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Entre a beleza e o perigo: os riscos dos procedimentos estéticos

Complicações por procedimentos estéticos se tornam frequentes no Brasil. Conheça os riscos e saiba como não colocar a busca por um padrão acima da saúde

Por Ingrid Luisa (reportagem e texto) | Jonatan Sarmento (ilustração) | Estúdio Coral (design)
Atualizado em 18 ago 2023, 15h18 - Publicado em 18 ago 2023, 14h20

Eu adoro procedimentos estéticos. Aos 26 anos, fiz com minha dermatologista bioestimulador de colágeno e ultrassom microfocado no rosto, técnicas que instigam a formação de novas fibras de sustentação na pele.

E não estou sozinha nessa: amigas da minha faixa etária já colocaram Botox para conter rugas de expressão.

Na nossa idade, verdade seja dita, ainda temos muito colágeno natural e poucas marcas. A ideia é que, com acompanhamento profissional, a gente não só possa ficar mais bonita como evitar intervenções mais drásticas no futuro — o chamado “manejo do envelhecimento”.

“Todo procedimento depende de uma boa avaliação prévia, que leva em conta as características de cada paciente. Com a indicação certa, teremos resultados melhores no curto e no longo prazo aplicando toxina botulínica aos 30 anos do que aos 60, quando não fará o mesmo efeito”, explica a dermatologista Lilia Guadanhim, professora colaboradora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

“Mas essa decisão precisa ser encarada com seriedade e responsabilidade. Não é porque algo pode ser feito em uma clínica e não tem um pós-operatório trabalhoso que dá para fazer com qualquer um”, avisa.

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É aí que a busca pela beleza vem abrindo portas ao perigo. Ludibriada por promessas de melhoras instantâneas, muita gente tem investido em intervenções aparentemente tranquilas e seguras, mas que, na verdade, são armadilhas para a saúde e a autoestima.

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Fato é que o mercado da estética cresce exponencialmente: foi avaliado em mais de 100 bilhões de dólares globalmente, segundo o relatório Aesthetic Medicine Market Size & Growth. O documento aponta que os procedimentos não cirúrgicos representam mais da metade da demanda hoje.

E o Brasil é o segundo país que mais realiza essas intervenções no planeta, atrás apenas dos Estados Unidos, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética.

As passagens pelo bisturi para a mesma finalidade seguem rumo semelhante: a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) projeta pelo menos 2 milhões de operações em 2023.

Teríamos beleza de sobra se não fossem os riscos atrelados a soluções que vão de soro e chip da beleza a aplicações malfeitas de Botox e peeling, sem falar em intervenções para remodelar do rosto às partes íntimas.

Especialistas alertam para uma banalização dos procedimentos, com o marketing se sobrepondo à segurança para vender saídas “simples”, “não invasivas” e “com resultados na hora”.

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E o pior: a tendência insufla um aumento de queixas e complicações entre aqueles que se submeteram a esses artifícios.

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(Ilustração: Jonatan Sarmento/SAÚDE é Vital)

“Hoje eu percebo que fui realmente influenciada pelo que via no Instagram. Apesar de não gostar muito do meu nariz, nunca havia pensado em fazer rinomodelação”, relata a jornalista recifense Priscilla Aguiar, que passou por uma aplicação de ácido hialurônico no nariz.

“Aí o que era uma esperança virou um pesadelo: tive necrose, não recebi assistência da biomédica que fez o procedimento e quase perdi o nariz”, desabafa.

Priscilla estava com viagem de férias marcada para dali a quatro dias quando fez a intervenção, e conta que optou por ela porque a profissional garantiu que seria rápido e seguro, ou seja, não alteraria seus planos.

“Fiz numa quinta, saí de lá já achando estranho, mas estava com gaze, e a biomédica disse que era normal. No outro dia, comentaram que a cor estava escura demais. Liguei para a clínica e a secretária disse que a orientação era passar gelo”, conta.

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“No sábado, acordei morrendo de dor e com o nariz muito inchado. Liguei de novo desesperada, mas nem tive retorno. Resolvi procurar na internet se existia alguma notícia sobre problemas por rinomodelação, e não achei nada. Tive a ideia de procurar em inglês e encontrei alguns artigos falando sobre necrose. Foi aí que corri para a emergência de um hospital”, recorda.

Priscilla passou por todo esse drama em 2018. Ela teve sorte, respondeu bem aos tratamentos e conseguiu regenerar o nariz. Dois anos depois, recebeu uma ligação de Rafaela Cavalcanti, jovem que passou pelo mesmo drama mas teve menos sorte: a necrose se espalhou, e, desde lá, já realizou 17 cirurgias para reverter a situação.

