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Psicoterapia assistida por psicodélicos: de volta para o futuro?

Tratamentos com psilocibina, MDMA e LSD estão cada vez mais próximos de virar uma realidade para pessoas em sofrimento mental

Por Yara Nico, psicóloga*
Atualizado em 14 jul 2023, 13h12 - Publicado em 14 jul 2023, 10h07

Estamos vivendo um momento histórico. Pesquisas em psicoterapia assistida por psicodélicos (PAP) despontam na vanguarda da saúde mental.

Esse campo está em plena expansão, com um aumento vertiginoso de publicação de ensaios clínicos, o que tem renovado a esperança de pessoas em sofrimento.

Os novos estudos em PAP são particularmente promissores, tendo demonstrado que diferentes psicodélicos podem ser eficazes e seguros no tratamento de diversos problemas de saúde mental.

Estamos falando no uso de MDMA (“ecstasy”) para o transtorno doestresse pós-traumático (TEPT); psilocibina (componente ativo dos “cogumelos mágicos”) para depressão resistente a tratamento, tabagismo, transtorno por uso de álcool e sofrimento existencial em pacientes com câncer em estágio avançado; dimetiltriptamina – DMT (psicodélico presente no chá de ayahuasca) para depressão resistente a tratamento; cetamina para depressão resistente; e LSD (dietilamida do ácido lisérgico) para ansiedade associada a doença com risco de vida.

Conforme os estudos avançam e uma forte promessa passa a ser divulgada na mídia, a população em geral e os profissionais de saúde, em particular, precisam estar bem informados. É comum observar duas posturas extremas, ambas fruto de desinformação.

Numa ponta, a ideia de que psicodélicos são substâncias extremamente perigosas e sem potencial terapêutico e, na outra, a ideia de que são substâncias milagrosas e que basta ingeri-las para obter a cura de quase todos os sofrimentos mentais.

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Esses dois extremos são temerários e podem prejudicar o avanço do campo. Informação baseada em conhecimento científico é, portanto, do que precisamos.

+ LEIA TAMBÉM: Estudo abre caminho a psicodélico antidepressivo

O que são substâncias psicodélicas?

Psicodélicos são substâncias usadas milenarmente pela humanidade, em várias culturas ao redor do mundo, em rituais de conexão espiritual e fins de cura.

Nesses contextos são entendidos como compostos sagrados e curativos.

Encontrados na natureza (em plantas, fungos, animais) ou sintetizados pelo homem, modificam momentaneamente funções cerebrais, produzindo alterações profundas na percepção, no pensamento e nas emoções.

Os chamados “estados não ordinários de consciência” não são alterações quaisquer.

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Isso se expressa no próprio significado da palavra “psicodélico”, inventada em 1956 pelo psiquiatra Humphry Osmond a partir de duas raízes do grego: Psyche (mente) e Delos (manifestar). Substâncias psicodélicas são aquelas que levam a ”mente a se manifestar”, indicando seu poder psicoterapêutico.

Nas décadas de 1950 e 1960, pesquisadores pioneiros exploraram o uso terapêutico dos psicodélicos. Os mais de 1000 artigos científicos publicados nesses anos, com o maior rigor científico da época, indicavam resultados bem positivos para diferentes sofrimentos mentais.

No entanto, ao final da década de 1960, esses avanços foram interrompidos.

Substâncias psicodélicas foram criminalizadas por razões políticas e não científicas, espalhando um verdadeiro pânico moral e social (com grande campanha na mídia baseada em fake news), o que inviabilizou a continuidade das pesquisas.

Mas, depois de quase meio século de proibição, cá estamos de volta para o futuro, assistindo à renascença das pesquisas com psicodélicos.

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Psicodélicos chamam a atenção da comunidade científica por apresentar, em geral, baixíssima toxicidade e não causar dependência química. Seu uso em tratamentos, contudo, requer indicação e acompanhamento profissional.

E, claro, existem contraindicações: pessoas com diagnóstico de psicose, esquizofrenia ou bipolaridade (população que não participa das pesquisas com psicodélicos).

Fora desse grupo de risco, o maior potencial de dano não está diretamente relacionado com a substância em si, mas com o contexto de uso. É perigoso, por exemplo, tomar um psicodélico e dirigir, ficar sozinho ou com pessoas que podem estimular ou emitir comportamentos de risco.

