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O repórter André Biernath desenterra o passado e vislumbra o futuro da arte (e da ciência) da Medicina
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A aspirina NÃO foi inventada pelos nazistas

Ao contrário do que disse o ministro da educação, o remédio surgiu muito antes da ascensão de Hitler ao poder na Alemanha

Por André Biernath
Atualizado em 5 ago 2019, 12h15 - Publicado em 2 ago 2019, 18h02

Na última quinta-feira (1) pela manhã, o ministro da educação Abraham Weintraub participou do programa JP Morning Show, da rádio Jovem Pan, em São Paulo. Durante uma discussão acalorada sobre o educador Paulo Freire (1921 – 1997), ele soltou a seguinte frase: “A aspirina foi feita pelos nazistas. Eu uso a aspirina. Por quê? Porque funciona”.

É urgente fazer uma correção histórica por aqui. Não, a aspirina não foi inventada pelos nazistas. O regime totalitário que matou milhões de seres humanos nos campos de concentração nada tem a ver com a pesquisa ou o desenvolvimento desse remédio. 

Na verdade, os poderes desse fármaco são conhecidos há milênios. O ácido acetilsalicílico, nome do princípio ativo, deriva do ácido salicílico, uma substância encontrada em diversas plantas. Tanto é que o Papiro Ebers, um dos tratados médicos mais antigos da história da humanidade, já sugeria a infusão com folhas secas de uma árvore chamada murta como tratamento para dores reumáticas. Isso há 3 500 anos.

No século 5 a.C., o famosíssimo Hipócrates, considerado o pai da medicina, receitava aos seus pacientes um pó feito a partir da casca do salgueiro (outra árvore) como terapia para silenciar dores e febres. 

De acordo com a história oficial, a fórmula química atual foi padronizada pelo químico alemão Felix Hoffmann (1868 – 1946) em 1897 — portanto, 42 anos da eclosão da Segunda Guerra Mundial. 

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Há uma grande controvérsia por aqui: alguns pesquisadores afirmam que o verdadeiro pai da aspirina seria o químico alemão Arthur Eichengrün (1867 – 1949). Ele teria sido, inclusive, professor de Hoffmann. Os créditos pelo invento teriam sido repassados ao aluno por causa de um revisionismo histórico em voga na Alemanha a partir da década de 1930, justamente para atacar judeus como o próprio Eichengrün. A Bayer, farmacêutica responsável pelo remédio, nega essa versão.

Os comprimidos de 500 miligramas fizeram sua estreia nas farmácias exatamente no ano 1900. Eles chegaram ao Brasil um ano depois. Em 1950, o comprimido branco ganhou um certificado de recorde mundial da Guinness, por ser o analgésico mais vendido do mundo. Poucos anos depois, em 1969, uma caixinha do remédio estava no kit de primeiros-socorros que acompanhou o astronauta americano Neil Armstrong na primeira caminhada pela superfície lunar.

Seguindo sua trajetória de sucessos e pontos altos, o britânico John Vane (1927 – 2004) levou o Prêmio Nobel de Medicina de 1983, ao desvendar alguns processos fisiológicos relacionados com a aspirina. Esse remédio também é muito usado para evitar a formação de coágulos, que podem causar embolia ou AVC, por exemplo.

Mesmo no auge de seus 122 anos, a aspirina continua a ser uma das rainhas da indústria farmacêutica. A Bayer produz, todos os anos, 50 mil toneladas de ácido acetilsalicílico. Se todos esses comprimidos fossem empilhados, teríamos um monumento de um milhão de quilômetros — distância suficiente para ir e voltar para a Lua.

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Em pleno 2019, essa droga continua a ser alvo de uma série de estudos científicos. Até agosto, o Pubmed, base de dados sobre pesquisas do governo americano, registra a publicação de 1 422 artigos sobre o tema. Nos 12 meses do ano passado, foram 2 003 trabalhos.

Pelo menos uma coisa o ministro acertou: não restam dúvidas de que a aspirina realmente funciona. 

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