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O que comemos hoje define o nosso futuro

Médico lança manifesto convocando as pessoas a terem melhores escolhas à mesa. Isso significa um futuro com mais saúde e menos doenças

Por Cid Pitombo, cirurgião bariátrico*
Atualizado em 4 mar 2021, 12h23 - Publicado em 3 mar 2021, 18h29

As doenças que mais matam no mundo — infarto, câncer, AVC, falência renal, hipertensão, diabetes… — na maioria das vezes estão associadas aos alimentos que ingerimos ao longo da vida. Isso porque a dieta está diretamente ligada ao desenvolvimento da obesidade, que é fator de risco para esses problemas de saúde.

Até mesmo a Covid-19, que ceifou em menos de um ano a vida de mais de 2 milhões de pessoas mundo afora, foi muito mais letal em indivíduos acima do peso e com essas comorbidades. Nesse contexto, o excesso de gordura, sal, açúcar e álcool se transformou ainda mais em um vilão.

É quase impossível chegar à velhice saudável se passarmos toda a vida ingerindo alimentos que se acumulam no corpo em forma de gordura, inclusive nos nossos órgãos. Não se trata de fazer dietas mirabolantes. O problema está no excesso. Não sou a favor dessas propostas de elevar o consumo de gordura e retirar todo o carboidrato, por exemplo. Tudo que é exagero não se sustenta no longo prazo.

Precisamos aprender a comer bem, todo dia e para o resto da vida. E se alimentar da forma correta é consumir um pouco de carboidrato, um pouco de proteína, uma porção de legumes e verduras e frutas… Em todas as refeições. Comer bem é simples. E o hábito deve ser adotado desde a infância, estimulado pelos pais.

A obesidade é uma doença que, muitas vezes, se constrói aos poucos. São anos acumulando gorduras em excesso e se tornando cada vez mais compulsivo à mesa. Ingerindo mais calorias do que gastando. Até o momento em que o descontrole fica quase impossível de reverter, mesmo comendo menos.

O mundo é perverso e as tentações estão por todos os lados. A pessoa liga a TV hoje e o que mais tem ali é programa de receitas de doces e comidas maravilhosas, cheias de gorduras e açúcares. Aí vai para as redes sociais e encontra um bombardeio de posts e propagandas de gostosuras. Chega na festinha do amigo, e o cardápio é todo à base de farinha e frituras. O complemento é a cerveja, cheia de amidos que se transformam em açúcar no organismo. Se não tem a comida feita em casa, vem a industrializada, que, além de gordura, é cheia de sódio, utilizado como conservante. Como sobreviver a isso?

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Sim, é preciso se esforçar. E lembrar sempre que a saúde é o nosso maior patrimônio. Na hora de se divertir, cheio de alimentos ruins e bebidas alcoólicas, não faltam amigos. Mas e quando ficamos doentes, alguém nos socorre? Se você deixar de ingerir o que lhe oferecem, ninguém vai deixar de seu amigo. Não se preocupe. Mantenha-se firme em seu propósito de não engordar ou de emagrecer.

Se for o caso, leve sua alimentação saudável ao evento ou ao trabalho. Quem sabe alguém não se inspira em seu exemplo? Comer abobrinha, berinjela, cenoura, chuchu, brócolis e couve-flor é uma questão de hábito. No início, você até pode achar ruim, mas depois de um tempo passa a adorar. E nem vai querer passar perto de fast-food.

Chega um momento em que qualquer excesso até enjoa ou causa mal-estar. Sabia que o açúcar é como uma droga? Você come para saciar um desejo e depois quer mais e mais. Aprenda a apreciar o sabor doce das frutas. Tem para todos os tipos e gostos. E não faz mal.

Deveria haver leis e incentivos que estimulassem as vendas de hortifrutigranjeiros e proibissem a venda de alimentos prejudiciais em certos locais, mas o que vemos é o contrário. As crianças estão superexpostas às tentações nos shoppings. Somente nas escolas recebem boa alimentação, e mesmo assim, nem sempre nos lanchinhos enviados pelos pais.

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Eu conheci obesos pelo mundo inteiro. Minha especialidade é a cirurgia bariátrica, solução que adotamos quando as pessoas chegam a um ponto em que não conseguem mais controlar o ímpeto de comer muito e mal. Mas o que vi em todos os lugares em que passei é que essas pessoas estavam levando uma dieta equivocada.

Alguns por acharem legumes e verduras ruins, outros por considerarem caros demais, outros por falta de paciência ou tempo de preparar a comida saudável… Mas o triste fato é que a doença também pode vir pela boca.

Felizmente, essa realidade pode ser mudada. Basta querer, fazer boas escolhas e se empenhar. Cuide da sua alimentação agora e conte depois quais doenças você não teve.

* Cid Pitombo é médico e pesquisador na área de obesidade com atuação no Rio de Janeiro

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