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Por que homens são mais afetados pelo coronavírus?

Especialista discute por que homens acima de 60 anos são hoje o principal grupo de risco para complicações graves da Covid-19

Por Dr. Fernando Nestor Facio Junior, urologista* Atualizado em 24 abr 2020, 21h19 - Publicado em 22 abr 2020, 12h20

A pandemia do novo coronavírus vem gerando grande impacto na qualidade e na expectativa de vida da população, sobretudo entre homens a partir dos 60 anos. Existem indícios de que eles correm maior risco de enfrentar sintomas graves e morte em relação às mulheres.

No Brasil, o Ministério da Saúde divulgou dados sobre óbitos pela Covid-19 no final de março e mostrou que 68% das vítimas eram do sexo masculino e 32% do feminino. Na Itália, relatório retrospectivo sobre as pessoas afetadas pela doença demonstrou que os pacientes na UTI eram, em sua maioria, homens (82%) com idade mediana de 63 anos. Boa parte também tinha problemas cardiovasculares ou respiratórios prévios.

Uma pesquisa realizada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu, e financiada pela Fapesp, descobriu que, em homens com mais de 60 anos, a expressão de um gene chamado TRIB3 está diminuída em certas células do pulmão, alvos preferenciais do vírus Sars-CoV-2.

Os cientistas notaram que a expressão desse gene reduz progressivamente com o envelhecimento. Homens sexagenários em diante são os mais propensos a desenvolver pneumonia e insuficiência respiratória quando infectados pelo novo coronavírus, possivelmente devido à diminuição na expressão de genes que regulam a função de um fluido que naturalmente protege os pulmões.

O estudo sugere, assim, que medicamentos capazes de estimular a expressão do gene TRIB3 devem ser avaliados como uma possível terapia contra a doença.

Iniciativas de alto nível como essa precisam ser consideradas prioritárias, pois falamos de um problema potencialmente grave e bastante impactante no sistema de saúde. Esse é o momento de se buscar investimento público e privado e colaboração de todos os atores envolvidos em busca de uma solução rápida e efetiva.

Sabemos que adoecer é um sinal de fragilidade e que muitos homens ainda se julgam seres invulneráveis, o que contribui para que eles se cuidem menos e se coloquem mais em situações de risco.

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Embora estejamos atravessando a pandemia, é importante ressaltar, ainda, que não podemos nos esquecer de outros problemas de saúde e, no âmbito da urologia, destaco as doenças da próstata — especialmente o câncer, o mais comum na população masculina brasileira. Eis uma questão delicada a ser encarada neste momento.

Se o paciente não necessita de cuidados emergenciais, a cirurgia não está indicada agora, pois o indivíduo pode estar em período de incubação do vírus no momento da abordagem cirúrgica, o que aumenta o risco de desfechos negativos. Pesquisadores chineses demonstraram, após analisar 2 007 pacientes hospitalizados por Covid-19, que aqueles com histórico de câncer apresentavam maior incidência de eventos graves, como morte ou admissão na UTI.

Em outro estudo, os cientistas revisaram dados de 1 524 pacientes com câncer em Wuhan (China) e, comparando com a população em geral, constataram que as pessoas com a doença tinham um risco duas vezes maior de sofrer com a Covid-19. Dessa forma, a presença do câncer e a internação hospitalar contribuíram para o maior risco de ter a infecção e piores resultados.

A ciência e a prudência recomendam que os homens acima de 60 anos, a principal faixa de risco para o câncer de próstata, não negligenciem a saúde e o perigo do coronavírus.

* Dr. Fernando Nestor Facio Junior é urologista e chefe do Departamento de Andrologia da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU)

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