruição no tecido interno do nariz pode acabar expondo as terminações nervosas responsáveis pelo olfato, que perdem sua capacidade de traduzir odores e ficam como um fio desencapado. Isso explica por que a perda de olfato ocorre em tantas pessoas acometidas.

Mas o vírus não para por aí: passando de célula a célula pelo sistema respiratório, vai provocando de dor de garganta a pneumonia. Uma imagem de tomografia ou raios X nesse momento da infecção, fundamental para entender a gravidade da Covid-19, costuma mostrar os pulmões com um aspecto de vidro rachado.

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Até algum sintoma aparecer podem se passar de 2 a 15 dias, tempo para o vírus crescer em número e causar danos suficientes. Isso tudo depende da imunidade da pessoa e, daí, não é difícil entender a importância da vacinação, que tem por finalidade evitar casos graves da doença e diminuir a transmissão viral pela população.

O coronavírus pandêmico pode ficar se replicando por algo como uma semana, levando a sintomas respiratórios durante esse tempo e, normalmente, o vírus em si desaparece em seguida. Mas não os sintomas e as repercussões no organismo.

Depois dessa primeira semana, o sistema imunológico e o de coagulação, que deveriam nos defender, podem ficar enlouquecidos pela superestimulação desencadeada pelo vírus. E, aí, o quadro passa a ficar bem diferente do que, digamos, uma simples gripe.

Tresloucado, o sistema imune ataca os próprios pulmões, piorando a pneumonia a tal ponto que esses órgãos já não conseguem captar o oxigênio. Isso é tão grave que há pessoas com Covid-19 que precisaram de transplante pulmonar. Mas quem disse que o estrago para nos pulmões?

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O sistema imunológico enraivecido pode disparar golpes em todos os os pontos do corpo, atacando os rins, o fígado e até mesmo o cérebro. Outra manifestação é uma doença inflamatória multissistêmica marcada por pontos vermelhos na pele.

O sistema circulatório também desanda, com a formação de coágulos no sangue. Viajando pelos vasos, eles podem entupir as artérias menores e causar infarto, derrame cerebral e mesmo gangrena — pacientes graves de Covid-19 tiveram membros amputados por causa disso.

Esse agravamento bombástico, que ocorre quando o vírus em si já foi embora, pode acontecer na segunda ou terceira semana após o início dos sintomas. O paciente precisa receber cuidados intensivos em UTI, tomar medicamentos que controlam a imunidade (como corticoides) e a coagulação (anticoagulantes) e, em alguns casos, ser entubado.

Mas há casos em que o coronavírus pode continuar se replicando por meses e, apesar do silêncio suspeito, nosso aparato imunológico e o de coagulação acordam mais tarde, fazendo com que pacientes que tiveram alta após a forma grave tenham recaídas potencialmente fatais. Tenhamos em mente que o vírus da Covid-19 não gosta só de células respiratórias, mas de praticamente todas aquelas que temos no organismo, em graus diferentes, o que tende a complicar a doença.

Entender e controlar enfermidades envolve diversos ramos da ciência. Mas, às vezes, para quem está a cargo de conduzir o enfrentamento de uma pandemia, optar por soluções mágicas é mais atrativo, talvez por sua dificuldade em aceitar ou entender a própria ciência. E isso nos remete de volta à ficção científica, na famosa frase do escritor Arthur C. Clarke: “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de mágica.”

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