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A nova vacina contra a dengue que pode ser aprovada no Brasil

Em estudo, essa vacina reduziu em 90% as hospitalizações. Se aprovada, ela pode se tornar a primeira a ser usada em larga escala contra a dengue

Por Chloé Pinheiro Atualizado em 14 Maio 2021, 12h33 - Publicado em 7 Maio 2021, 17h14

A farmacêutica Takeda solicitou à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) o registro de uma nova vacina contra a dengue. A TAK-003 é feita com uma versão modificada do vírus vivo atenuado e protege contra os quatro sorotipos da doença.

No estudo de fase 3, a vacina demonstrou eficácia geral de 80,2% na prevenção de casos confirmados de dengue. A proteção foi ainda maior contra hospitalizações (90%) e dengue hemorrágica, a versão mais grave da doença (85%).

O trabalho segue em andamento, acompanhando cerca de 20 mil crianças e adolescentes recrutados entre 2016 e 2017. Os achados mais recentes, publicados no periódico The Lancet, são dos primeiros 18 meses pós-vacinação. A investigação continua para conferir outros dados, como a duração da imunidade e segurança em longo prazo.

No registro submetido à avaliação da Anvisa, a fabricante indica que a fórmula poderá ser inoculada em pessoas entre 4 e 60 anos que tiveram ou não dengue. Esse é um detalhe importante. Vamos a ele.

A vacina que temos hoje tem uso limitado

Existe uma vacina contra a dengue aprovada no Brasil, a Dengvaxia, da Sanofi-Pasteur. Mas ela só está disponível na rede particular, e para quem já teve a doença. Ou seja, é preciso fazer um teste sorológico para verificar a presença de anticorpos (já quem nem sempre a infecção provoca sintomas) ou ter recebido a confirmação no passado.

Isso porque, em indivíduos sem contato prévio com o vírus, o imunizante pode provocar um quadro chamado de antibody-dependent-enhancement (ADE), algo como “amplificação da doença causada por anticorpos”, em tradução livre. “Nessa situação, há o risco de desenvolver quadros mais graves de dengue ao ser infectado depois de receber a dose”, conta o pediatra José Geraldo Leite Ribeiro, vice-presidente da Regional de Minas Gerais da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm-MG).

Por causa dessa restrição, o imunizante da Sanofi-Pasteur acabou não deslanchando e ficou restrita a um número pequeno de pessoas.

Já a Takeda afirma que a TAK-003 não desperta tal mecanismo. “Os 20 mil voluntários da fase 3 foram testados antes de começar a pesquisa e, entre eles, 27,6% eram soronegativos (não tinham anticorpos contra o vírus)”, comenta Abner Lobão, diretor executivo de Medical Affairs da Takeda no Brasil.

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Com três anos de acompanhamento, os pesquisadores não detectaram nenhuma ocorrência do tipo. No caso da Dengvaxia, foram cerca de cinco anos até flagrar a relação. “O desafio da Anvisa será interpretar se o período desse estudo é o suficiente para demonstrar que não há o risco”, comenta Leite.

A Takeda informou à Anvisa que a vacina pode ser tomada por todos. “Estamos tranquilos em afirmar que ela não causa o problema”, completa Lobão.

  • Como ela funciona

    A TAK-003 é uma vacina quimérica de vírus vivo atenuado. Traduzindo: é feita com pedacinhos de vírus modificados para ficarem mais fraquinhos, incapazes de provocar sintomas importantes. Diferentemente da Dengvaxia, que usa uma versão do agente por trás da febre amarela, o produto tem como base o sorotipo 2 do próprio causador da dengue. “Por meio da engenharia genética, ele passa a conter em sua superfície partes dos outros sorotipos, 1, 3 e 4”, conta Lobão.

    A vacina deve ser tomada em duas doses, com três meses de intervalo, e ainda não se sabe se precisará ser reaplicada de tempos em tempos. “Os dados atuais indicam que a imunidade se mantém, mas precisamos acompanhar os voluntários por mais tempo”, completa o porta-voz da fabricante.

    Quando deve chegar

    A Anvisa tem 60 dias para decidir sobre o registro. O plano é que, uma vez aprovada, ela seja negociada com o governo e incorporada ao Programa Nacional de Imunizações (PNI).

    Se realmente a vacina da Takeda puder ser aplicada na população como um todo, independentemente de uma infecção prévia por dengue, o potencial benefício para a sociedade é grande. Apesar de pouco falada no momento, a dengue segue fazendo estragos durante a pandemia de Covid-19. “Os casos dessa infecção na América Latina dobram a cada dez anos, o que mostra que nossas medidas de controle de vetores não estão funcionando”, pontua o pediatra da SBIm.

    Em 2020, foram registrados quase um milhão de casos prováveis de dengue no Brasil, segundo o Ministério da Saúde, dado que pode estar subestimado pela onipresença do coronavírus na rede de atendimento.

    Existe ainda uma vacina sendo produzida pelo Instituto Butantan. Ela é de dose única, também tem ação contra os quatro sorotipos e foi testada em 17 mil voluntários na fase 3, mas os resultados da fase final ainda não foram divulgados.

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