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Por que o coronavírus é mais perigoso nos homens do que nas mulheres

A diferença nas complicações por Covid-19 entre os sexos chama a atenção. Avaliamos possíveis justificativas comportamentais e biológicas

Por Chloé Pinheiro Atualizado em 18 ago 2020, 10h46 - Publicado em 27 Maio 2020, 15h34

Desde o início da pandemia do coronavírus (Sars-CoV-2), há indícios de que esse agente infeccioso é um pouco mais agressivo para os homens. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 63% das mortes na Europa ocorreram entre o sexo masculino.

Entre os dias 17 e 23 de maio, dados do Ministério da Saúde mostram que 54,4% dos hospitalizados por Síndrome Respiratória Aguda Grave (uma das consequências severas mais comuns da Covid-19) eram homens.

Mais: uma revisão de estudos publicada no periódico Frontiers in Public Health indica que, embora as mulheres tenham a mesma probabilidade de contrair o novo coronavírus, os marmanjos correm maior risco de morte — em uma das pesquisas incluídas nessa análise, o perigo foi duas vezes maior.

“Cerca de 200 estudos citam o sexo como um dos fatores envolvidos na evolução da doença. E talvez seja mesmo, mas é preciso saber se por uma questão orgânica ou comportamental”, comenta o pneumologista Elie Fiss, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo.

  • Homens cuidam menos da saúde

    “Eles são mais reticentes no autocuidado, além de fumarem e beberem mais. Também têm mais doenças crônicas como diabetes e hipertensão e aderem menos ao tratamento delas”, lista o urologista Fernando Facio, chefe do Departamento de Andrologia da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).

    “Essa combinação, por si só, torna os homens mais suscetíveis a versões graves de infecções, principalmente as de magnitude respiratória”, destaca Facio. Ora, um organismo debilitado por uma condição de saúde descompensada ou um estilo de vida ruim teria mais dificuldade para responder a uma ameaça como o novo coronavírus.

    O organismo masculino favorece o coronavírus?

    O Sars-CoV-2 invade as células do corpo por meio dos chamados receptores ECA2. Essas estruturas ficam localizadas na superfície das células de diversos órgãos, servindo de porta de entrada para o vírus.

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    Acontece que estudos conduzidos antes e após o início da pandemia apontam que os homens possuem mais receptores ECA2 nas células do que as mulheres.

    “Mas ainda não está comprovado que essa diferença influencia na severidade da doença”, pontua Fiss.

    Hormônios femininos reduzem o risco de complicações por Covid-19?

    “Sabe-se que a resposta imune da mulher é melhor em geral. Uma das possíveis explicações para isso é o estrogênio”, destaca Ana Cristina Breithaupt Faloppa, fisiopatologista da Universidade de São Paulo (USP) que investiga essas diferenças em animais no seu laboratório.

    Além disso, o estrogênio já foi relacionado ao menor índice de doenças cardiovasculares observado nesse público. “Ele atua na microcirculação sanguínea, justamente um dos pontos que o novo coronavírus ataca”, diz Ana.

    Nesse quesito, um dos efeitos do hormônio é estimular a liberação de óxido nítrico no endotélio, a parede que reveste os vasos sanguíneos. A substância resguarda as veias e artérias de eventuais processos inflamatórios.

    Principalmente por interagir com células do sistema imune, o estrogênio inclusive será testado contra o coronavírus em uma pesquisa que vai envolver o laboratório onde Ana atua e um grupo da Universidade Federal de São Paulo.

    “A ideia é infectar modelos de célula que simulam órgãos do corpo atingidos pela Covid-19, como pulmões, rins e vasos sanguíneos, e ver se essas moléculas têm alguma ação antiviral”, planeja Rodrigo Ureshino, farmacologista que coordena a investigação.

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