Clique e assine VEJA SAÚDE por R$ 5,90/mês

Por que pessoas acima do peso correm mais risco com o coronavírus

Investigações pelo mundo constatam que a obesidade é um dos fatores mais críticos para o agravamento da Covid-19. Entenda a relação e como se defender

Por Maurício Brum e Juliana Coin - Atualizado em 30 set 2020, 12h16 - Publicado em 14 ago 2020, 13h35

A chegada da Covid-19 ao Brasil veio se somar a outra epidemia, a de sobrepeso e obesidade. Afinal, 56% da nossa população está acima do peso. “E isso já mata mais que a desnutrição no país”, ressalta a médica Lívia Lugarinho Corrêa, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem). Para complicar, o coronavírus também mata mais quem está com quilos extras, como comprovam estudos pelo planeta.

Lívia lembra que pessoas com excesso de peso tendem a ter pressão e glicemia mais elevadas e outras condições propícias a quadros graves de Covid-19. Mas, mesmo entre aquelas livres desses problemas, o mero fato de estar com um peso inadequado coloca o corpo em vulnerabilidade. A obesidade deixa o organismo exposto a inflamação e formação de coágulos, duas situações que pioram as coisas diante de uma infecção pelo vírus Sars-CoV-2.

Não é à toa que o Ministério da Saúde a inclui entre os principais fatores de risco para complicações, ao lado de doenças cardíacas, diabetes e idade avançada. O excesso de peso se tornou algo tão sério na Covid-19 que muitos estados e países contraindicam a volta de algumas pessoas às atividades normais com base no índice de massa corporal (IMC).

Embora seja questionado por especialistas por provocar distorções — quem tem muito músculo pode ficar com o IMC alto, por exemplo —, o cálculo obtido pela divisão do peso pela altura ao quadrado virou critério para determinar quem deve se resguardar mais com o afrouxamento do isolamento social. Alguém com IMC acima de 25 é considerado com sobrepeso; passando de 30, é obeso; e superando 40, tem obesidade mórbida (ou grave).

Ilustração: May Tanferri/SAÚDE é Vital

Um levantamento do governo britânico constatou que, embora menos de 3% da população por lá tenha IMC acima de 40, a proporção passa a ser 8% quando se consideram apenas pacientes internados com Covid-19 em UTIs. Também existem evidências coletadas nesse trabalho de que sujeitos com IMC acima de 35 enfrentam uma probabilidade 40% maior de falecer da doença.

“Quem tem obesidade vai estar mais exposto a essas formas graves e ao risco de mortalidade, e isso seguirá mesmo quando o número de infectados declinar”, avalia o médico Marcos Leão, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM). Daí a orientação de precaução a esses indivíduos agora e nos próximos meses.

Só que isso nem sempre acontece. No Rio de Janeiro, um estudo do Programa Estadual de Cirurgia Bariátrica revela que, tão logo as flexibilizações foram anunciadas, a quantidade de pacientes com Covid-19 quadruplicou entre aqueles que aguardavam o procedimento ou se recuperavam dele. Entre 240 monitorados, os casos positivos saltaram de três para 13. “O número só não foi mais alto porque a maior parte deles se manteve em quarentena depois da liberação”, diz o cirurgião bariátrico Cid Pitombo, coordenador do programa.

Ilustração: May Tanferri/SAÚDE é Vital

Ainda há muita discussão sobre o que, exatamente, torna a obesidade em si uma adversária tão implacável nas infecções pelo coronavírus. E tudo leva a crer que não tenhamos um único motivo. A explicação passa pelo próprio sistema imune. Ainda que existam indícios de que os quilos a mais atrapalhem a resistência contra vírus e bactérias, o que parece pesar na Covid-19 é o estado de inflamação a que os obesos estão mais propensos.

Ativado ainda mais com a infecção, ele sobrecarrega o organismo e limita sua reação. É como se fossem vários incêndios para apagar ao mesmo tempo — e bombeiros insuficientes. “Nesse indivíduo mais inflamado, a resposta imunológica não é tão efetiva para curar a doença e ainda causa danos aos pulmões, tornando o quadro mais grave”, explica o infectologista Paulo Abrão, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

A gordura excedente também impacta de outras formas. “É preciso lembrar que a gordura não é só aquilo que a gente vê”, avisa o endocrinologista Mario Kedhi Carra, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso). O médico se refere à presença dela dentro do abdômen e ao redor de diversos órgãos, inclusive do coração. Longe de ficar estática, essa gordura está associada à liberação de substâncias inflamatórias. “Nessas circunstâncias, o paciente corre maior risco de falência desses órgãos”, pontua Carra.

Os quilos de sobra ainda comprometem a capacidade respiratória. “No abdômen mais volumoso, os pulmões acabam comprimidos. Diante de uma infecção ali, a reação vai ser pior e mais exacerbada do que em uma pessoa que respira sem nenhum tipo de obstrução”, descreve Pitombo. Se não bastasse, a gordura na barriga e no tórax dificulta o trabalho do diafragma e de músculos da região peitoral, caros a uma respiração eficiente.

Ilustrações: May Tanferri/SAÚDE é Vital

Dificuldades no hospital

Os desafios do excesso de peso se acentuam numa internação por Covid-19. Pacientes obesos exigem equipes de enfermagem mais numerosas para ajudar a movimentá-los no leito ou realizar o que eles chamam de “pronar”, quando se coloca o doente de barriga pra baixo a fim de facilitar a respiração. Profissionais contam que nem sempre isso é possível na ausência de braços e equipamentos.