“Foi aí que resolvemos criar a página @esteticaderisco. Para as pessoas verem no Instagram o que profissionais não mostram que pode acontecer”, diz a jornalista.

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Priscilla e Rafaela não são as únicas vítimas. O cantor Naldo também quase perdeu o nariz após uma rinomodelação.

A modelo Lygia Fazio, de 40 anos, teve um AVC e faleceu no início de junho por complicações após colocar silicone industrial e o preenchedor permanente polimetilmetacrilato (PMMA) — os dois proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para esse fim.

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Todos os dias, diversas pessoas sofrem com reações indesejadas após intervenções estéticas, mas, fora os episódios pontuais que viralizam, ainda pouco se fala disso.

Em artigo, a dermatologista Samira Yarak, professora da Unifesp, aponta essa dicotomia dentro da própria medicina: há uma discrepância entre a abundância de procedimentos realizados e a escassez de publicações sobre os problemas causados por eles. Ela defende que só a notificação compulsória de intercorrências permitiria dimensionar e conter esse fenômeno.

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(Ilustração: Jonatan Sarmento/SAÚDE é Vital)

Levando em conta o tempo da ciência, os procedimentos estéticos como os conhecemos hoje ainda são uma área relativamente nova, mas a busca por opções para preencher ou reparar o que falta no corpo vem de séculos.

As primeiras tentativas de aumento de tecidos moles remontam ao século 19. Um pouco mais tarde, buscou-se adotar até parafina quente para fazer correções na face. Mas os prejuízos vieram logo: por causa de deformações, ulcerações e necroses, o material foi banido.

O silicone líquido, diferente do atual, também chegou a ser usado, mas demonstrou os mesmos efeitos colaterais. No decorrer do século 20, o colágeno bovino purificado e o colágeno humano estrearam como opções de preenchedores estéticos injetáveis. E, na sequência, surgiu o ácido hialurônico em gel, que viria a dominar o mercado.

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O ácido hialurônico é uma substância produzida pelo nosso próprio corpo, e fator essencial para manter os contornos da pele.

Quando o primeiro produto para preenchimento em clínicas despontou, há cerca de 25 anos, foi vendido como isento de complicações por ter baixo risco alérgico e alta versatilidade.

O fato de ter efeito temporário e existir uma enzima que o degrada, a hialuronidase, também contou pontos positivos.

Mas foi-se descobrindo que ele não era tão inócuo assim. “Falar sobre complicações já foi um tabu. Mas, aos poucos, os médicos começaram a identificar reações adversas com a prática, e foi preciso começar a discutir o tema”, conta a médica Maria Fernanda Tembra, especialista pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).

O desconhecimento dos profissionais sobre o assunto e o aumento nas intercorrências originárias de aplicações de ácido hialurônico motivaram Maria Fernanda, a também dermatologista Gabriela Munhoz e a radiologista especialista em pele Fernanda Cavallieri a criarem um curso focado no ensino do manejo de intercorrências.

“A ideia é treinar colegas médicos de todas as especialidades para que saibam identificar rapidamente as complicações e possam aplicar o protocolo certo. Nosso lema é: diagnostique antes de tratar”, resume Gabriela, que, junto ao grupo, já assinou artigos internacionais sobre o tema.

A identificação do que está provocando o problema na pele é crucial para remediar a situação a tempo — e, para isso, os experts contam com ferramentas como ultrassom dermatológico. “É possível e importante diferenciar os preenchedores utilizados na paciente, saber se é ácido hialurônico, silicone ou PMMA, por exemplo”, salienta Fernanda.

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Não existe um produto ou procedimento 100% seguro e imune a efeitos colaterais. Mas, antes de tudo, é preciso garantir que a intervenção vendida tem evidência científica de eficácia e segurança.

Se sim, para que os riscos sejam reduzidos ao mínimo, deve-se levar em conta um tripé: formação e capacidade técnica do profissional, avaliação e prescrição adequada ao paciente e escolha correta do que será utilizado.

“Quando esses três princípios são respeitados, os perigos oferecidos por procedimentos certificados são baixos”, afirma Samira. “Mas, em virtude de falhas na capacitação dos profissionais e de produtos não autorizados pela Anvisa em uso no país, vemos um aumento no percentual de complicações”, completa.

