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O novo cerco à dengue

Vacinas, mosquitos transgênicos, bactérias que ajudam a combater o vírus... Conheça estratégias inovadoras para conter a dengue no Brasil

Por Maurício Brum, Caroline Guarnieri e Mariana Alves 29 nov 2021, 16h03

Ela é um dos tormentos da saúde pública brasileira, se agravou na última década e, apesar de ter aparecido muito menos no noticiário por causa do coronavírus, continuou aprontando pelo país. Segundo o Ministério da Saúde, os dois anos com mais casos de dengue registrados por aqui foram, respectivamente, 2015 e 2019, com mais de 1,5 milhão de episódios estimados cada um.

Mesmo sendo alvo de campanhas de conscientização todo verão, ainda que a doença dê as caras nos 12 meses, o combate ao Aedes aegypti, mosquito que transmite o vírus entre nós, sofreu um duro baque na pandemia.

Com os esforços destinados à Covid-19, o antigo inimigo ficou em segundo plano, seguiu fazendo vítimas e, agora, com a vacinação freando o coronavírus e as pessoas ensaiando um retorno à normalidade, especialistas temem que a dengue volte com tudo em 2022.

“Os picos epidêmicos acontecem de três a cinco anos, então era esperada uma redução em 2020 e 2021. Só que houve subnotificação dos casos devido à atenção dos médicos estar direcionada à Covid-19”, nota a infectologista Melissa Falcão, da Comissão de Arboviroses da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). A consequência é uma espécie de apagão nos dados concretos e projeções mais turvas para o curto prazo.

Até o início de outubro deste ano, computavam-se 477 mil casos prováveis de dengue no país. É uma redução de quase 50% em relação ao mesmo período de 2020. Cabe lembrar que esse foi o primeiro ano da pandemia, mas não houve uma piora na subnotificação na época em que a doença costuma ter seu pico, o verão, uma vez que o primeiro caso confirmado de Covid-19 só ocorreu no final de fevereiro.

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“As condições meteorológicas têm influência direta na proliferação dos mosquitos. O verão aumenta o risco por causa das chuvas e da elevação de temperatura, pois as fêmeas procuram locais quentes e com água parada para depositar os ovos”, explica Melissa.

“Os cuidados, porém, devem permanecer o ano todo, já que os ovos podem sobreviver no ambiente por até 450 dias”, enfatiza. Tão logo haja uma pequena quantidade de água à disposição daquele ovinho resistente, a larva do mosquito é liberada.

A recomendação da infectologista se aplica ao Brasil inteiro. Embora historicamente o Nordeste e o Sudeste sejam responsáveis por quase dois terços dos contágios, o cenário muda quando se consideram números proporcionais.

Em 2021, o Centro-Oeste tinha menos casos absolutos do que essas duas regiões, mas liderava o índice per capita (episódios a cada 100 mil habitantes). Foram mais de 495, ante os 216,8 da segunda colocada, a Região Sul. O estado mais afetado proporcionalmente ficava em outra parte do Brasil: o Acre teve 1 512 casos por 100 mil habitantes, enquanto nenhum outro estado sequer chegou a 600.

Como não há tratamento específico para a infecção — o foco é o alívio dos sintomas —, a mobilização deve se centrar na prevenção da transmissão do vírus. “E a forma mais eficaz é o combate ao mosquito”, ressalta a médica da SBI.

mapa do brasil com os principais pontos afetados pela dengue
Ilustração: Eber Evangelista e Laura Luduvig/SAÚDE é Vital

Onde estávamos, aonde vamos

O que hoje parece impossível o Brasil conseguiu em 1955: na época, diante da escalada de casos de febre amarela, outro mal disseminado pelo Aedes, o governo promoveu campanhas de fumigação pelo país e considerou o mosquito erradicado. Mas, na década seguinte, ele voltou, trazido acidentalmente por navios que vinham de outros continentes.

E veio para ficar, aproveitando-se da urbanização caótica e da falta de saneamento básico. “Hoje não se fala mais em erradicação do mosquito. A ideia é conseguir controlar a população em um nível em que ela fique reduzida a ponto de não haver transmissão da dengue”, contextualiza a bióloga Margareth Capurro, professora da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora de um projeto de pesquisa com linhagens geneticamente modificadas do inseto.

Mosquitos transgênicos versus mosquitos da natureza: eis o plano que envolve alterar o DNA do Aedes para minar sua proliferação no meio ambiente. Funciona assim: insetos geneticamente modificados são criados em laboratório e colocados em uma área para se reproduzir entre os nativos, só que parte da prole não consegue sobreviver, enquanto a outra carrega um gene que limita a expansão das gerações seguintes.

Esse é o princípio por trás da tecnologia desenvolvida pela empresa britânica Oxitec e trazida há uma década para o Brasil. O emprego dos mosquitos transgênicos em cidades do interior paulista foi capaz de suprimir mais de 95% da população de Aedes.

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A evolução (e popularização) dessa tática está disponível a partir deste mês com a Caixa do Bem, que pode ser comprada por qualquer governo, condomínio ou pessoa física. Em vez de soltar mosquitos adultos no ambiente, como em fases anteriores, a caixa conta com ovos e insumos para que o Aedes transgênico passe seu ciclo de vida no lugar onde a novidade for instalada.

