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Tá na internet, tá na TV, tá nos livros... tá no nosso dia a dia. O jornalista André Bernardo mostra como fenômenos culturais e sociais mexem com a saúde — e vice-versa.
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Os 30 anos do Natal sem Fome: a história de Herbert de Souza, o Betinho

A maior campanha solidária de arrecadação de alimentos da América Latina já beneficiou 26 milhões de pessoas

Por André Bernardo
25 dez 2023, 08h06

O sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, tinha um jeito simples de explicar ideias complexas. Quando alguém parecia não entender o que significava cidadania ou solidariedade, ele contava a parábola do beija-flor. 

Certo dia, há muito tempo atrás, uma floresta começou a pegar fogo. Diante do risco iminente de morte, todos os animais saíram em disparada. Durante a fuga, um leão parou, assustado, ao ver um pequeno beija-flor pegar água no rio, voar até o fogo e despejá-la sobre as labaredas. 

“Ah, beija-flor, você acha mesmo que, sozinho, vai conseguir apagar esse fogaréu?”, perguntou o felino. “Sei que não posso apagar esse fogo sozinho”, respondeu o pássaro. “Estou apenas fazendo a minha parte”. 

“Betinho criou um batalhão de beija-flores”, afirma a jornalista e escritora Ana Redig, coautora do livro Cidadania – A Fome das Fomes (Mórula Editorial, 2023) e parceira da Ação da Cidadania desde 1994, quando integrou o Jornal da Cidadania. 

“O maior movimento social que o Brasil já produziu está completando 30 anos. E, ao longo deste tempo, esses beija-flores não pararam de voar. Se você visitar um dos comitês da Ação de Cidadania e sentir de perto a esperança que o Betinho semeou no coração de cada voluntário, aposto que vai nascer mais um beija-flor”. 

A Ação da Cidadania, que realiza o Natal Sem Fome, tem hoje mais de 3 mil comitês espalhados pelo Brasil. Um dos primeiros foi fundado em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense (RJ), e é comandado por Terezinha Mendes da Silva, de 96 anos. 

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Terezinha conheceu Betinho no início dos anos 1990 no escritório do cartunista Henrique de Souza Filho, o Henfil. O sociólogo explicou a Terezinha que estava criando um movimento nacional que, entre outras atividades, planejava engajar voluntários na arrecadação e distribuição de comida entre os mais necessitados. 

Ao fim do encontro, Betinho se despediu de Terezinha: “Então, tá bom. Amanhã, a senhora volta”. Nessa, Terezinha respondeu: “Amanhã já morreu. Quem tem fome tem pressa”. 

Foi assim que surgiu, de improviso, o lema da Ação da Cidadania. 

Trinta anos depois, o comitê de Terezinha tem uma biblioteca comunitária com mais de 6 mil livros doados, apoia uma cooperativa de costureiras e serve como base para catadores de material reciclável. 

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“Tive dois professores para me ensinar a ser quem eu fui e quem eu sou: minha mãe, primeiro; e Betinho, depois”, afirma Terezinha, em depoimento ao livro Cidadania.

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“Até quando vamos ignorar essa indignidade?”

O fundador da Ação da Cidadania nasceu no dia 3 de novembro de 1935, em Bocaiúva, município a 369 quilômetros de Belo Horizonte (MG). Herbert José de Souza, o Betinho, era filho de Henrique José de Souza, padeiro, e de Maria da Conceição Figueiredo de Souza, dona de casa. O casal teve nove filhos. 

Todos os homens da família nasceram com hemofilia, distúrbio genético que impede a coagulação do sangue e pode ser mortal em caso de quedas, traumas ou cortes. Betinho seguiu a carreira de sociólogo, Francisco Mário enveredou pela música e Henfil tornou-se um talentoso cartunista. 

Os três morreram em decorrência da aids, contraída durante transfusão de sangue: Henfil em 4 de janeiro de 1988 e Francisco Mário apenas dois meses depois, em 14 de março de 1988. O Brasil se despediu de Betinho no dia 9 de agosto de 1997, um domingo de Dia dos Pais. 

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“Meu pai lutou pelo Brasil até o fim de sua vida”, descreve Daniel Souza, filho de Betinho e presidente do Conselho da Ação da Cidadania. “Nasceu hemofílico quando a hemofilia era uma sentença de morte. Na adolescência, contraiu tuberculose e, na vida adulta, pegou aids. Apesar de sua saúde frágil, militou politicamente, enfrentou o golpe, viveu na clandestinidade, fugiu para o exílio…”

“Se Betinho, com todos os seus problemas e suas limitações, foi lá e fez, por que é que nós e todos os brasileiros, que não temos os problemas e as limitações que ele teve, também não podemos ir lá e fazer?”, indaga. “Se cada um fizer um pouco, todos farão a sua parte e nós conseguiremos transformar o Brasil”. 