Até a intubação destinada a remediar a insuficiência respiratória fica mais complicada. Nesse procedimento, um tubo é inserido na garganta do paciente para levar oxigênio aos pulmões. “Como a pessoa obesa tem uma caixa torácica mais pesada, a instalação do aparelho tende a exigir mais esforço”, observa Carra.

Continua após a publicidade

Ilustração em 3D: Marcus Penna/SAÚDE é Vital

Além dessas situações, que pedem mais recursos dos hospitais para atender à população acima do peso, as pesquisas mergulham em novas explicações para a gravidade da Covid-19 nesse grupo de indivíduos. As próprias células que alojam gordura no corpo estão na mira. Um experimento da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) sugere que os adipócitos (o nome dessas células) não só estão em maior quantidade nos obesos como podem ser infectados pelo coronavírus.

“No tecido gorduroso, ele se reproduziria mais do que em outras regiões”, resume a descoberta Carra. Além de poder abrigar uma carga viral maior, os adipócitos estocariam o patógeno ativo por mais tempo, o que, em tese, faria com que o sujeito o transmitisse num período superior às duas semanas prescritas para o fim do contágio.

Embora novos achados sobre o comportamento do vírus apareçam praticamente toda semana, o que já conta com uma massa de evidências confiáveis é o fato de que a infecção tende a ser pior conforme o peso e o grau de obesidade. Isso não quer dizer que quem está com sobrepeso possa se descuidar e negligenciar as medidas de prevenção ao vírus.

“É como se fosse uma luz amarela, um sinal de que você está fora do peso ideal, e isso não é uma coisa banal”, compara Abrão. O elo entre o peso e a Covid-19 só não pode virar motivo para preconceito ou gordofobia. É com informação, respeito e acolhimento que os dois problemas podem ser contornados.

Ilustração em 3D: Marcus Penna/SAÚDE é Vital

A obesidade preocupa durante a pandemia e vai continuar uma questão de saúde pública após o cerco à Covid-19 — basta pensar na sua relação com doenças cardiovasculares, diabetes, câncer… Para perder peso e ganhar saúde, as recomendações dos tempos normais não mudam: balancear a alimentação, praticar exercícios… O que muda, claro, é a dificuldade para seguir tudo à risca. Por isso, segundo os experts, é crucial o acesso a um profissional de saúde e a orientação dele (até mesmo virtual).

Para Lívia Corrêa, o combate à obesidade engloba um tripé: reeducação alimentar, atividade física e, se o médico julgar necessário, uso de certos remédios. “Quem já estava em tratamento deve continuar. É um apelo que fazemos aos pacientes. Como a obesidade é uma doença crônica, não se deve interromper os cuidados na pandemia”, afirma a endocrinologista da Sbem.

Na nova rotina, que já inclui reabertura de parques e outros espaços, não é preciso deixar de sair de casa para fazer uma caminhada, desde que se respeitem as medidas sanitárias — usar máscara sempre, manter uma distância de pelo menos 2 metros das outras pessoas, evitar locais fechados e com aglomerações etc.

Além de buscar o equilíbrio entre os hábitos saudáveis, o bem-estar psicológico e os cuidados contra a Covid-19, ganha particularmente importância nestes tempos o conselho de não embarcar em dietas extremas para perder peso. “Se você fizer uma restrição calórica muito intensa, o organismo vai se voltar para defender o corpo da falta de calorias e não vai ser eficiente para se proteger das infecções”, justifica Carra.

Nesse cenário, aparece o que os especialistas chamam de “desnutrição relativa”, quando a quantidade de calorias consumidas fica muito abaixo daquilo a que o organismo está habituado. Com a falta de combustível, ele pode padecer mais facilmente de doenças, entre elas as infecciosas.

Ilustração: May Tanferri/SAÚDE é Vital

Para se livrar dos quilos extras sem radicalismo, a sugestão é elaborar um plano de ação e uma rotina com o médico e o nutricionista. Isso passa por rever quantidade e qualidade da comida, definição e frequência dos exercícios e peculiaridades físicas e emocionais de cada um. Dependendo do grau de obesidade, o profissional pode indicar a cirurgia bariátrica, que passou a exigir novas regras de segurança durante a pandemia.

Em estados onde a Covid-19 está mais grave, muitas operações ainda são postergadas até que a ocupação dos hospitais diminua. Mas, em outras praças, elas foram retomadas. A SBCBM recomenda que a realização da cirurgia leve em consideração o estágio da pandemia em cada lugar. Onde puder ser feita, a sociedade médica pede que os pacientes façam isolamento uma semana antes do procedimento, sejam testados para o coronavírus previamente e, depois da operação, permaneçam confinados por mais 15 dias. “Os hospitais já têm toda uma rotina para que o paciente de cirurgia bariátrica não fique em uma UTI com pessoas com Covid”, conta Marcos Leão.

A despeito de passar pelo bisturi ou não, o melhor caminho é pegar a orientação do médico e acompanhar a situação e as recomendações para a pandemia da sua cidade. E hoje a tecnologia ajuda muito nesse quesito. “Com a telemedicina regulamentada no período, o acesso aos médicos ficou mais fácil”, comemora Lívia. De posse de instruções certas, ninguém precisa ficar parado diante do excesso de peso e da Covid-19. E quem sabe não é assim que vamos desinflar essas duas epidemias?

Ilustrações: May Tanferri/SAÚDE é Vital
Continua após a publicidade
Publicidade