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Teste genético já é usado para individualizar a escolha de remédios

Análise de DNA tem avançado na função de personalizar tratamentos, especialmente contra a depressão e outras doenças mentais. Mas não há respostas mágicas

Por Fabiana Schiavon Atualizado em 14 set 2021, 10h37 - Publicado em 13 set 2021, 19h18

A farmacogenética, ciência que estuda a interação de cada indivíduo com medicamentos, já começa a virar realidade nos consultórios. A técnica utiliza testes de DNA para verificar como um remédio é metabolizado por cada organismo. No entanto, ela ainda precisa ser vista com cautela.

Qualquer tipo de tratamento poderia ser orientado por essa prática, mas é na psiquiatria que ela tem entrado com mais força. A ideia é reduzir o número de tentativas frustradas de medicamentos no combate à depressão e outras doenças mentais, além de evitar efeitos colaterais graves.

“É possível individualizar a prescrição de um remédio conhecendo o fenótipo de cada pessoa”, conta o médico geneticista Chad Bousman, professor da Universidade de Calgary, no Canadá. Ele apresentou estudos sobre o tema durante o Genomic Summit 2021, evento promovido pela Dasa, em agosto deste ano.

A análise é feita a partir do princípio de que existem quatro padrões genéticos. São os que metabolizam remédios de forma ultrarrápida, os normais, os intermediários e os lentos. “Com esse dado em mãos, podemos estabelecer não só o tipo de medicamento ideal, mas também a dose que cada um deve receber”, explica Bousman.

Os metabolizadores mais ágeis podem precisar de doses maiores, por exemplo, porque o efeito é muito curto. Já nos mais lentos, o fármaco pode demorar demais a agir no organismo, causando mais efeitos adversos. Toda essa balança precisa ser avaliada por um médico capacitado a entender os resultados desses exames.

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Testes feitos pelo projeto Psychiatric Pharmacogenetics Labs, da Universidade de Calgary, apontaram que nem todos os laboratórios providenciam os dados necessários. “Um mesmo grupo fez exames em quatro endereços diferentes, e os laudos tinham menos de 60% de concordância entre eles”, alerta o professor.

Um dos problemas é que os laboratórios não descrevem os resultados de forma suficientemente detalhada. “Muitos tendem a dar indicações prontas de medicamentos a partir de uma análise de algoritmos que não é explicada. O ideal é que a decisão e a avaliação desses dados sejam feitas no consultório a partir das informações coletadas. O médico precisa saber como se chegou à tal recomendação”, ensina Bousman.

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Há ainda a questão de cada laboratório possuir uma metologia diferente, segundo o psiquiatra Luiz Dieckmann, coordenador do Instituto Brasileiro de Farmacologia Prática (BIPP).

“É essencial saber quais genes serão testados. Não há o melhor ou pior, mas cada um tem a sua função. Preciso de um lugar que faça a escolha e o processamento correto desses genes e ainda que tenha um bom corpo técnico para avaliar os resultados e entregá-los de forma clara ao médico e ao paciente”, descreve Dieckmann.

Momento certo

Entende-se ainda que um teste genético não deve ser solicitado logo na primeira consulta. Bousman avalia que as experiências mais bem-sucedidas ocorrem a partir de um tempo com o paciente, e quando há dificuldade real de se encontrar um tratamento eficaz.

“Temos o exemplo de uma pessoa internada que tomou dois tipos de remédio e também fez uso de eletrochoque. Ela recebeu alta, mas voltou a ter crises. Ao fazer os testes, descobriu-se um outro fármaco que poderia se adequar melhor ao seu organismo e, depois disso, ela ficou estável”, exemplifica Bousman.

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Dieckmann concorda com esse tipo de abordagem. “A farmacogenética tem crescido em relevância. Existe um número cada vez maior de laboratórios que fazem esse tipo de exame de forma mais barata, mas ainda há limitações. A técnica deve ser vista apenas como uma ferramenta auxiliar ao médico”, define o psiquiatra paulistano.

Antes de partir para a avaliação do DNA, o mais importante ainda é saber o histórico do paciente, seus problemas de saúde e outros detalhes. Vale lembrar que o tratamento psiquiátrico envolve outras medidas além de remédios, como um programa de atividades físicas, mudanças de rotina e melhoras na alimentação.

“Vejo a farmacogenética não como uma ferramenta para escolher o melhor medicamento, mas para se ter uma ideia de quais são as piores escolhas. Ela ajuda o médico a excluir alternativas no lugar de escolhê-las, principalmente quando a preocupação é evitar que o indivíduo enfrente efeitos colaterais graves”, defende Dieckmann.

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