“O mosquito adulto é sensível à temperatura e muitas vezes não sobrevive ao transporte. A caixa é mais viável e fácil de escalonar”, diz Natalia Ferreira, diretora-geral da Oxitec no Brasil. A ideia é alargar frentes de batalha contra o vetor. “A dengue é um problema tão sério que precisamos combinar essas novas ferramentas às demais práticas”, pontua Natalia.

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Outra proposta que mira a proliferação do mosquito são cápsulas boladas na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) com óleo de tomilho, produto que consegue aniquilar as larvas do Aedes, que saem dos ovos após três dias na água.

“A cápsula só começa a liberar o óleo aos poucos depois desse período”, conta a engenheira química Ana Silvia Prata, líder dos estudos. Nos testes realizados em Adamantina (SP), a estratégia, que aguarda aval da Anvisa, eliminou até 100% das larvas em 48 horas.

infográfico dos mosquitos transgênicos
Infográfico: Eber Evangelista e Laura Luduvig/SAÚDE é Vital

Bactérias e vacinas

Em vez de atacar a reprodução dos mosquitos, um método levado a cabo pelo Ministério da Saúde em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) atua em sua capacidade de espalhar doenças. Os protagonistas do projeto são as bactérias do tipo Wolbachia. Presentes naturalmente em alguns mosquitos, elas impedem que o vírus da dengue se desenvolva dentro do inseto.

A sacada aqui é inserir cada vez mais Aedes com esses micro-organismos no ambiente, criando uma população menos danosa aos seres humanos. “Nesse caso, não há nenhuma modificação genética, nem no mosquito nem na bactéria”, esclarece Melissa.

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Ok, mas e a vacina contra a dengue? Tem boas notícias à vista nesse departamento também.

Façamos um retrospecto antes: em 2016, a Sanofi-Pasteur trouxe ao Brasil o primeiro imunizante do gênero, aprovado após estudos mundo afora. Só que, pouco depois do lançamento, veio um percalço: descobriu-se que os vacinados que nunca haviam contraído dengue podiam ter um caso mais grave da doença caso fossem infectados posteriormente. Com isso, o produto é restrito hoje a pessoas de 9 a 45 anos que tiveram dengue antes.

Agora, a nova aposta para atingir um público bem mais amplo é uma vacina da Takeda em vias de aprovação pela Anvisa. “Não foram observadas nas pesquisas reações com soronegativos [quem não teve dengue na vida], como no caso da outra vacina. No acompanhamento até três anos depois da aplicação, não houve nenhum risco desse tipo”, relata Abner Lobão, diretor-executivo de assuntos médicos da Takeda no Brasil.

Os avanços pela imunização, contudo, não significam que poderemos baixar a guarda contra o Aedes. Afinal, mesmo com a dengue subjugada, o mosquito continua espalhando chikungunya, zika e febre amarela.

Nesse sentido, precisamos melhorar as estratégias já consagradas, mas nem sempre adotadas. Ampliar o saneamento, evitar focos de água parada, utilizar repelente… Após o surto de casos de microcefalia em bebês provocados pelo zika vírus no Nordeste em 2015, por exemplo, a doença nunca mais voltou àquele patamar em grande parte devido ao esforço na região para minimizar a presença do Aedes.

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Na visão da médica da SBI, o enfrentamento do mosquito tem de virar rotina para a população. “Pelo menos uma vez na semana devemos verificar se os focos de água parada estão limpos ou cobertos”, orienta Melissa. No cerco a dengue e afins, o clássico e o moderno não só podem conviver como armam a sinergia mais protetora.

infográfico da vacina para dengue da takeda
Infográfico: Eber Evangelista e Laura Luduvig/SAÚDE é Vital

E a vacina que já está no mercado?

A vacina da Sanofi (Dengvaxia), que também mira os quatro sorotipos da dengue, chegou ao Brasil em 2016, mas apresentou limitações. Hoje ela é contraindicada a pessoas que nunca tiveram dengue antes. Isso porque, caso contraiam a doença depois da vacina, há o risco de desenvolver quadros mais graves de dengue.

Assim, a Anvisa restringe a indicação desse imunizante a pessoas que já travaram contato com a doença, tenham entre 9 e 45 anos e morem em áreas endêmicas. A expectativa é que o produto da Takeda possa ser utilizado em maior escala.

O que você pode e deve fazer

Proteção contra o mosquito demanda atitudes de cada um de nós

  • Sem lixo acumulado
    Mantenha lixeiras tampadas e evite depósitos de lonas e pneus. Descarte tudo que possa alojar água.
  • Nada de água parada
    Cubra ou vire para baixo recipientes que possam juntar água e atrair os mosquitos. Inspecione o quintal toda semana.
  • Telas e mosquiteiros
    Seu objetivo é impedir que os insetos entrem no pedaço sem cortar a circulação de ar. Bem úteis no verão.
  • Repelentes
    Em ambientes externos, mantêm os vetores afastados da pele. A aplicação de inseticida na casa também contribui.

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As outras pragas

Não é só a dengue que o Aedes espalha… Veja as demais infecções

  • Zika
    Embora os sintomas costumem ser leves, gestantes devem ter atenção dobrada, pois o vírus está relacionado a um aumento no risco de microcefalia em bebês.
  • Chikungunya
    Febre, dor nas articulações, fadiga e erupções cutâneas podem surgir até uma semana após a infecção. É capaz de causar dores crônicas nas juntas.
  • Febre amarela
    Provoca, como diz o nome, febre, além de náuseas e mal-estar, podendo levar a complicações fatais. Felizmente, há vacina, aplicada desde a infância.
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