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Saúde é pop Por Blog Tá na internet, tá na TV, tá nos livros... tá no nosso dia a dia. O jornalista André Bernardo mostra como fenômenos culturais e sociais mexem com a saúde — e vice-versa.

Está mal? Há escuta e acolhimento online durante a pandemia de coronavírus

Serviços disponibilizam de forma gratuita atendimento psicológico para evitar que sentimentos ruins se transformem em crises de ansiedade e depressão

Por André Bernardo - Atualizado em 13 Maio 2020, 15h03 - Publicado em 8 Maio 2020, 18h04

A estreia nacional do filme Depois a Louca Sou Eu, adaptado pela cineasta Júlia Rezende a partir do livro homônimo da escritora Tati Bernardi, estava marcada para o dia 23 de abril. Por causa da pandemia de Covid-19, teve seu lançamento adiado por tempo indeterminado. Enquanto a vida não volta ao normal, a atriz Débora Falabella, que interpreta no filme uma jovem escritora chamada Dani Teixeira, tem gravado de casa, com o próprio celular, uma websérie intitulada Diário de Uma Quarentena.

Em episódios de pouco mais de dois minutos, o alter-ego da escritora Tati Bernardi expõe algumas de suas “neuras”. “O maior medo da pessoa ansiosa é perder o controle”, desabafa Dani. “Quanto tempo mais de quarentena? Dois, três, quatro meses? Ninguém diz por que ninguém sabe”, resigna-se, acrescentando que, para passar o tempo, tem arrumado os livros na estante, comprado coisas esdrúxulas na internet, feito chamadas de vídeo com amigos de quem nem gosta tanto…

No segundo episódio, Dani diz que já fazia quarentena antes de todo mundo viver em quarentena. Enquanto esfrega a pia da cozinha, relata que o avô tinha o hábito de lavar a comida toda com vinagre. “Hoje em dia, ele trocaria o vinagre pelo álcool em gel”. Dani teoriza que ansioso é ansioso porque tem medo. De quê? Do mundo, do vírus, da morte… “Vivo com medo até dentro de casa. Medo de ficar sozinha, de ser infectada pelo entregador do supermercado, de não me sentir útil na quarentena”, lista.

Portadora de transtorno de ansiedade, Dani pode ser uma personagem de ficção. Mas seus temores, não. Eles são reais. Para quem está sofrendo o impacto do distanciamento social, como insônia, estresse e desânimo, grupos formados por psicólogos e psiquiatras, entre outros profissionais de saúde, estão oferecendo, através de celular, computador ou WhatsApp, acolhimento gratuito e escuta terapêutica. Uma dessas iniciativas se chama Psicologia Solidária. A outra ganhou o nome de Humanidades 2020.

Como lidar com o medo do amanhã?

O projeto Psicologia Solidária Covid-19 foi idealizado pela psicóloga Suenny Lohanna da Silva em 18 de março. Ela entrou em um grupo de psicólogos no WhatsApp e perguntou quem gostaria de ajudar. Dois meses depois, o grupo já conta com 800 profissionais cadastrados.

“Até o momento, 100% dos inscritos, o que corresponde a 284 pessoas, já foram atendidos ou tiveram seus atendimentos agendados”, explica a coordenadora técnica, a psicóloga Paula Caruso. “Temos uma média de sete solicitações por dia”, completa. O atendimento é voltado a profissionais da saúde – do médico ao maqueiro – e a brasileiros que residem no exterior (o contato pode ser feito pelo e-mail: psicologiasolidaria.covid19@gmail.com).

No caso do Humanidades 2020, o desejo de ajudar o público em geral a ter uma escuta ativa, solidária e empática capaz de minimizar o sofrimento emocional inspirou 74 psicólogos e 10 psiquiatras a se engajarem voluntariamente no projeto. Em um mês, o grupo, sem vínculo com qualquer instituição, atendeu a 600 ligações. “Já prestamos atendimento a brasileiros que moram, inclusive, em outros países, como Itália, Portugal e Israel”, relata a psicóloga Laura Machado, uma das porta-vozes do coletivo.

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Em tempos de isolamento social, indivíduos com quadros de depressão, pânico e ansiedade, entre outros, tendem a apresentar piora. Por essas e outras, é importante estar atento a indícios de que o confinamento está fazendo mal à saúde mental: alteração de sono, perda ou ganho de apetite, choro constante, pensamentos negativos e tensões familiares. “Procurar ajuda e compartilhar o sofrimento é fundamental para aliviar os sintomas associados ao confinamento”, afirma a psicóloga Ana Luiza Novis.

Segundo as porta-vozes do Humanidades 2020, inclusive profissionais de saúde, como médicos e enfermeiras, já entraram em contato. “Não bastasse o estresse causado pela sobrecarga de trabalho e pelo contato com pessoas morrendo, muitos deles expressaram o medo de levar o vírus para casa e contaminar sua família”, conta Laura. Para aliviar as aflições provocadas pelo novo coronavírus, são recomendadas técnicas de meditação e relaxamento, e a prática de exercícios físicos no confinamento.

A psicóloga Paula Caruso também tem suas dicas de relaxamento. Uma delas, detalha, é inspirar contando mentalmente até sete. Depois, prender a respiração por quatro segundos e, em seguida, solta o ar, contando até nove. Outro conselho é manter, sempre que possível, uma rotina, “para que o tempo possa passar na mesma velocidade que antes”, explica. Entre outras atividades, sugere filmes em família, jogos de tabuleiro e vídeo-chamada com parentes e amigos.

Pela prevenção do suicídio

Além dessas e de outras ações gratuitas de acolhimento online, quem se sentir aflito poderá encontrar alento também no Centro de Valorização da Vida (CVV). Segundo Adriana Rizzo, voluntária e porta-voz, não houve aumento no número de atendimentos até meados de abril. São 8,2 mil por dia – média de 340 por hora.

“A maioria das pessoas relata dificuldade de ficar sozinha em casa, demonstra medo da doença ou do que vem depois, e sente tristeza pela perda de amigos e familiares”, descreve.

O CVV suspendeu os cursos presenciais de formação de voluntários, mas investiu no aumento dos ramais para atendimento remoto da linha 188, que é gratuita e está disponível 24 horas por dia. Adriana explica que, em alguns casos, sentimentos de tristeza, angústia e solidão podem desencadear quadros mais severos, como pânico e depressão.

“Quando isso acontece, é recomendável procurar um profissional da saúde. O atendimento do CVV não substitui o tratamento oferecido por psiquiatras ou psicólogos”, sublinha Adriana.

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