A professora sublinha que reações adversas podem ocorrer inesperadamente ao longo ou depois de uma intervenção. Por isso, uma boa consulta é decisiva. “O médico precisa examinar o paciente e explicar quais são as vantagens, as desvantagens e os riscos reais envolvidos. E dizer que nem sempre as expectativas serão atendidas”, argumenta.

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(Ilustração: Jonatan Sarmento/SAÚDE é Vital)

Dentro do tripé da segurança, é imprescindível manter um olhar para o histórico e as condições de saúde de quem procura a intervenção, certificando-se de doenças prévias e do estado atual antes de começar qualquer procedimento.

“Às vezes, o profissional nem pergunta e o paciente nem fala, mas não dá para fazer preenchimento em uma pessoa resfriada ou doente, por mínimo que seja o quadro”, alerta a médica Elisete Crocco, coordenadora do Departamento de Cosmiatria da SBD.

Com a imunidade comprometida, micróbios oportunistas podem inclusive causar uma infecção e um problema bem maior.

Falando em produto, quando se pensa em qualidade, o primeiro passo é checar se possui aprovação da Anvisa.

“É interessante também pedir para ver a caixa do que será utilizado e ter ideia dos estudos a respeito”, orienta Fábio Saito, gerente de educação médica da Galderma. O cirurgião plástico dá um exemplo: “Temos no mercado o ácido hialurônico que responde mais rápido à enzima que o degrada e, assim, pode ser removido com eficiência caso seja necessário”.

Já a questão dos profissionais aptos a fazer as intervenções é mais complexa.

Há pelo menos uma década expandiu-se o número de áreas da saúde que, com aval da legislação, podem realizar procedimentos não cirúrgicos — muito além dos médicos, dentistas, biomédicos, enfermeiros, farmacêuticos e fisioterapeutas possuem tal permissão. E esteticistas reivindicam o mesmo.

A grande dúvida é garantir que todo mundo tenha capacidade para lidar com as complicações possíveis. E, para entender em que pé as coisas andam, a reportagem contatou os conselhos profissionais.

Yuri Salles, médico e diretor do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj), ressalta que todo procedimento estético, cirúrgico ou não, é invasivo, e que nenhum profissional (ainda que esteja devidamente capacitado) está totalmente isento de vivenciar eventuais complicações.

“O que defendemos, pensando na segurança do paciente, é que apenas pessoas habilitadas a lidar com problemas de saúde, que são os médicos, possam fazer essas intervenções. Não adianta só injetar um produto. Tem que saber agir rápido caso apareça uma complicação”, diz.

Nessa linha, Caio Rezende, secretário da Comissão Técnica de Harmonização Orofacial do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (Crosp), afirma que, como apenas dentistas e médicos podem prescrever medicamentos, são os mais aptos a atender e a remediar imprevistos.

“Como vai tratar uma infecção se não dá para prescrever antibiótico?”, questiona. Rezende chama a atenção para outro ponto crucial nessa história: “Intervenções cirúrgicas mais invasivas como lifting e rinoplastia devem ser feitas em hospitais e não podem ser realizadas por profissionais habilitados só para harmonização facial”.

Tatiana Melo Guimarães, coordenadora da Comissão Nacional de Regulamentação da Enfermagem Estética do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), diz que o enfermeiro esteta é treinado para avaliar o paciente como um todo antes de qualquer procedimento e aprende protocolos para agir diante de intercorrências.

“Se houver uma complicação mais séria, podemos encaminhar o paciente a médicos ou enfermeiros especializados em lesões. É raro, mas pode acontecer”, afirma, destacando o papel de equipes multidisciplinares.

Em nota, o Conselho Federal de Biomedicina (CFBM) diz que “os procedimentos e as técnicas permitidas aos biomédicos são normatizados a fim de permitir a atuação apenas na dimensão estética, e não para tratar doenças”. Os profissionais da área atuam, segundo o órgão, com intervenções não invasivas e mínima possibilidade de complicações.

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Dicas de como escolher um bom profissional (Tabela: editoria de arte/Veja Saúde/SAÚDE é Vital)

Mesmo com todas as regras, é fato que hoje se vê muita gente sem a devida habilitação propagandeando promessas incríveis e pescando clientes.

Para separar a beleza do perigo, é preciso cobrar mais fiscalização das autoridades, tomar uma dose de cautela, informar-se e pesquisar bem antes de entregar seu corpo (e sua vida) a alguém.

Todo mundo tem direito de melhorar algo de que não gosta em si mesmo, mas, como batem na tecla os profissionais sérios, a estética não pode ficar acima da saúde.

