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Precisamos falar mais da doença de Alzheimer

Médico conta alguns dos avanços e dos desafios para lidar com esse problema de saúde pública — e que deve crescer com o envelhecimento da população

Por Dr. Rodrigo Rizek Schultz, neurologista* Atualizado em 16 jul 2019, 10h22 - Publicado em 14 jul 2019, 11h41

Começa mais ou menos assim: a mesma pergunta é feita repetidas vezes. Há também uma dificuldade em acompanhar conversas e se articular. Sair do carro se transforma em pesadelo porque achar o caminho não é mais algo natural. Comportamentos como esses evidenciam o primeiro e mais característico sintoma do Alzheimer, a perda da memória recente.

O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa que provoca a diminuição das funções cognitivas. Em poucas palavras, as células cerebrais morrem, prejudicando capacidades como memória, orientação e raciocínio. A progressão da doença acarreta em problemas mais graves, como esquecimento de fatos mais antigos,  desorientação no espaço, irritabilidade e perda da autonomia.

Falar sobre a doença de Alzheimer já é uma questão de saúde pública. No mundo, estima-se que 50 milhões de pessoas sofram de demência — grupo de distúrbios cerebrais que causam a perda de habilidades intelectuais e sociais. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Alzheimer é responsável por até 70% dos casos de demência. Aqui no Brasil, o cenário é particularmente desafiador. O número de indivíduos vivendo com demência deve triplicar até 2050, segundo relatório da própria OMS. E o número de pessoas diagnosticadas com Alzheimer deve crescer em proporção semelhante.

Ainda não há cura para a enfermidade e o objetivo do tratamento se limita a frear os sintomas. Com a iminência do cenário descrito anteriormente, autoridades de saúde se veem diante de uma difícil empreitada. Como viabilizar soluções que melhorem a qualidade de vida de pacientes e cuidadores no contexto de uma doença de evolução progressiva e inexorável?

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Nesse sentido, alguns passos já foram dados. É o caso da ampliação do acesso aos tratamentos via sistema público de saúde, o que contribui para minimizar a progressão da doença e aprimorar o bem-estar de quem convive com o Alzheimer. Há um ano o Ministério da Saúde disponibiliza o medicamento rivastigmina em adesivo transdérmico para o tratamento, como previsto no Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas.

O remédio age inibindo uma enzima responsável por degradar a acetilcolina, neurotransmissor essencial nos processos cognitivos, principalmente a memória. Ao administrá-lo, temos uma oferta maior de acetilcolina no organismo. A versão oral da rivastigmina já era oferecida pelo SUS, mas sua ingestão pode causar alguns desconfortos gastrointestinais, como náusea, vômito e diarreia. A vantagem do adesivo é que a medicação é liberada gradualmente através da pele, reduzindo a possibilidade de efeitos colaterais por não passar diretamente pelo trato digestivo.

Existem outras frentes que ainda precisam ser trabalhadas em termos de políticas públicas. A complexidade da doença de Alzheimer demanda a atuação de equipes de diversas áreas e uma abordagem integral que facilite a interação médico-cuidador-paciente. O médico atuando sozinho, aliás, é incapaz de resolver muitas das questões relacionadas à enfermidade. As ações multidisciplinares podem interferir positivamente no tratamento, com melhoras significativas de problemas comuns como a depressão.

O Alzheimer pode não ter cura, mas, se diagnosticado logo no início, o tratamento adequado ajuda a impedir a progressão e amenizar os sintomas, proporcionando melhor qualidade de vida ao paciente e reduzindo o sofrimento dos cuidadores e da família. O avanço da ciência abre um caminho promissor e traz esperança para toda sociedade.

* Dr. Rodrigo Rizek Schultz é neurologista e Presidente da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz)

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