Betinho criou a Ação da Cidadania, a maior campanha de combate à fome da América Latina, em 24 de abril de 1993. O Brasil tinha, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 32 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza. “Até quando vamos fingir que não estamos vendo famílias inteiras com fome em nosso quarteirão? Vamos ignorar essa indignidade? Não vamos fazer nada?”, costumava perguntar. 

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Em dezembro daquele mesmo ano, Betinho criou o Natal sem Fome, a maior campanha solidária de arrecadação de alimentos da América Latina. 

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Só no primeiro ano de campanha, que mobilizou de artistas a empresários, Betinho e seu “batalhão de beija-flores”, como diria Ana Redig, arrecadaram 580 toneladas de alimentos que fizeram o Natal de 290 mil pessoas muito mais feliz. Nos últimos 30 anos, o total de pessoas beneficiadas chegou a 26 milhões. 

“A conta do Betinho era simples. Em 1993, a população do Brasil era de 150 milhões de pessoas. Dessas, 32 milhões não tinham o que comer. Se os 118 milhões que têm o que comer doarem um quilo de alimento para quem não tem, dá e sobra”, explica a jornalista e escritora. 

“Temos que fazer a nossa parte, por menor que ela seja”

Trinta anos depois, nada mudou. O Brasil tem hoje 125,1 milhões de pessoas com algum grau de insegurança alimentar (ou seja, não têm acesso pleno à alimentação) e 33,1 milhões de famintos. 

Segundo dados da Ação da Cidadania, a fome tem gênero, cor e CEP. Seis de cada dez lares comandados por mulheres, 65% dos lares comandados por pessoas pretas e pardas e 25% das famílias do Norte convivem com a fome e a insegurança alimentar. 

“O que tirou o Brasil do Mapa da Fome em 2014 foi a vontade política. E o que colocou o país de volta lá em 2020 foi a falta dela”, resume Daniel Souza. “Se Betinho estivesse vivo, estaria lutando como sempre lutou e, talvez, até mais do que nunca contra a indignidade que é ter 33 milhões de pessoas com fome neste país”. 

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Ano passado, o Natal sem Fome doou 185 mil cestas básicas, atendeu 740 mil pessoas e entregou 1,8 mil toneladas de alimentos. Este ano, foram arrecadadas mais 2 mil toneladas de alimentos que beneficiarão mais de 800 mil pessoas. Lares onde residem crianças menores de 10 anos terão prioridade nas entregas dos kits. 

Ainda é possível doar através do site (www.natalsemfome.org.br) e pelo Pix doe@natalsemfome.org.br.

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Em vida, Betinho foi homenageado com samba de João Bosco, O Bêbado E A Equilibrista, imortalizada na voz de Elis Regina, em 1979. Betinho é o “irmão do Henfil” da letra de Aldir Blanc.

O que era para ser uma música em homenagem ao cineasta inglês Charles Chaplin, que morreu em 1977, acabou se tornando o hino da Anistia. Betinho viveu no exílio de 1971 a 1979 e morou em países como Chile, Canadá e México. 

Um detalhe: quando escreveu a letra, Aldir Blanc não sabia o nome do irmão do Henfil. O cartunista falou de Betinho para o compositor, mas, na empolgação, esqueceu de mencionar seu nome.

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Betinho (Julio Andrade) e Daniel Souza (Filipe Bragança) na série “No Fio da Navalha” (Foto: Loiro Cunha/SAÚDE é Vital)

Anos depois, Aldir Blanc e Betinho se encontraram no Canecão, antiga casa de espetáculos no Rio de Janeiro: “Eu não ia voltar, tinha me planejado para não voltar”, disse o sociólogo. “Mas ouvi sua letra para a música do João e resolvi voltar”. 

Betinho foi homenageado também com o samba-enredo da Império Serrano, E Verás que Um Filho Teu Não Foge à Luta, de 1996. Na letra do samba, Betinho é chamado de “moderno Dom Quixote”. 

Depois de sua morte, Betinho ganhou incontáveis tributos na forma de livros (Muito Prazer, Sou o Betinho, de José Roberto Torero), documentários (Betinho – A Esperança Equilibrista, de Victor Lopes) e séries (Betinho – No Fio da Navalha, do Globoplay). 

Para interpretar o sociólogo na série de oito episódios, o ator Júlio Andrade passou por uma intensa caracterização que incluiu, entre outros sacrifícios, emagrecer sete quilos, usar próteses dentária e nasal, revezar perucas que simulam calvíce, colocar lentes de contato verdes e andar encurvado pelo set

“Betinho mudou minha visão de mundo”, admite o ator. “Hoje, sou um cara muito mais atento aos problemas do meu país. Um cara que enxerga as mazelas, mas acredita num futuro melhor. Todos os dias, vemos pessoas sem o básico para viver e achamos tudo normal. O Betinho me fez enxergar que isso não é normal. Temos que nos indignar sempre. Temos que fazer a nossa parte, por menor que ela seja”. 

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