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Saúde com Diversidade

A enfermeira especialista em educação Jussara Otaviano, embaixadora do Prêmio de Enfermagem Rainha Silvia da Suécia, discute a importância de valorizar a diversidade e o tamanho dos impactos da desigualdade no acesso à saúde
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Um futuro possível é um futuro ancestral

Nossa colunista faz um resgate e uma homenagem à história dos povos originários do Brasil

Por Jussara Otaviano, Luana Robles Vieira e Catarina Delfina dos Santos Nimbopyrua*
9 Maio 2024, 18h00

O mês de abril é permeado por datas comemorativas importantes. Uma é o 7 de abril, quando se comemora o Dia Mundial da Saúde, conceituado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como o completo bem estar físico, mental, espiritual e social. Mas também não posso passar desapercebida pela data em que os colonizadores chegaram ao Brasil, em 22 de abril de 1500.

É aqui mesmo que começo analisar alguns pontos da história, pois os povos indígenas estão pelas Américas à 40 mil anos – e, no Brasil, há cerca de 15 a 20 mil anos. Assim sendo, quando as caravelas portuguesas aportaram nas costas brasileiras, muito já existia de experiência vivida pelos povos originários nesta terra Brasilis.

Nesta coluna, mergulharemos nos saberes dos primeiros povos a habitar esta terra e a data que permeia a comemoração de seu dia: o 19 de abril. Para esta incursão, convidei Luana Robles Vieira, professora da rede municipal de Sorocaba, mestre em Educação, atuante na questão indígena e consultora na formação de professores na temática indígena.

Luana convidou para esta conversa Catarina Delfina dos Santos Nimbopyrua, uma liderança espiritual indígena Tupi e Guarani, da aldeia Tapirema, em Peruíbe, litoral de São Paulo, que ministra cursos de doula e de fitoterapia indígena, além de ser conselheira do Museu das Culturas Indígenas e assessora da Licenciatura Intercultural na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Embora eu tenha visitado algumas etnias indígenas ao longo da vida, me aproximei dos Pitaguary em 2015, quando conheci o terapeuta comunitário, geólogo, mestrando no programa de pós-graduação em desenvolvimento e meio ambiente, artista plástico de pinturas corporais e ativista indígena Benício Pitaguary, da aldeia Monguba, terra indígena Pitaguary-Ceará, que morreu aos 29 anos em 2022. Benício, defensor de territórios indígenas, por diversas vezes dividiu comigo a sala de aula de cursos de medicina, e juntos refletimos com estudantes as diferenças e potencialidades da medicina indígena e das práticas tradicionais na complementariedade dos serviços do Sistema de Saúde Brasileiro.

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Refletir sobre o estar do indígena é refletir sobre nosso futuro ancestral. Com vocês Dona Catarina Nimbopyrua e Luana Vieira:

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O dia 19 de abril, instituído pelo então presidente Getúlio Vargas, por meio do Decreto-Lei nº 5.540, de 2 de junho de 1943, como Dia do Índio, remete às recomendações do Congresso Indigenista Interamericano, ocorrido alguns anos antes, em 1940, na cidade de Patzcuaro, México. Em 2022, a partir do projeto de lei da deputada Joenia Wapichana, esta data passou a se chamar Dia dos Povos Indígenas, buscando ressaltar a diversidade de culturas indígenas existentes em nosso país. É um contraponto ao termo “dia do índio”, já que esta expressão remonta a um personagem estigmatizado, uno e preso ao passado, que não abarca a diversidade étnica, cultural e política das populações indígenas do nosso país.

Diferente do que foi aprendido nas escolas (e ainda é), o mês de abril é muito mais do que um mês para “comemorar” as culturas indígenas, e sim para marcar a resistência e as lutas destas populações. Como exemplo da mobilização desses povos, destacamos o Acampamento Terra Livre, que ocorre todos os anos em Brasília e que neste mês marca sua 20ª edição, com o tema “Nosso marco é ancestral, sempre estivemos aqui”. É uma referência a tramitação de projetos de lei relacionados à tese do marco temporal, que coloca em risco todas as demarcações de terra indígenas ocorridas após 1988.

A ancestralidade e territorialidade são duas das questões centrais relacionadas aos povos indígenas. Apesar de muitas descobertas científicas terem tido base nos conhecimentos das populações indígenas, o epistemicídio, no qual destaca-se o apagamento dos conhecimentos e culturas dos povos subalternizados pelos colonizadores europeus, marca a história desses povos.

Aqui, trataremos um pouco da temática da saúde mental, que sempre foi central para as populações indígenas e para os quais foram desenvolvidas estratégias de cuidado avançadas. Darcy Ribeiro, em seu texto “Uirá vai ao encontro de Maíra”, publicado pela primeira vez em 1957, relata a história de Uirá e apresenta estratégias sofisticadas de transferência das tensões emocionais utilizadas pelos indígenas Ka’apor do Maranhão.

Segundo o relato antropológico, Uirá perdeu seu filho devido a uma epidemia de gripe que assolava essa população no início do século 20. Por causa disso, ficou Inãron, palavra na língua tupi que foi traduzida como raiva ou cólera. Para sanar esse estado psicológico, a tradição daquele povo entendia ser necessário que o acometido ficasse em total isolamento. Quando uma pessoa declarava-se Inãron, seus familiares deixavam a casa para permitir que aquele que sofria de tal mal pudesse extravasar sua ira, a ponto de ser permitido até colocar a casa abaixo, se assim desejasse.

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Passado o ataque, reconstruía-se o que foi quebrado ou destruído e a vida seguia em frente. Tudo isso tinha como objetivo que essa tensão fosse desviada para conflitos com grupo.

