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Você pode (ou melhor, deve) se preparar para um envelhecimento saudável. A geriatra Maisa Kairalla, da Universidade Federal de São Paulo e da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, ensina como
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Envelhecer não é doença! É um direito

Nova Classificação Internacional de Doenças (CID) passa a incluir a "velhice" entre os problemas de saúde. Nossa colunista comenta e critica essa decisão

Por Maisa Kairalla
Atualizado em 8 jul 2021, 18h02 - Publicado em 8 jul 2021, 16h00

Você já reparou que, quando vai ao médico e ele solicita um exame, o pedido costuma conter um código? Trata-se da CID (Classificação Internacional de Doenças), uma tabela publicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que visa padronizar os diagnósticos.

Em janeiro de 2022, entrará em vigor a CID11, que traz algumas mudanças importantes para todos nós. Uma delas é a inclusão do código MG2A, a CID que irá diagnosticar “velhice” e substituir “senilidade”, termo usado atualmente. Na prática, velhice passa a ser oficialmente considerada uma doença.

A iniciativa, no entanto, tem sido alvo de críticas — e com razão. Em 2015, a Convenção Interamericana Sobre a Proteção Dos Direitos Humanos dos Idosos definiu o envelhecimento como o “processo gradual que se desenvolve durante o curso de vida e que implica alterações biológicas, fisiológicas, psicossociais e funcionais de várias consequências, as quais se associam com interações dinâmicas e permanentes entre o sujeito e seu meio”. Isso não significa, por si só, uma doença.

A própria OMS, inclusive, estabeleceu os anos de 2021-2030 como a “Década do Envelhecimento Saudável”, visando não apenas adicionar anos à vida da população, mas também uma melhor qualidade a esses anos a mais. Por que, então, a velhice deveria ser tratada como um problema?

Essa mudança, que carece de bases científicas sólidas, causará um estigma ainda maior aos idosos e poderá trazer uma série de dificuldades com as quais nossa sociedade terá de lidar. A começar pelo fato de que a proposta não é clara em relação à idade a partir da qual o paciente seria considerado “velho”. Se no Brasil o termo é oficialmente utilizado para pessoas a partir dos 60 anos, na Itália, por exemplo, opta-se por adotar os 75 anos como padrão.

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Tem mais discussão: nos planos de saúde, a velhice seria incluída como comorbidade? Imagine, ainda, como seria se todas as mortes de pacientes a partir dos 60 anos fossem classificadas com o CID “velhice”! Isso traria uma defasagem nos dados epidemiológicos, fazendo com que perdêssemos estatísticas valiosas que nos ajudam a identificar melhores formas de prevenir e tratar as doenças associadas ao envelhecimento e a elaborar políticas públicas.

Como se não bastasse o fato de que essa mudança poderá mascarar os problemas de saúde reais que acometem os idosos, há ainda a questão do preconceito contra eles. Afinal, a leitura que muitos podem fazer é a de que “ser velho é ser doente”, quando sabemos que isso é uma falácia.

Não existe uma única velhice. Há idosos impactados por doenças limitantes, mas há também os que vivem de maneira independente, os que trabalham, os que estão realizando seus sonhos…

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Essa alteração na CID poderia, então, fomentar o preconceito contra idosos (o que chamamos de ageismo) e se mostrar contraproducente num cenário em que se busca promover uma longevidade ativa e saudável, ainda mais tendo em vista que o envelhecimento populacional, e seus reflexos sociais e econômicos, é um fenômeno mundial.

Um estudo recentemente publicado no periódico Nature Communications concluiu que é impossível desacelerar o ritmo do envelhecimento humano. Após uma extensa análise de idades e mortalidades de pessoas, além de dados de trinta espécies de primatas, os cientistas constataram que o aumento na expectativa de vida nos últimos séculos se deve à redução da mortalidade entre os mais jovens e não à uma desaceleração da morte.

Segundo eles, ao menos por enquanto, os avanços na medicina não são capazes de desfazer as amarras biológicas que levam ao fim da vida. Por outro lado, há geneticistas empenhados em descobrir o “gene do envelhecimento” para, assim, conseguir intervir e impedir essa etapa natural da existência.

Isso nos faz levantar a pergunta: a quem interessa tratar a velhice como doença? À indústria farmacêutica? À indústria da beleza? O paradigma de que a juventude deve ser perseguida a qualquer custo movimenta setores da economia, estimulando o investimento em produtos anti-aging, por exemplo.

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Assim, defendo que algo natural ao organismo e à noção da vida não pode ser visto como uma doença. Como coloca o próprio Estatuto do Idoso, em seu artigo 8: “o envelhecimento é um direito personalíssimo e a sua proteção um direito social“. Doença, não! Envelhecer é antes um direito e uma conquista!

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