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Escetamina, primeiro antidepressivo inalável, é aprovado no Brasil

Spray nasal de ação ultrarrápida representa um marco no tratamento da depressão resistente a remédios, mas deve ser administrado só em hospitais. Entenda

Por Chloé Pinheiro Atualizado em 9 nov 2020, 11h26 - Publicado em 6 nov 2020, 12h09

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso do cloridrato de escetamina, primeiro remédio aplicado via spray nasal para o tratamento da depressão resistente. O fármaco é considerado a maior inovação no combate à doença em décadas.

Desenvolvido pela farmacêutica Janssen e distribuído sob o nome comercial Spravato, ele só poderá ser administrado em hospitais e clínicas autorizadas, sob a supervisão de um profissional de saúde (abordaremos isso mais pra frente). E é recomendado quando dois ou mais medicamentos contra a depressão falharam – ou na presença de comportamento ou ideação suicida aguda.

Seus efeitos, ao contrário de outros antidepressivos, são rápidos. Nos estudos que antecederam a aprovação, ele reduziu os sintomas em até 24 horas depois da primeira inalada. Como comparação, os fármacos atuais levam mais de três semanas para promover alguma melhora, e cerca de um terço dos portadores do transtorno não responde a eles.

Outra novidade é o mecanismo de ação. Enquanto os antidepressivos utilizados até agora tentam equilibrar os níveis de neurotransmissores ligados à sensação de bem-estar (serotonina, noradrenalina e dopamina), a escetamina atua nos receptores de glutamato, molécula responsável por melhorar as conexões entre os neurônios.

A escetamina já é liberada nos Estados Unidos, Canadá, em parte da União Europeia e em outros países. O preço máximo ainda não foi definido no Brasil, portanto ainda não há informações sobre a chegada do fármaco às clínicas.

Efeito da escetamina nos sintomas da depressão

A Janssen apoiou cinco testes clínicos com mais de 1 700 adultos portadores de depressão resistente. Nas pesquisas de curto prazo, os participantes que receberam a escetamina intranasal em combinação ao tratamento oral apresentaram melhora nos sintomas superior à observada no uso do comprimido com um placebo.

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O trabalho de longo prazo, publicado no periódico JAMA Psychiatry mostrou que voluntários com a doença controlada tinham um risco de recaída 51% menor se continuassem tomando a escetamina uma vez a cada quinze dias.

Já os estudos com indivíduos em alto risco de suicídio indicaram diminuição nos sintomas depressivos, mas não no comportamento e nas ideações suicidas. Até por isso, a ideia é que a escetamina atue aqui como um coadjuvante.

Cuidados na administração

Apesar de promissora, a droga deverá ser empregada em situações bem controladas e sempre com supervisão profissional, em clínicas médicas certificadas. Isso tanto para reduzir o risco de uso indevido e abuso, uma vez que a melhora é rápida e significativa, quanto para monitorar efeitos colaterais.

A escetamina pode provocar reações adversas como dissociação (a sensação de “estar fora do corpo”), tontura, sonolência, dormência em regiões do corpo, aumento da pressão arterial, humor eufórico e vertigem. Sintomas que, segundo as autoridades, exigem um acompanhamento próximo para evitar acidentes, dependência e outros problemas graves.

Medicamentos psicodélicos contra transtornos psiquiátricos

A escetamina é a primeira representante da classe dos psicodélicos a ganhar status oficial de medicamento psiquiátrico. Trata-se de uma espécie de prima enfraquecida da cetamina (ou ketamina), analgésico desenvolvido nos anos 1960 e até hoje consumido de maneira recreativa por seus efeitos no cérebro.

Alguns psicodélicos parecem aumentar significativamente a plasticidade cerebral, isto é, a capacidade de adaptação da mente, o que representaria uma janela de oportunidade para intervenções realmente eficazes em transtornos psiquiátricos. Eles estão sendo estudados por pesquisadores e instituições sérias ao redor do mundo.

Além da escetamina, LSD, MDMA, ayahuasca e a psilocibina, substância alucinógena presente nos cogumelos, destacam-se por seu potencial de ação terapêutica. Essa última parece a mais próxima de virar remédio. Em 2019, a Food and Drug Administration Agency (FDA), que regula medicamentos nos Estados Unidos, classificou a psilocibina como uma “terapia inovadora” para a depressão, o que acelera as pesquisas conduzidas com ela.

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