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É para ontem: precisamos ampliar a pesquisa clínica no Brasil

Médica defende que o país explore melhor seu potencial na área para impulsionar a inovação em saúde e o acesso a tratamentos de última geração

Por Andreza Almeida Senerchia, oncologista*
20 Maio 2023, 09h46

Em 20 de maio é celebrado o Dia Internacional da Pesquisa Clínica, mas o Brasil talvez tenha pouco a comemorar, por enquanto. Em levantamento feito em 2022 pela Interfarma, o país ficou em 19º lugar no ranking de nações por participação em estudos clínicos iniciados em 2021, fazendo parte de apenas 2,3% deles.

No entanto, possuímos todas as qualidades necessárias para nos tornarmos protagonistas em pesquisa clínica, incluindo nossa vasta população diversificada, recursos humanos capacitados e um sistema regulatório que, embora possa ser ainda mais aprimorado, é reconhecido como referência na América Latina.

Ao considerar as áreas terapêuticas mais investigadas globalmente, a oncologia lidera o foco em pesquisas, seguida por doenças infecciosas – que, por influência da pandemia, subiu da quarta posição em 2016 para o segundo lugar em 2021 -, e por condições do sistema nervoso central. Excluindo doenças infecciosas, as demais representam 37% de todos os estudos clínicos com início em 2021.

Mas o desempenho do Brasil é modesto. Em oncologia, por exemplo, o país esteve em apenas 74 dos 3.791 estudos clínicos iniciados em 2021, o que equivale a apenas 2% do total. Em sistema nervoso central, os números em 2021 foram ainda menores, com participação de 1,2% do total global. Esses dados, também do levantamento da Interfarma, ressaltam a necessidade da maior presença brasileira nessas áreas-chave da pesquisa.

Um dos pontos fundamentais para fortalecer a pesquisa clínica no Brasil é o potencial de exploração da fragmentação étnica, um índice criado pela Harvard Institute of Economic Research, derivado de uma combinação de caraterísticas raciais e linguísticas. Com uma população rica em diversidade, o país possui um imenso potencial para a realização de pesquisas que abordem as especificidades genéticas e fisiológicas de diferentes grupos.

Essa pluralidade étnica é um recurso valioso, pois permite que os pesquisadores conduzam estudos mais abrangentes e representativos, resultando em descobertas mais relevantes e aplicáveis globalmente.

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Além disso, investir na pesquisa clínica no Brasil tem um potencial significativo para impulsionar a economia, gerar empregos, estimular a inovação e impulsionar diversos setores relacionados à saúde. Dados estimados pela IQVIA apontam que, se o país melhorar a utilização de seu potencial e subir para a 10ª posição no ranking mundial, poderá beneficiar 55 mil pacientes, além de atrair investimentos diretos anuais na ordem de R$ 2 bilhões, assim como impactos financeiros indiretos na economia em torno de R$ 5 bilhões.

A concentração de estudos clínicos no Sudeste e no Sul também é um desafio que precisa ser abordado. De acordo com um estudo da Coordenação de Pesquisa Clínica em Medicamentos e Produtos Biológicos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (COPEC/Anvisa), em 2017, 87% dos estudos autorizados pela Agência foram realizados nessas regiões.

Embora esse percentual tenha diminuído em 2018, ainda aglutina mais de 80% de todo o volume de estudos clínicos no país. Essa concentração também se reflete na distribuição de centros de pesquisa clínica, com 56% localizados no Sudeste e 31% no Sul.

Essa centralização pode tornar o país insuficiente para atender à demanda futura de estudos clínicos, entretanto uma rede de centros de pesquisa em outras regiões do Brasil já têm sido estruturada, o que certamente vai atrair mais investimentos enquanto promove a diversificação geográfica.

Em um país de dimensões continentais como o nosso, descentralizar e explorar melhor o território para a pesquisa clínica pode impulsionar o desenvolvimento científico e tecnológico, gerando conhecimento, inovação, empregos e, ao mesmo tempo, aumentando o acesso a tratamentos de última geração para população.

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É inegável que o Brasil não tem sido uma das principais escolhas para a realização de estudos clínicos, e essa situação se torna cada vez mais crítica. O país está perdendo relevância em uma área vital, o que impacta não apenas o acesso a tratamentos, mas também uma ampla cadeia de negócios que poderia impulsionar a renda, o emprego e a inovação em um momento de estagnação econômica.

Com investimentos adequados, políticas públicas eficazes e um esforço conjunto de todos os envolvidos, nosso país pode se posicionar entre as principais nações impulsionadoras da pesquisa clínica, beneficiando não apenas a saúde da população, mas também a economia e o desenvolvimento nacional como um todo.

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* Andreza Almeida Senerchia é oncologista pediátrica e superintendente médica de Pesquisa Clínica da Dasa

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