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Violência digital ameaça saúde mental de crianças e adolescentes

Dados da Unicef mostram que um em cada cinco jovens brasileiros entre 12 e 17 anos foi vítima de violência sexual digital no último ano

Por Juliana Vieira A. Silva, psicóloga* 23 Maio 2026, 05h00
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Uso da internet entre crianças e adolescentes sem moderação pode trazer prejuízos cognitivos, além de exposição à violência de diferente tipos (Designed by Freepik/Freepik)
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A infância e a adolescência são períodos marcados por descobertas, construção de identidade e busca por pertencimento. Hoje, porém, esse processo acontece em um ambiente muito diferente do vivido por gerações anteriores e isso é causado, principalmente, pelo acesso universal ao ambiente digital. Os impactos já começam a aparecer de forma preocupante na segurança e na saúde mental de crianças e adolescentes.

O Maio Laranja, mês em que ocorre a Campanha Nacional de Conscientização e Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, deve trazer um alerta sobre como essas violências encontraram uma porta de entrada facilitada nas redes sociais e aplicativos de mensagens.

Dados recentes do relatório Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia, divulgado pela Unicef em parceria com a ECPAT International e a Interpol apontam que um em cada cinco menores brasileiros, com idades entre 12 e 17 anos, foi vítima de violência sexual em meios digitais no último ano, o que representa cerca de 3 milhões de jovens no país.

O estudo revela também que um terço das vítimas não contou a ninguém sobre o que aconteceu, comportamento que reflete a vergonha, medo de punição e até receio de não serem acreditadas.

+Leia também: Lei Felca: como o ECA Digital pode influenciar a saúde de crianças e adolescentes?

Como o aliciamento online funciona

Esse tipo de violência pode ocorrer de várias formas, desde o envio de conteúdo sexual não solicitado até a pedidos de imagens íntimas, ameaças, extorsão ou manipulação emocional para encontros presenciais. O processo de aliciamento online, conhecido internacionalmente como grooming, costuma ser gradual.

Agressores se aproximam das vítimas explorando vulnerabilidades típicas da adolescência: a necessidade de aceitação social, o desejo de pertencimento e a busca por validação emocional. Elogios, promessas de amizade, confidências e demonstrações de apoio são usados como estratégias para construir uma falsa relação de confiança.

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Quando a manipulação evolui para a exploração, o adolescente frequentemente já está emocionalmente envolvido ou intimidado, o que aumenta a sensação de culpa e de isolamento. Os efeitos dessas experiências podem ser duradouros e, em alguns casos, irreversíveis.

O problema não se limita ao episódio de violência em si. Ele se prolonga no tempo e, muitas vezes, se transforma em sofrimento psicológico profundo.

Os sinais de alerta na saúde mental

Jovens expostos a esse tipo de violência têm, pelo menos, cinco vezes mais chances de praticar automutilação ou apresentar pensamentos suicidas em comparação com aqueles que não passaram por uma experiência dessas.

Por isso, é fundamental que pais, responsáveis e profissionais da rede escolar estejam atentos a sinais como:

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  • Ansiedade persistente;
  • Sensação de vigilância constante;
  • Retraimento social;
  • Dificuldades de confiança;
  • Sentimentos intensos de vergonha ou culpa.

Tais comportamentos podem indicar que a criança ou adolescente é uma vítima e pode estar em situação constante de tensão psicológica. Em situações mais graves, comportamentos autodestrutivos podem acontecer.

O ambiente online intensifica a vulnerabilidade, enquanto a sensação de anonimato facilita a atuação de agressores, ao mesmo tempo em que a velocidade de compartilhamento de conteúdos amplia o potencial de exposição e humilhação.

Afora este cenário, o uso de inteligência artificial para produzir imagens manipuladas ou deepfakes de conteúdo sexual envolvendo adolescentes também se torna um desafio.

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Diálogo e educação digital como proteção

Em tempos de crescentes experiências virtuais, uma das estratégias mais eficazes de prevenção continua sendo a construção de ambientes reais de confiança e diálogo.

Muitos pais ainda associam o uso da internet apenas a riscos tecnológicos e subestimam a dimensão emocional das interações digitais. No entanto, para crianças e adolescentes, as relações online podem ser tão significativas quanto as presenciais.

A proteção dos pequenos não passa apenas por controle ou restrições, mas, principalmente, por educação digital e escuta ativa. Conversas frequentes sobre relacionamentos online, privacidade, limites e segurança ajudam a construir repertório para que jovens reconheçam situações de risco. Quando esse espaço de diálogo existe, a probabilidade de procurar ajuda aumenta significativamente.

Proteger crianças e adolescentes no ambiente digital não significa afastá-los da tecnologia, mas prepará-los para o uso seguro dela, com autonomia e senso crítico. No fim das contas, o que está em jogo não é apenas o uso da internet, mas a saúde mental e o desenvolvimento saudável de uma geração inteira.

*Juliana Vieira A. Silva tem pós-doutorado em psicologia, professora da Univali e presidente do Instituto Brasileiro de Terapia Cognitivo-Comportamental.

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