Primeiro remédio para apneia do sono é aprovado nos EUA
Tirzepatida, que atua na perda de peso, resolveu até 50% dos casos de distúrbio de sono entre pessoas obesas

Parte do novo arsenal de medicamentos contra o diabetes tipo 2 e a obesidade, a tirzepatida acaba de ter uma nova aplicação liberada nos Estados Unidos. Na última sexta-feira (20), a Food and Drug Administration (FDA), agência regulatória americana, aprovou a molécula para o tratamento da apneia obstrutiva do sono.
Dessa forma, a medicação desenvolvida pela farmacêutica Eli Lilly se tornou a primeira já chancelada para a doença, que afeta quase 1 bilhão de pessoas no mundo, segundo estimativa publicada no The Lancet Respiratory Medicine.
Os tratamentos para apneia do sono disponíveis hoje envolvem o uso de um aparelho conhecido como CPAP, cirurgias para correção de alterações anatômicas que dificultem a respiração durante o sono e, ainda, mudanças de hábitos que têm por objetivo, principalmente, a perda de peso.
Clique aqui para entrar em nosso canal no WhatsAppApneia do sono e obesidade
É nesse último aspecto que a tirzepatida age com conhecida eficácia. O medicamento atua na redução de peso por duas vias moleculares: regulando os receptores do peptídeo semelhante ao glucagon 1 (GLP-1) e do peptídeo inibidor gástrico (GIP). Essa dupla função é o que potencializa o tratamento da obesidade.
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“O excesso de peso é um dos principais fatores para o desenvolvimento e agravamento da apneia do sono”, explica Luciano Drager, cardiologista e presidente da Associação Brasileira do Sono (ABS). “Temos muito depósito de gordura na língua, na campainha da garganta (chamada palato mole), na região da garganta (a região perifaríngea). Isso pode acabar dificultando a respiração durante o sono.”
Estima-se que até 45% das pessoas que enfrentam a obesidade convivem também com a apneia obstrutiva do sono.
Comprovação científica
No estudo clínico Surmount-OSA, publicado em junho na The New England Journal of Medicine (NEJM), a tirzepatida demonstrou reduzir em até 62,8% o índice de apneia-hipopneia (IAH), que considera o número de vezes que a respiração foi obstruída durante o sono ao longo de uma hora. Foram cerca de 30 eventos obstrutivos a menos registrados com o uso da medicação.
Além disso, entre os voluntários que não utilizavam CPAP como parte do tratamento, 43% tiveram os seus quadros resolvidos, ou seja, passaram a apresentar pouquíssimos eventos obstrutivos durante o sono e tiveram melhora na qualidade de vida com o tratamento, demonstrando menos sonolência ao longo do dia.
Entre os que já utilizavam o CPAP, 51,5% alcançaram a remissão do distúrbio.
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No Brasil
Em 2023, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a tirzepatida para o tratamento do diabetes mellitus tipo 2. Ainda assim, o medicamento ainda não está sendo comercializado no país e não há previsão oficial para isso.
Para o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, ainda será necessário capacitar os médicos para as novas possibilidades de tratamento com o medicamento e também para a identificação de casos de apeia do sono que possam ser resolvido com a redução do peso.
“O desafio, por um lado, será treinar e familiarizar os médicos do sono a utilizarem a tirzepatida com seus efeitos benéficos e potenciais efeitos colaterais”, afirma o especialista, também colunista de VEJA SAÚDE.
“Por outro lado, médicos de outras especialidades (como endocrinologistas, cardiologistas, clínicos gerais) terão que se aprofundar no rastreamento da doença, utilizando questionários, medindo a circunferência do pescoço e solicitando exames de polissonografia.”