Porém, no caso de Uirá, mesmo após esta estratégia, ele seguiu cada vez mais deprimido, seguindo então outro caminho prescrito pela tradição, que era juntar-se a outros errantes para extravasar as tensões na prática da guerra, indo guerrear com algum grupo inimigo – a guerra, neste caso, não tem a função de disputa de poder ou território, mas sim a um aspecto mais ritualístico.

Mesmo depois da estratégia de assumir o furor guerreiro, Uirá seguia pensando no filho morto, sendo que nem o isolamento nem a guerra o puderam consolar. Como última estratégia de retorno a sanidade, o guerreiro deveria sair sozinho e em vida tentar ir ao encontro de Maíra. o criador. Essa é a estratégia mais terrível e perigosa que um Ka’apor poderia se propor.

A saúde e a cura para as populações indígenas passam necessariamente pelos aspectos espirituais e pelo território. O sagrado se manifesta no contato com a natureza, onde reside tudo de visível e invisível que rege o mundo.

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A tríade entre a saúde física, mental e espiritual não pode ser desmembrada, existindo diversas ferramentas, como os rituais, os cantos, as danças, as substâncias sagradas, o fogo, a vida comunitária, a alimentação e o diálogo com a natureza e o criador, que se manifesta em tudo. Para os Guarani e Tupi, por exemplo, a Casa de Reza é um dos espaços de manifestação da cura.

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O canto ensina a tradição aos mais novos, mantém a língua viva, alegra os corações e fortalece o Nhanderekó, que é o modo desses povos de enxergar o mundo. A fitoterapia, produto da cesta básica do SUS e nativa dos povos originários, é um importante instrumento de cura para diversos povos indígenas.

Não se trata somente de chás e banhos, mas também da relação desta prática, intenção e diálogo com o sagrado. É preciso conversar com as coisas vivas. Por isso, a principal doença que pode acometer uma população indígena é a proibição de acesso ao seu próprio território.

Os rituais sagrados cicatrizam as feridas da alma, o que faz as feridas físicas serem mais suportáveis. Para esses povos, quando uma pessoa sente-se deprimida, diz-se que apagou-se sua fogueira interna.

Faz importante aqui diferenciar a medicina tradicional indígena da saúde indígena, coordenada pela Secretaria de Saúde Indígena (SESAI) e vinculada ao Ministério da Saúde. A coordenação dos trabalhos ligados à saúde indígena são dos Distritos Sanitários Espaciais Indígenas (DSEIs), seguindo um modelo de organização descentralizado e divididos com base no espaço etno-cultural e geográfico dos povos indígenas, diferentes das divisões entre estados e municípios.

A política de saúde indígena ainda é um campo de bastante embate, entre outras coisas, pela dificuldade de articulação entre a medicina tradicional indígena e a saúde alopática, pela distribuição dos recursos e pela dificuldade de atendimentos especializados, já que muitas aldeias são localizadas em lugares distantes e de difícil acesso.

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Ainda assim, a saúde indígena é o único recurso que as populações indígenas têm para tratar aquelas doenças trazidas pelos não-indígenas e que, em muitos casos, não tem solução por meio da medicina tradicional, como a tuberculose, a malária, doenças sexualmente transmissíveis e infecções respiratórias.

Todas essas ferramentas fortalecem esses povos que, apesar de séculos de agruras, resistem. Todas as estratégias de fortalecimento da tríade corpo, mente e espírito tem como objetivo principal a valorização de seus modos de vida ancestrais.

A medicina ocidental tem foco no físico, mental e social, porém desenvolveu-se pouco no fator espiritual. Nesse espaço, os pajés são considerados por seus pares os verdadeiros cientistas.

Essa, aliás, é uma das lutas contemporâneas desses povos: de que os conhecimentos milenares praticados pelos anciãos também sejam reconhecidos pelo sistema de saúde que atuam dentro das aldeias. É fundamental a manutenção dos territórios, que é onde todo esse conhecimento se circunscreve, escrito na natureza e preservado por meio da memória dos anciãos. É preciso reconhecer o Nhanderekó, a forma indígena de ver o mundo.

+Leia também: Mudanças climáticas: assunto de saúde pública

A floresta é um organismo vivo que não se queixa, porém sofre de doenças como os seres humanos. Infestado pelos comedores de terra, que é como o Xamã Davi Kopenawa se refere aos garimpeiros e madeireiros ilegais que infestam os seus territórios. A morte daqueles que falam a verdade, ou vão em busca de liberdade e justiça, é consequência desse adoecimento, que vem consumindo lideranças indígenas, xamãs, pajés, ambientalistas, ativistas políticos… É a mesma doença que consumiu, em 2022, Bruno Pereira e Dom Phillips.

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São os povos indígenas que sempre estiveram à frente das lutas contra as mudanças climáticas, que a tempos surgiram em seus territórios e que, nos últimos anos, têm sido percebidas por todos. Os povos indígenas desde sempre seguem na busca incansável do Bem Viver, que é um conceito filosófico e prático que sustenta diferentes formas de organização social dessas populações.

Viver em harmonia e reciprocidade com as pessoas, com a natureza e com tudo que faz parte dela, em contraponto à visão capitalista de desenvolvimento a qualquer custo, competição, consumo e acumulação. Todos podemos contribuir respeitando, ouvindo e fortalecendo as pautas indígenas, que, mais do que tudo, nos fazem acreditar que existe um outro mundo e uma outra forma de viver possível aquela que acolhe e inclui todos.

*Este texto foi escrito com a contribuição das falas indígenas realizadas no 1º Encontro de Medicinas Tradicionais Brasileiras e Promoção da Saúde Global, realizado no Museu das Culturas Indígenas em São Paulo, em 06 de abril de 2024.

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