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O Futuro do Diabetes Por Blog Carlos Eduardo Barra Couri é endocrinologista e pesquisador da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), além de autor do livro O Futuro do Diabete (Ed. Abril). Aqui ele mapeia os cuidados e os avanços para o controle do problema

Você teve Covid-19? Como anda sua glicose?

Muitos estudos andam apontando uma relação entre infecção pelo coronavírus e novos casos de diabetes. Nosso colunista conta o que se sabe sobre o assunto

Por Carlos Eduardo Barra Couri Atualizado em 28 dez 2021, 16h02 - Publicado em 28 dez 2021, 10h07

No início da pandemia por Covid-19, a comunidade médica mundial achava que se tratava de uma doença iminentemente respiratória. Passados dois anos, sabemos que a infecção pelo vírus Sars-CoV-2 pode provocar desde quadros totalmente assintomáticos até situações dramáticas, com comprometimento de diversos órgãos, como rins, cérebro, fígado, sistema nervoso etc.

Diversos estudos, em diferentes continentes, apontam que existe uma relação epidemiológica entre Covid-19 e novos casos de diabetes. E vários fatores podem estar envolvidos nesse aumento de diagnósticos.

Um deles, e mais óbvio, é o fato de que muitas pessoas já tinham diabetes antes da Covid-19 e descobriram a elevação da glicose simplesmente porque deram entrada no hospital – ainda mais durante esse período, em que houve um aumento de casos de obesidade e sobrepeso mundo afora.

Outra causa de elevação da glicose é a necessidade do uso de corticóides dentro do hospital. Esse tipo de medicamento é sabidamente capaz de induzir diabetes em pessoas predispostas, já que destrói as células produtoras de insulina pelo pâncreas ou reduz a ação desse hormônio nos pacientes.

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Não custa lembrar que a insulina é quem coloca o açúcar dentro das células, permitindo seu aproveitamento. Se ela não funciona direito, sobra glicose na circulação.

O próprio estresse físico provocado pelo quadro infeccioso libera uma reação inflamatória e dispara hormônios que fazem os níveis de glicose no sangue subirem às alturas. E isso é visto com qualquer tipo de infecção, e não somente com o Sars-CoV-2.

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Ainda existem, porém, algumas lacunas a serem respondidas: as alterações de glicose perduram por muito tempo ou por curto prazo? E se for transitório, podemos falar em cura? Pacientes que tiveram quadro leve ou totalmente assintomático foram pouco avaliados em estudos clínicos e não temos estatísticas confiáveis nesses casos.

Um dos grandes mistérios é saber se a Covid-19 predispõe ao diabetes do tipo 1. Esta é uma doença autoimune em que o sistema imunológico da própria pessoa ataca suas células produtoras de insulina no pâncreas.

Essa situação pode ser detectada na prática através da dosagem de anticorpos no sangue. E existe uma hipótese de que a infecção pelo Sars-CoV-2 poderia “provocar” o sistema imunológico, fazendo com que ele se voltasse contra o próprio pâncreas do paciente.

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Mas os dados observados ainda são contraditórios: há países em que houve aumento de casos de diabetes tipo 1 após a infecção por Covid-19, só que temos outras pesquisas apontando que não.

Para tentar elucidar se a Covid-19 é capaz de provocar o diabetes tipo 1 e quais os mecanismos envolvidos, as pesquisadoras Viviane Boaventura, da Universidade Federal da Bahia, e Kelen Malmegrim de Farias, da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto, estão conduzindo, junto a uma equipe, um estudo para avaliar o perfil imunológico, as características clínicas e a presença de anticorpos contra o pâncreas de pessoas atendidas no Centro Pós-Covid do Hospital Especializado Octávio Mangabeira, da Fiocruz, na Bahia. Em breve teremos resultados preliminares desta importante pesquisa nacional.

Vale lembrar que, até o momento, não sabemos qual a relação específica entre o diabetes e a variante Ômicron.

Mas, enquanto temos mais dúvidas do que respostas, fica aqui a única certeza: lembre-se de conversar com seu médico e incluir a dosagem de glicose no check-up após a Covid, mesmo em casos leves da infecção.

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