Abaixo, confira e entenda a classificação de risco de alguns procedimentos estéticos.

Chip da beleza

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(Ilustração: Estúdio Coral/SAÚDE é Vital)

Nome popular para o implante à base de gestrinona, hormônio artificial derivado da testosterona e pertencente à classe dos esteroides anabolizantes.

Ele promete aumento de massa muscular e melhora da pele, dos cabelos e até da libido. Mas pode provocar o efeito oposto: há relatos de casos de acne severa, queda dos fios, crescimento do clitóris, ganho de peso e riscos cardíacos no longo prazo.

Haveria supostos benefícios da gestrinona para o controle de problemas como endometriose, mas novos estudos não recomendam nem para essa finalidade, tanto que a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem) contraindicam o uso.

Para coroar, o Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou neste ano uma resolução proibindo a prescrição de esteroides do gênero por razões estéticas. “Não há base científica nem segurança para o uso desses chips da beleza. E já sabemos dos seus efeitos adversos”, reforça o endocrinologista Paulo Miranda, presidente da Sbem.

+Leia Também: Com prescrição proibida, anabolizantes podem causar efeitos irreversíveis

Soroterapia

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(Ilustração: Estúdio Coral/SAÚDE é Vital)

Já pensou em tomar nutrientes na veia para ficar exuberante? É a proposta dos soros da beleza, que nada mais são que coquetéis de vitaminas, minerais e aminoácidos administrados via endovenosa.

Alega-se que eles são capazes de aumentar massa magra, conter o estresse, prevenir o envelhecimento e revitalizar a pele. Será?

Não existe soro da beleza. Não há um soro empacotado ou uma fórmula única de nutrientes que sirvam para todo mundo”, contesta a nutróloga Marcella Garcez, especialista em suplementos e diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran).

A entidade, inclusive, emitiu nota contra o procedimento: “Os medicamentos e nutrientes injetáveis endovenosos podem ser muito úteis em casos específicos de prescrição para reposição em pacientes com deficiências, mas não com a finalidade de cunho estético”, crava.

Marcella pontua que a entrada rápida de vitaminas e minerais no organismo pode até despertar reações perigosas, como mal-estar, arritmia cardíaca e choque anafilático. Cuidado!

Ozonioterapia

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(Ilustração: Estúdio Coral/SAÚDE é Vital)

É uma panaceia: defensores do tratamento com o gás ozônio alegam que ele trata (e cura) uma série de doenças, que vão de câncer e Alzheimer a HIV e Covid-19 — cabe frisar que não há estudos confiáveis a respeito.

No segmento estético, prometem estimular a produção de colágeno e reduzir celulite e gordura localizada. A aplicação pode ser subcutânea, retal, vaginal e até pelo sangue. A prática acabou de ser liberada no país, após o Senado e o presidente Lula aprovarem uma lei a favor.

“Não existe nenhuma evidência forte ou publicação em revistas científicas relevantes mostrando benefícios”, diz Francisco Sampaio, presidente da Academia Nacional de Medicina (ANM), instituição que apelou ao presidente Lula para que não sancione a lei.

“A prática ainda pode ser perigosa. Há protocolos em que se tira o sangue do paciente, depois reintroduzido com ozônio, algo capaz de gerar embolia ou até infecção generalizada”, alerta.

“O gás tem, sim, ação antisséptica, tanto que é usado para esterilizar materiais médicos, mas nem para o tratamento de feridas há evidências concretas.”

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Ácido Hialurônico (AH)

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(Ilustração: Estúdio Coral/SAÚDE é Vital)

A maioria das complicações envolve a formação de nódulos — os edemas tardios intermitentes ou persistentes (ETIP) — ou infecção depois.

“É normal o paciente ficar com o rosto inchado por alguns dias, sentir dor e até ter um leve roxinho. Mas cabe ao profissional dar seu contato e estar acessível para o paciente 24 horas por dia para o caso de ocorrer algo fora do esperado”, pontua a dermatologista Gabriela Munhoz.

Também pode haver problemas devido ao uso excessivo do produto, uma reação de um corpo estranho na pele ou mesmo intoxicação pelo anestésico que costuma estar presente na formulação.

Quando ver um profissional gabando-se por injetar várias ampolas no rosto de uma pessoa, desconfie.

A área que apresenta maior risco de complicação é o nariz, por ser recheado de vasos finos, que parecem raminhos de fios de cabelo. Caso o ácido penetre neles, pode haver necrose da região e até cegueira.

