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Leandro Karnal: “Estar sem ninguém não significa solidão”

Em "O Dilema do Porco-Espinho", o historiador Leandro Karnal reflete sobre a solidão, condição que atinge uma a cada quatro pessoas e pode afetar a saúde

Um caso curioso sobre solidão: o filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) tinha 16 anos quando, em julho de 1804, participou de uma expedição de montanhismo. Ao chegar ao topo do Monte Schneekoppe, na fronteira entre a Polônia e a República Tcheca, avistou porcos-espinhos tentando se aquecer do frio. Para se manterem quentinhos, os simpáticos roedores procuravam aconchego uns nos outros. Mas, assim que se aproximavam demais, feriam-se com seus pelos pontiagudos e, após um grunhido de dor, saíam de perto uns dos outros.

A imagem nunca mais saiu da cabeça de Schopenhauer. Tanto que, em 1851, chegou a descrevê-la no seu último livro, Parerga e Paralipomena. E, passados mais 167 anos, a cena serviu de inspiração para o novo livro de Leandro Karnal, O Dilema do Porco Espinho – Como Encarar a Solidão.

“Somos uma espécie de porco-espinho”, filosofa o doutor em História Cultural pela Universidade de São Paulo. “Quando solitários, somos livres, porém passamos frio. A dois ou em grupo, as diferenças causam dores. Teríamos de achar uma distância segura, que trouxesse o calor e evitasse o ataque”, arremata.

Ao longo das 189 páginas do livro, Karnal especula se a resposta para o dilema de Schopenhauer não estaria no mundo virtual, explica que a solidão sempre foi vista com desconfiança (“O pior castigo da penitenciária é a solitária!”) e faz um alerta: solidão, em excesso, pode matar.

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Por outro lado, na dose certa, a solitude – o nome que Karnal dá ao lado bom da solidão – é produtiva e essencial. “De todos os antídotos contra a solidão, a leitura é um dos mais criativos”, recomenda. Confira abaixo uma entrevista com esse famoso pensador brasileiro, hoje professor da Universidade Estadual de Campinas, no interior paulista.

Mas, antes disso, o que aconteceu com Arthur Schopenhauer, aquele filósofo que inspirou o novo livro de Karnal? Ele nunca se casou. Viveu solitário em Frankfurt, dos 25 aos 72 anos, em companhia de seus inseparáveis cachorros.

Entrevista com Leandro Karnal sobre solidão e o livro O Dilema do Porco-Espinho

SAÚDE: Alguns médicos dizem que a “solidão é o novo cigarro”. Você concorda?

Leandro Karnal: Todo comportamento repetitivo tem o poder de gerar dependência pela natureza do nosso cérebro. A solidão é um desafio porque apresenta dor e, ao mesmo tempo, empurra meu sofrimento para uma zona de conforto.

Sozinho, eu sofro, porém não sou desafiado por ninguém. Temos de entender esse ponto contraditório sobre estar sozinho. O prazer pode sempre ser um pouco maior do que a angústia e sou seduzido pela dor menor: estar sozinho.

A exemplo do Reino Unido, o Brasil precisa de um Ministério da Solidão? Por quê?

Nunca! Isso significaria mais verba e mais funcionários, e menos ação real. O Estado deve atuar em educação, estrutura de saneamento, defesa e saúde em geral.

Solidão pode ser um problema de saúde, sim, mas a solução não está em mais um ministério. O Estado deve incentivar campanhas e ações, treinamento de profissionais e ações como lazer público. Nunca, jamais, criar um ministério.

Quando a solidão se transforma em problema de saúde?

Sempre há uma fronteira delicada entre tristeza e depressão, solidão e o desespero do isolamento. Por vezes, apenas o profissional da área de saúde pode determinar o limite. Um sintoma para nós, leigos: quero sair de um estado de solidão ou depressivo, e não consigo. Se for o caso, soa o alarme de que é hora de buscar ajuda.

Um indivíduo pode se sentir solitário mesmo estando acompanhado?

Quase sempre a solidão mais aguda ocorre em grupo ou em família. Solidão não tem relação com número de pessoas, todavia com conexão entre elas. Estar sem ninguém não significa solidão e estar acompanhado não significa companhia.

Existe solidão na China com 1,4 bilhão de pessoas e há solidão em um casamento de 35 anos lado a lado. O que faz com que eu me sinta sozinho é sempre minha conexão com o mundo ou as pessoas no mundo. Solidão é a mesma em um estádio lotado ou em casa sábado à noite.

Crianças e adolescentes estão imunes à solidão?

Pelo contrário. Preocupados com o que o mundo pensa deles, inseguros com sua imagem, são particularmente expostos aos riscos da solidão aguda. Por motivos bioquímicos, sociais e neurológicos, há uma tendência a um maior isolamento na terceira idade, mas isso não é regra, pois depende do tipo de vida e de interesses da pessoa mais velha.

O jovem também sofre riscos porque é hábil em atividades sociais e pouco elaborado para transformar a sociabilidade em contato real. Sair muito, encontrar 5 mil contatos virtuais, fotografar sem parar e ficar com o controle remoto na mão em casa sem ver nada de fato pode ser uma forma sofisticada de estar desesperadamente sozinho, usando o analgésico das redes sociais que apenas mascara a doença da alma.

Como combater a solidão que adoece e traz sequelas físicas e mentais?

Dois caminhos distintos. Como sentimento generalizado e incômodo, solidão pode ser combatida com medidas concretas. Nos casos tradicionais, basta uma decisão de reatar laços, aprofundar relações, criar hábitos de conexão consigo e com o mundo. Solidão vira, assim, solitude, capacidade criativa de administrar nosso necessário isolamento eventual.

Porém, muito importante: há pessoas deprimidas, que não conseguem dar tal passo, como se estivessem com uma fraqueza orgânica. Então, mais uma vez, é hora de buscar ajuda de um profissional. Solidão pode matar!

A solidão tem um lado bom, saudável e produtivo? Qual seria?

Eu identifiquei antes e uso muito no livro o termo “solitude”. Sempre volto ao mesmo ponto: solidão não é estar sozinho e companhia não é estar acompanhado. Estou sozinho lendo, tomando um chá ou bebendo um vinho, o mundo parece interessante e meu cérebro viaja com certo prazer nas páginas de um livro ou em um filme bom. Fico feliz, sorrio ou choro emocionado, termino a experiência melhor. Isso é solitude, saudável e desejável.

Em outro cenário, estou com pessoas ou não e me sinto incapaz de um contato real. Isolado, fico angustiado e minhas sombras me tomam e cresce minha angústia com efeitos até físicos, como insônia e taquicardia. Reforço com medo e certo desespero: posso estar diante do fantasma agudo da solidão e preciso refletir se posso sair dele por minha decisão ou com auxílio.

Por vezes, o quadro é tão agudo que a decisão de um profissional deve ser das pessoas que me amam, porque não consigo a clareza e a força de vontade para dar tal passo. Na maioria absoluta dos casos tradicionais de solidão, ótimos amigos, relações orgânicas e permissões de bons hábitos são antídotos suficientes.

Assim, quando não se trata de doença psíquica, solidão é uma escolha. Se há cura? Há. Basta sair dela…