É preciso lembrar de esquecer
Esquecimento é parte importante da saúde mental, mas nossa vida digital está nos tirando essa capacidade
A internet substituiu o conhecimento pela informação, mas parece que não nos demos conta dos riscos dessa mudança. Uma das transformações mais sutis e radicais é que estamos desaprendendo a esquecer, perdendo a humildade daqueles que se sabem desmemoriados.
Afirmamos, do alto de certezas erguidas sobre buscas duvidosas no google ou em IAs que deliram, que temos certezas!
Hoje em dia esquecemos mal porque não nos damos conta de que estamos mais desmemoriados do que nunca. Delegamos a nossa memória aos dispositivos digitais e não nos damos conta que o sentimento de que temos o controle sobre as nossas lembranças é ilusório.
Exemplo disso são as fotos que tiramos para a recordação de momentos que ficarão perdidos entre milhares de imagens nas memórias dos nossos celulares.
Temos todo tipo de informação ao alcance de um toque, mas perdemos o caminho de casa. Há quem não se desloque, mesmo por caminhos cotidianos, sem o auxílio do mapa, do “waze”. A casa, representante simbólico do self, também não funciona sem um complexo informacional que controla tudo.
Assim, não precisamos lembrar do bolo no forno, ele se apagará sozinho quando for chegada a hora, graças a uma memória eletrônica.
Esquecemos mal nos dias de hoje porque nossas certezas no fazem esquecer do benefício da dúvida, da angústia do não-saber, da impotência tamanha que nos toma diante de tudo aquilo em que somos ignorantes. Com as tecnologias da informação, hoje todo mundo se julga especialista em tudo, pelo menos nos grupos de zap.
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O valor psíquico do esquecimento
Não é ser contra os confortos e facilidades do mundo da informação, mas lembrar que aquilo que esquecemos também nos define. Freud descobriu que a força do recalque atua no esquecimento em todos nós, inclusive para nos proteger de conteúdos dolorosos e/ou inconscientes.
Aquilo que nosso psiquismo decide esquecer fala muito mais sobre quem realmente somos do que as todas as afirmações conscientes que fazemos sobre quem achamos que somos.
Individualmente, a nossa capacidade de esquecimento – ou de memória – varia de pessoa para pessoa. Como exatamente funciona a nossa memória ainda é um tema que guarda muitos mistérios para a ciência. E uma das belezas da psicanálise é nos lembrar que não há como compreendermos o funcionamento da memória se não tivermos clareza a respeito de como funciona o esquecimento.
Conhecer os nossos esquecimentos é descobrir no que estamos nos transformando. Se esquecemos mal hoje em dia, também é porque as referências coletivas que fundam uma memória comum perderam espaço para a narrativa do indivíduo isolado em sua própria experiência.
O indivíduo do celular e das redes sociais é um indivíduo conectado, mas nem por isso mais coletivo. Pelo contrário, é o indivíduo sujeito ao esquecimento da própria história, desconectado das memórias e da moral coletiva.
Estamos nos transformando em criaturas autorreferidas. Com isso, sofremos quase sem saber não apenas pela falta de memória, mas sobretudo pelo excesso de esquecimento.