“Tem que agir rápido em caso de oclusão de vaso, com tratamentos específicos para reverter o problema”, diz a dermatologista Elisete Crocco.

Botox e bioestimulador

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(Ilustração: Estúdio Coral/SAÚDE é Vital)

As intercorrências com bioestimuladores de colágeno, substâncias que induzem o corpo a produzir essa proteína, são quase as mesmas relativas ao ácido hialurônico.

Segundo um estudo publicado na Revista de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva da Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos em cima de 40 mil procedimentos realizados, a incidência de reações adversas por injeção de compostos dessa categoria gira em torno de 2% dos casos.

Parece trivial, mas é bom lembrar que, caso não sejam tratados rápida e adequadamente, alguns danos podem gerar estragos irreversíveis.

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No caso do Botox, usado para bloquear a contração muscular e amenizar rugas de expressão, a complicação mais preocupante é a ptose de pálpebra ou supercílio, quando essas partes ficam caídas.

“Ela está relacionada à aplicação no músculo errado ou em quantidade excessiva”, expõe a dermatologista Ligia Novaes, membro da SBD.

Com a evolução do material, a probabilidade de reveses do tipo caiu, mas a capacitação do profissional é crucial para garantir a segurança.

Preenchedor permanente

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(Ilustração: Estúdio Coral/SAÚDE é Vital)

A bioplastia é conhecida como “plástica sem cortes”: recorre a injetáveis para criar alterações fixas no rosto e no corpo. Mas a ideia não é isenta de riscos, justamente pelos produtos empregados.

O principal deles é o PMMA (polimetilmetacrilato), preenchedor permanente de baixo custo que é injetado em regiões como face, mamas e glúteos.

O caso da modelo Lygia Fazio, que faleceu por complicações relativas ao produto, não é exceção, tanto que a substância é proibida pela Anvisa para fins estéticos.

Como ela tem efeito permanente e não é absorvida pelo corpo com os anos — como acontece com o ácido hialurônico —, qualquer intercorrência tem maior chance de gerar sequelas estéticas e funcionais.

“Hoje só recomendamos o PMMA em uso exclusivo para correções de pequenas deformidades em pacientes com HIV que apresentam lipodistrofia [deposição anormal de gordura pelo corpo]”, diz, em nota, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).

Desconfie, inclusive, de locais que oferecem preenchimento com ácido hialurônico por um preço muito abaixo do mercado — pode haver PMMA na mistura.

Peeling de Fenol

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(Ilustração: Estúdio Coral/SAÚDE é Vital)

O peeling nada mais é que uma descamação induzida para que haja uma intensa renovação celular. E o mais eficiente do mercado é também o mais perigoso: à base de fenol, ele praticamente troca a pele do rosto, e o resultado é uma aparência de rejuvenescimento.

Claro, isso tem um custo alto. E não é para todo mundo.

“O fenol é uma substância tóxica ao coração, aos rins e ao fígado. A quantidade que cai na corrente sanguínea após a aplicação é significativa, por isso é preciso realizar um monitoramento geral do paciente”, afirma a dermatologista Fabiana Pietro, fundadora do ambulatório de peelings profundos à base de fenol modificado da Sociedade Brasileira de Medicina Estética (SBME).

“Não é todo profissional que trabalha com fenol justamente porque ele exige bastante conhecimento e as complicações são temidas”, conta a médica.

A intervenção ficou famosa nas redes sociais por deixar o rosto com aparência de queimadura após a sessão e ter um pós-tratamento longo. Fazer com um médico especialista é a única forma de minimizar os riscos.

Microagulhamentos

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(Ilustração: Estúdio Coral/SAÚDE é Vital)

É um procedimento que literalmente machuca a pele com agulhas para estimular sua regeneração natural, visando à melhora da textura e da aparência.

É bem comum em clínicas de estética, mas, como faz furinhos na pele, deve-se lembrar que não é isento de ameaças. Não à toa, precisa ser feito em um ambiente controlado, limpo e com aparelhos e luvas esterilizados para não gerar nenhum tipo de contaminação ou infecção.

A técnica mais moderna associa radiofrequência às agulhas: assim, além de cutucar fisicamente a pele, aquece o local, o que pode potencializar os efeitos no longo prazo.

“Mas é preciso saber utilizar a energia e a profundidade adequadas, dependendo da área a ser tratada”, afirma Ligia Novaes. “Também existe o momento certo de fazer. Não se deve aplicar em pessoas bronzeadas, por exemplo, porque o calor causa uma diferença de cor”, avisa a médica.