+ LEIA TAMBÉM: A nova onda da terapia psicodélica

A psicoterapia assistida por psicodélicos

Para explicar como funciona o modelo da PAP, é fundamental apresentar um princípio muito bem estabelecido desde as pesquisas das décadas de 1950 e 60: o desfecho terapêutico não depende apenas da ingestão da substância.

Depende da interação entre o psicodélico, o set (mindset, contexto interno do participante) e o setting (ambiente em que ocorre a experiência).

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Por isso, falamos num modelo de psicoterapia que é assistida por essas substâncias.

Parte do trabalho dos terapeutas é a preparação do set do participante (apoio para desenvolvimento de intenção, postura mental e habilidades para navegar pela experiência psicodélica) e construção do setting, um ambiente acolhedor baseado na construção do vínculo de confiança.

Na sessão com a substância psicodélica, os participantes recebem uma venda para os olhos para “viajar para dentro” e aumentar o contato com o mundo interno (memórias, emoções, sensações físicas e pensamentos).

Os terapeutas são especialmente treinados para acompanhar a sessão (que pode levar até 8 horas a depender da substância e da dose), oferecendo suporte e segurança qualificados. Uma playlist com músicas devidamente escolhidas para essas sessões é um elemento sempre presente nesse modelo. É tão importante que há quem diga que a música é “o terapeuta escondido”.

Sessões de preparação e integração são também conduzidas pelos terapeutas e constituem componentes-chave desse modelo de psicoterapia.

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Antes da sessão com a substância psicodélica, os pacientes participam de sessões de preparação nas quais recebem informações sobre efeitos esperados e os possíveis desafios, estabelecem intenções para a jornada psicodélica e cultivam habilidades que potencializam uma experiência terapêutica.

Após a sessão com a substância, ocorrem as sessões de integração, que ajudam os pacientes a processar a experiência e a incorporar as lições aprendidas em estados não ordinários de consciência, em mudanças concretas em suas vidas cotidianas.

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A regulamentação

A linha de pesquisa mais avançada no campo da PAP é a de “Psicoterapia Assistida por MDMA para TEPT” e vem sendo conduzida pela pioneira Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos (MAPS), nos EUA.

Estudos de fase 3 indicam, de modo consistente, que, depois de 15 sessões de psicoterapia (sendo apenas três delas com MDMA), quase dois terços dos participantes com traumas severos não apresentam mais critérios para diagnóstico de TEPT.

Resultados muito superiores aos obtidos com os melhores fármacos e psicoterapias disponíveis até o momento para tratar esse sofrimento mental.

É possível que o FDA (a Anvisa dos EUA) aprove a “Psicoterapia com MDMA para Trauma” já para 2024.

Será um fato inédito, não só pela regulamentação de um psicodélico como um fármaco, mas também porque será a primeira vez que o FDA irá regulamentar não exatamente um fármaco, mas um protocolo de acompanhamento psicológico que inclui sessões com uma medicina.

Estamos, portanto, vivendo um momento histórico. O desafio para a ciência ocidental não é pequeno. Se quisermos incorporar essas substâncias aos nossos tratamentos, precisaremos reconhecer a necessidade de interlocução entre várias áreas do saber.

+ Leia também: A terapia psicodélica para tratar depressão, vícios e ansiedade

E, como numa viagem circular no tempo, em que futuro e passado se encontram – curiosamente experiências comuns em viagens psicodélicas – o desenvolvimento dessa ponta de lança em saúde mental precisará se conectar e honrar todo o conhecimento acumulado pelos povos ancestrais e suas tradições.

Esse é nosso dever se estivermos realmente interessados em incorporar essas medicinas com responsabilidade, justiça e compromisso com o cuidado humano.

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* Yara Nico é psicóloga e professora da The School of Life, em São Paulo. Foi professora do Centro Paradigma de Ciências do Comportamento, da PUC- SP e da Universidade São Judas Tadeu. É uma das autoras do livro A depressão como fenômeno cultural na sociedade pós-moderna. Dedica-se também ao estudo da psicoterapia assistida por psicodélicos

 

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