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Vida e morte: como lidar com o luto na velhice

Partindo dos casos de Bibi Ferreira e Ricardo Boechat, nossa colunista reflete sobre como enxergar e trabalhar a perspectiva da morte das pessoas

O que acontece quando a morte se torna presença constante em nossas vidas? Quando as pessoas ao redor vão nos deixando? Ou quando somos impactados pela perda de indivíduos tão reconhecidos no cenário nacional, como o jornalista Ricardo Boechat, de 66 anos, e a diva do teatro brasileiro, Bibi Ferreira, de 96 anos?

Cada morte nos afeta de uma maneira, a depender de suas circunstâncias. E cada pessoa sente, à sua maneira, a dor da perda, o luto. Em conversa durante um de meus atendimentos com um paciente de 80 anos, observei que seu pesar vinha marcado pela percepção de que as pessoas que fizeram parte de sua história estavam morrendo.

É nessas horas que recordo quão frágeis nos colocamos frente a uma de nossas maiores certezas: a de que um dia todos nós enfrentaremos a morte de alguém que conhecemos, que amamos. Mais ainda: que um dia todos morreremos. Embora possa soar como clichê, fato é que a grande maioria dos seres humanos não está preparada para lidar com a perda e com a terminalidade da vida.

Ao passo que celebramos os nascimentos, repudiamos a ideia de morte. Não sabemos lidar com o luto. Temos medo do fim. E isso pode se agravar na velhice. Até mesmo por ser uma etapa da vida em que perdemos pessoas pelo caminho e na qual podemos nos sentir cada vez mais próximos do fim.

Um levantamento recente, realizado com 2 mil brasileiros com mais de 55 anos de idade em dez capitais do país, mostrou que a morte está entre as dez respostas mais citadas como a primeira coisa que vem à mente quando as pessoas pensam na velhice. Difícil não associar uma coisa à outra.

Mas a questão mais desafiadora aqui é: como sobreviver à perda de um filho, de um cônjuge ou de ambos, de amigos e parentes? Ou mesmo de pessoas que marcaram nossa vida, seja no teatro, no rádio ou na TV, como Boechat e Bibi? Como podemos nos preparar para dizer adeus, inclusive quando somos nós que estamos partindo?

Pesquisas apontam que a morte de um ente querido está entre as experiências mais estressantes de nossas vidas. Há evidências de que, embora a maioria das pessoas consiga superar o luto, cerca de 10% encaram um sofrimento prolongado e duro. O grupo que mais têm dificuldades nesse sentido é aquele na faixa entre 75 e 84 anos.

Chega até a ser paradoxal. Na medida em que temos empreendido esforços para nos tornarmos longevos e conquistarmos uma velhice sustentável, mais nos tornamos suscetíveis a perder aqueles a quem amamos, seja em decorrência de uma fatalidade, de uma doença ou até mesmo da própria velhice.

A compreensão sobre a morte pode ter diferentes significados, conforme a cultura de cada povo. No México, há o Dia dos Mortos, um momento marcado para celebrar a memória daqueles que se foram. Na visão dos hindus, a alma continua a despeito da morte, de acordo com o carma do falecido, o que faz com que não haja um conceito de finitude. Muçulmanos não cremam seus mortos, mas os enterram por acreditar que haverá ressurreição no que consideram o dia do juízo. Espíritas acreditam na vida após a morte. Cristãos creem que a morte é a perspectiva de se encontrar com Deus.

Independentemente da crença ou da cultura, cada um tem sua maneira de lidar com a morte. O que não pode sair do nosso horizonte, porém, é que o luto pode causar dor física e emocional e, se não gerenciado, é capaz de ocasionar depressão.

A perda tem esse poder de nos fazer sentir como numa montanha-russa de emoções. O sofrimento vem em cinco estágios: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.

Particularmente, quando me perguntam como eu avalio essa questão, penso nas experiências que tive. Uma delas, bem recente e próxima (meu pai) me transformou ainda mais. Quando ele se foi, refleti como eu, médica geriatra, poderia tê-lo auxiliado mais. E, como filha, se havia demonstrado suficientemente o amor e a gratidão que tenho por tudo o que ele fez por mim (ele e minha mãe).

Dessas vivências pessoais e das trocas que tenho com meus pacientes, tenho aprendido que acolher e respeitar a dor é essencial para lidar com o luto. Sem se deixar consumir. A saudade da presença será uma constante, que poderá ser aplacada pelas lembranças que construímos juntos àqueles que partiram.

Por isso, um grande ensinamento, talvez um dos mais preciosos, seja exatamente investir no manejo da morte em vida. Como assim?

Pode ser mais fácil falar do que fazer, mas tente se cuidar comendo bem, exercitando-se e dormindo direito. Procure realizar atividades das quais goste, como viajar, cozinhar, ler um livro… Devagar, permita-se retomar o ritmo, realinhar seu propósito. E, se preciso for, procure ajuda. Conversar e compartilhar o que se sente pode ser de grande valia para aliviar o espírito.

Aproveite o agora. É no hoje que plantamos nossas melhores memórias junto daqueles que amamos. Seja para deixarmos nossa marca ou para sermos marcados.

Reitero aqui o que penso e já postei nas redes: a vida é como um sopro… Quando acordamos pela manhã, se refletirmos bem, é incerto como terminaremos nosso dia. Talvez nossa única certeza esteja no agora e no fato de que um dia todos nós encerraremos nossa passagem nesse plano.

Esse milésimo de segundo constitui nosso melhor tempo e é nele que mora a oportunidade de vivermos com intensidade. Assim, vamos compondo nossos minutos, horas, dias, semanas, meses e anos. Devemos pensar no futuro? Acredito que ter propósitos pode ser a força motriz de nossa engrenagem. O combustível que nos dá energia para ter fôlego e desfrutar de nosso tempo agora.

Portanto, ame-se mais, abrace mais, ria mais. Aventure-se mais. Diga que ama e se importa mais. Nós, eu, você… Criança, jovem, adulto, idoso… Somos a medida dos esforços que investimos em nós. Que possamos valorizar cada momento, bom ou não, e construir a nossa história, fazendo do hoje o nosso melhor capítulo. Não desperdicemos essa vida… Ela é um sopro. Que sopre então em nosso favor!