Manchas e arranhões também podem dar as caras se o profissional errar a mão. Assim, o resultado está totalmente atrelado à força e ao manejo adequado dos instrumentos.

Tecnologias de luz e calor

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(Ilustração: Estúdio Coral/SAÚDE é Vital)

Laser, ultrassom microfocado e aparelho de luz intensa pulsada: tecnologias que se valem de luz ou calor têm diversas funções estéticas, e o resultado depende da indicação e do domínio correto do profissional.

“Não é só apertar um botão que a máquina faz tudo sozinha, como muitos acham. Um bom resultado é totalmente técnico-dependente”, afirma a dermatologista Márcia Linhares, também da SBD.

Os principais efeitos adversos dos lasers são queimaduras e manchas na pele — as versões ablativas podem até gerar sangramentos, o que às vezes é normal.

Tudo depende do modo de aplicação (se houve acerto ou erro na ponteira utilizada ou na intensidade da radiação) e da calibragem do aparelho, que requer manutenção, ponto a observar nas clínicas que alugam o maquinário.

Quanto ao ultrassom, uma sessão mal administrada é problemática. “Pode derrubar sobrancelha ou pálpebra, desviar o sorriso e até causar uma paralisia facial”, alerta Márcia.

“É preciso conhecer bastante a anatomia do rosto e as regiões em que se pode ou não aplicar as ondas”, diz a médica.

Cirugias para rosto

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(Ilustração: Estúdio Coral/SAÚDE é Vital)

Parece óbvio, mas é prudente reforçar: apenas cirurgiões plásticos estão capacitados a fazer cirurgias estéticas. E, por incrível que pareça, ainda tem gente que cai em armadilhas.

“Já recebi muitas complicações de operações feitas por profissionais não médicos, e, no rosto, a reversão delas é bem mais complexa”, diz o cirurgião plástico Etienne Miranda, da SBCP.

O especialista ainda chama a atenção para procedimentos populares, mas não mais tão indicados, como a lipo de papada, que oferece risco de aderência e pode deixar a região disforme.“Há anos que nós, cirurgiões, não fazemos mais, porque contamos com outros métodos com resultados melhores”, detalha.

Cirurgias de lifting, rinoplastia e outras intervenções no rosto também oferecem riscos, sobretudo quando o profissional não domina a anatomia e as técnicas corretas.

Cirugias para corpo

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(Ilustração: Estúdio Coral/SAÚDE é Vital)

Lipoaspiração, lipo HD (ou lipo LAD), abdominoplastia… Essas cirurgias são as queridinhas de quem quer eliminar gordura da barriga ou esculpi-la. Casos de morte por essas intervenções sempre viram notícias, mas, mesmo sendo exceções, é bom conhecer onde mora o perigo.

“As fatalidades são principalmente associadas a dois fatores: perfuração de um vaso sanguíneo grande e importante ou de um órgão interno. Ou tromboembolia pulmonar, quando um coágulo se forma e vai parar no pulmão”, esclarece o cirurgião plástico Juan Montano, consultor científico da SBCP.

O médico conta que a lipo HD, destinada a definir os contornos do abdômen, apresenta maior risco que a lipo normal, pois retira gorduras logo abaixo da pele, o que pode comprometer a vascularização e os tecidos nas redondezas.

Procurar um cirurgião com expertise é condição sine qua non para não se arrepender depois.

Procedimentos em regiões íntimas

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(Ilustração: Estúdio Coral/SAÚDE é Vital)

Levantar o bumbum, suavizar os lábios vaginais, aumentar o pênis… Até nesses domínios os procedimentos estéticos batem ponto.

Começando pelos glúteos, implante de silicone é uma opção — desde que haja aval médico. Já aplicações de PMMA seguem contraindicadas por aqui.

Nos EUA, ganhou o noticiário recentemente uma técnica cirúrgica para arrebitar o bumbum ligada a sérias complicações. Por isso, cuidado com a propaganda.

Quem também está em evidência são os procedimentos para aumento de pênis.

Fora as cirurgias de ordem funcional, que passaram por estudos, há grande procura por aplicações de ácido hialurônico ali. E isso pode ser trágico, ainda mais por não levar em conta a fisiologia do órgão.

“Essas intervenções não estão regulamentadas. Quem não tinha problemas nas relações sexuais pode passar a ter”, alerta o médico Paulo Egydio, membro da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).

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