Clique e Assine a partir de R$ 9,90/mês
Câncer sem tabu & com ciência O médico e CEO do A.C. Camargo Cancer Center, Victor Piana de Andrade, desfaz os mitos e compartilha as descobertas e inovações na prevenção, no diagnóstico e no tratamento do câncer

CAR-T cell: quando a ciência desafia a ineficiência contra o câncer

Terapia revolucionária para casos de leucemia e linfoma provoca debate sobre investimento em ciência e redução de desperdícios na cadeia do cuidado

Por Victor Piana de Andrade 27 Maio 2022, 16h38

No início de maio, a americana Emily Whitehead, de 16 anos, celebrou nas redes sociais dez anos livre da leucemia. Todos os anos, o mundo da oncologia aguarda esta data.

No ano 1, ela foi recebida pelo presidente americano Barack Obama na Casa Branca. Uma década depois, estamos surpresos com a sua saúde.

Aos 6 anos, Emily estava no fim de vida após várias tentativas de tratamento com quimioterapias diferentes e sem resultados. Foi, então, a primeira paciente da história a receber uma nova terapia, ainda experimental e bastante arriscada: o CAR-T cell (do inglês Chymeric Antigen Receptor T-cell).

As células CAR-T são um medicamento vivo e personalizado. Baseiam-se em linfócitos T (um tipo de célula de defesa) com receptores específicos para destruir células tumorais. Por enquanto, há evidências de benefícios em situações como leucemia linfoide aguda, linfoma não-Hodgkin refratário e mieloma múltiplo.

Diferentemente de um remédio que se compra pronto, as células CAR-T são fabricadas para o paciente a partir das células dele mesmo. Retiramos o sangue, selecionamos os linfócitos T, congelamos, levamos ao laboratório e modificamos seu DNA inserindo novas sequências genômicas por técnicas modernas.

O processo leva essas células a produzirem uma proteína diferente, metade dela, metade nova (daí o termo “quimera”). Esses linfócitos têm a capacidade de reconhecer e combater as células tumorais do paciente com afinidade e potência superiores às suas versões naturais.

Ao expandir essa população de linfócitos T modificados, temos nosso medicamento vivo, que é infundido de volta naquele paciente. A produção leva de três a seis semanas. Se for preciso usar o mesmo método em outro paciente, teremos que fazer tudo de novo. O tratamento é realmente individualizado.

+ LEIA TAMBÉM: Terapia revolucionária contra o câncer é aprovada no Brasil

Enquanto aguarda, o paciente recebe quimioterapia para manter a doença sob controle. A aplicação em dose única das células CAR-T requer internação por duas semanas, monitoramento por mais quatro semanas, prevendo e tomando cuidados com efeitos colaterais das reações imunológicas.

Embora ainda seja aplicada em poucos tumores, essa terapia vem revolucionando o tratamento oncológico, trazendo esperança para pacientes já sem possibilidades. Não há o sucesso como o de Emily em 100% dos casos: a terapia pode falhar e, após meses ou anos, a doença retornar.

Muitos estudos clínicos estão testando essa abordagem para outros tipos de câncer, como melanoma avançado, glioblastoma (no cérebro) e tumores no pâncreas. Pesquisamos agora como produzir uma versão do tratamento que possa ser aplicado em vários pacientes com a mesma doença e já começamos a avaliar as células CAR-T como tratamento inicial em vez de usar só quando outras opções falharem.

+ LEIA TAMBÉM: Afinal, o que é a cura do câncer?

Trunfo científico, paradoxo econômico

As células CAR-T representam uma celebração da ciência por reunir resultados de estudos de diversos países ao longo de décadas, iniciados quando deciframos o genoma humano, depois o genoma de cada câncer e, em seguida, quais as moléculas mais importantes para o comportamento de cada tumor e como podemos inibi-las.

Nesse percurso, desvendamos a relação entre o câncer e o sistema imune e criamos técnicas de manipulação do genoma. Os testes clínicos com as CAR-T acertaram a dose e o momento de aplicação, além do controle de reações adversas da presença de linfócitos superativos.

Perceba que foram décadas colocando um tijolo sobre outro até construir esse tratamento.

Continua após a publicidade

Emily personaliza o sucesso coletivo. E, agora que a terapia está entre nós, vivemos um dilema: vamos conseguir usá-la amplamente? Vivemos o paradoxo de ter todo esse conhecimento e métodos sofisticados que entregam benefícios superando os riscos e, ao mesmo tempo, dificuldades para pagar por eles.

Sim, o tratamento custa caro, mais caro que todos os outros disponíveis para o câncer. Nos Estados Unidos, algo entre 300 mil e 400 mil dólares. E agora?

Eis um problema complexo que precisa de uma inteligência coletiva com foco único. É certo que, com o tempo, a competição entre os fabricantes e o amadurecimento do processo de produção reduzirão o preço.

É natural imaginarmos que o uso comece em ambientes com mais recursos e avance para ambientes com restrições ao longo dos anos. Falamos de um tratamento com início recente nos EUA e na Europa e que só agora estará disponível na América Latina.

BUSCA DE MEDICAMENTOS Informações Legais

DISTRIBUÍDO POR

Consulte remédios com os melhores preços

Favor usar palavras com mais de dois caracteres
DISTRIBUÍDO POR

A CAR-T estreia na região pelo Brasil, primeiro no ambiente privado para, depois de um tempo, poder ser incorporada ao SUS.

O fato é que, durante o avanço científico, aprendemos a indicar melhor, a produzir melhor, a cuidar melhor, o que aprimora a relação custo-benefício nesse contexto. Como líderes e gestores na área da oncologia, incluindo hospitais, operadoras, farmacêuticas e outras empresas, temos de enfrentar o paradoxo de não conseguir pagar essa conta.

Rejeitar a tecnologia pelo preço é a atitude mais fácil e confortável, só que baseada numa falsa premissa.

Precisamos diminuir o desperdício na oncologia, tais como processos ineficientes pela fragmentação do cuidado, exames repetidos por falta de integração, medicamentos e procedimentos que não geram bem-estar ou funcionalidade, remuneração pelo volume mesmo sem qualidade ou até com dano ao paciente… Sem falar nos tumores evitáveis com prevenção e diagnóstico precoce.

+ LEIA TAMBÉM: Um manual com medidas atualizadas para prevenir o câncer

A conta do desperdício para a sociedade é seguramente maior do que a dos tratamentos inovadores. Por que aceitar conviver com a ineficiência e dizer que não há recursos para mais nada? Penso que, se temos alta tecnologia com benefício comprovado, capaz de salvar crianças que podem depois retornar décadas de trabalho produtivo para a sociedade, nosso papel é buscar meios de resolver o desperdício, de investir pesadamente em ciência (que sempre nos dá retorno) e aperfeiçoar a cadeia da saúde.

Emily foi tratada uma única vez com células CAR-T e a cada ano celebra com alegria sua vida produtiva, mas sofreu muito antes disso. Em breve, esse tratamento substituirá em dose única a soma de tudo que Emily passou antes, sem sucesso.

Focados nesse caminho, trocaremos ineficiência por ciência, e vamos equilibrar saúde e dinheiro.

Compartilhe essa matéria via:
Continua após a publicidade

Publicidade

Essa é uma matéria exclusiva para assinantes. Se já é assinante, entre aqui. Assine para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

Essa é uma matéria fechada para assinantes e não identificamos permissão de acesso na sua conta. Para tentar entrar com outro usuário, clique aqui ou adquira uma assinatura na oferta abaixo

Informação confiável salva vidas. Assine Veja Saúde e continue lendo.

MELHOR
OFERTA

Digital

Plano ilimitado para você que gosta de acompanhar diariamente os conteúdos exclusivos no site e no app.

Blogs de médicos e especialistas.

a partir de R$ 9,90/mês

ou

30% de desconto

1 ano por R$ 82,80
(cada mês sai por R$ 6,90)

Impressa + Digital

Acesso aos conteúdos exclusivos em todos formatos: revista impressa, site com notícias e revista no app.

Acesso ilimitado ao site da Veja Saúde, diariamente atualizado.

Blogs de médicos e especialistas.

Receba mensalmente Veja Saúde impressa mais acesso imediato às edições digitais no App, para celular e tablet.

a partir de R$ 12,90/mês