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Covid-19: a nova vida fora de casa

Dá pra ir ao restaurante? E ao salão de beleza? Festinha nem pensar? Projeções revelam quais ambientes são mais ou menos arriscados — e os cuidados a tomar

Por Maurício Brum e Juliana Coin - Atualizado em 18 set 2020, 15h24 - Publicado em 18 set 2020, 14h52

A fase mais pesada do isolamento imposto pela pandemia está acabando. Embora a Covid-19 não esteja devidamente controlada em boa parte do Brasil — o número de novas infecções e mortes segue elevado —, as cidades começaram a flexibilizar as restrições à circulação. Em meio à discussão entre especialistas, tensos com um cenário epidemiológico longe do ideal, e gestores públicos, preocupados também com a retomada da economia, o fato é que mesmo as pessoas mais disciplinadas começaram a sair aos poucos às ruas.

Sim, estamos exaustos da quarentena, mas a pandemia não terminou! A nova vida lá fora exige uma série de cuidados — inclusive porque não podemos perder de vista a perspectiva de termos de nos trancar em casa de novo.

Por ser um país continental, o Brasil enfrenta situações distintas entre os estados. O Amazonas, que encarou seus piores dias em março e abril, já voltou até com as aulas presenciais. São Paulo, por sua vez, só deve reabrir as escolas oficialmente em outubro. E o mantra científico é regionalizar a retomada mesmo. “Precisamos avaliar caso a caso de acordo com a taxa de transmissão local, a capacidade hospitalar, o número de infecções e óbitos… São essas informações que devem embasar o gestor na reabertura”, defende a microbiologista Natalia Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência (IQC).

Algumas recomendações permanecem essenciais independentemente do lugar e do aparente controle: usar máscaras, lavar as mãos com frequência, manter distanciamento social e evitar aglomerações. Nem as cidades com os melhores índices podem se descuidar. “Isso porque, em tese, quanto menor o número de pessoas infectadas numa região, maior o número de suscetíveis à doença, o que influencia a possibilidade de surtos locais”, explica a epidemiologista Anaclaudia Fassa, professora da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Rio Grande do Sul.

A propósito, sem uma vacina eficaz à disposição, não adianta partir para uma busca deliberada pela tão citada imunidade de rebanho — o saldo de doentes e mortos pode subir a patamares ainda piores.

Além das peculiaridades regionais, o risco de pegar ou disseminar o vírus também varia de acordo com o espaço que a gente frequenta (praça, escritório, igreja, shopping etc.) e os cuidados tomados ali, como você verá ao longo da reportagem. “Uma escola pode ser segura se disponibilizar água e sabão, toalha de papel, álcool em gel e supervisionar as crianças. O perigo depende da função que o local desempenha e das medidas de prevenção adotadas”, esclarece Anaclaudia.

Com menos isolamento, a tendência natural é o patógeno circular ainda mais. Daí a necessidade de respeitarmos as orientações de proteção e higiene. “Qualquer medida de flexibilização deve ser tomada com muito cuidado. E a população precisa ter plena consciência do seu papel”, afirma o médico Leonardo Weissmann, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). “Flexibilizar não significa um ‘liberou geral’”, sentencia.

Ilustração: Méuri Elle/SAÚDE é Vital
Ilustração: Méuri Elle/SAÚDE é Vital

Praça e parque

É seguro ou arriscado?
De acordo com os cientistas, os ambientes abertos são mais seguros que aqueles fechados. Praças e parques oferecem bastante espaço para as pessoas manterem o distanciamento de cerca de 2 metros umas das outras e boa circulação do ar — condições ideais para um passeio em família. Pensando em quem quer se exercitar, eles seriam uma melhor opção no momento do que as academias de ginástica, sobretudo aquelas sem ventilação natural.

Cuidados indispensáveis
As orientações tão divulgadas por aí valem para qualquer atividade fora de casa, mesmo ao ar livre: utilize máscara e evite locais que estão com aglomeração de pessoas. Em pracinhas infantis, com muitas superfícies de contato para as crianças, é importante lavar as mãos após brincar e instruí-las a não levar os dedos ao rosto. Álcool em gel por perto é sempre bem-vindo.

Ilustração: Méuri Elle/SAÚDE é Vital

Restaurante

É seguro ou arriscado?
A situação se complica aqui por duas razões: primeiro pela alta probabilidade de juntar muita gente; segundo porque fica difícil cumprir integralmente uma das regras básicas de proteção. “A grande desvantagem do restaurante é ter de tirar a máscara para comer”, nota Anaclaudia. Em estabelecimentos que oferecem um ambiente aberto, opte sempre por comer do lado de fora, onde há mais circulação de ar e menor risco de transmissão do vírus.

Cuidados indispensáveis
Os restaurantes devem funcionar com capacidade reduzida e as mesas têm de ser higienizadas após cada uso. Atenção à forma como os pratos e talheres são disponibilizados: empilhados em um balcão com livre acesso aos clientes, como ocorria em muitos locais antes da pandemia, é algo fora de cogitação. Bufês também são contraindicados. Procure utilizar máscara antes e depois de comer e ter cuidado ao retirá-la.

Ilustração: Méuri Elle/SAÚDE é Vital

Supermercado

É seguro ou arriscado?
Entre os poucos espaços que não fecharam nem no auge do isolamento, os mercados já seguiam protocolos para ajudar a controlar o perigo antes de outros setores voltarem. Eles continuam de pé: só podemos entrar de máscara, há distâncias demarcadas nas filas e devemos cooperar com a higiene das mãos e dos carrinhos. Ainda assim, vários produtos podem ser tocados por pessoas diferentes e corredores estreitos às vezes causam aglomerações.

Cuidados indispensáveis
Como o que está exposto pode ser manuseado antes, tenha atenção redobrada para não levar a mão ao rosto sem higienizá-la. Muitas redes vêm realizando a limpeza constante dos equipamentos de uso comum, mas, caso não veja um funcionário fazendo isso, saque seu álcool em gel e um lenço para limpar as alças dos carrinhos de compras e cestas antes de usá-los. Por fim, procure evitar filas ou corredores apinhados.

Ilustração: Méuri Elle/SAÚDE é Vital

Transporte público

É seguro ou arriscado?
A maioria dos ônibus, trens e metrôs não dispõe de ventilação adequada e os muitos usuários têm contato direto com superfícies como roletas e barras de apoio. É um quadro difícil para tempos de pandemia. Anaclaudia Fassa acredita que a situação pode piorar com a volta às aulas em escolas, colégios e faculdades. “Em muitos lugares, esse público representa cerca de um terço da população local”, calcula.

Cuidados indispensáveis
Se der para fazer o trajeto a pé ou de bicicleta, tanto melhor. O uso do carro particular também conta pontos aqui, mas não é uma opção bacana em termos de sustentabilidade. Se for inevitável o transporte coletivo, cuide ainda mais para não levar as mãos ao rosto. O ideal é que, ao entrar e sair do veículo, você faça a higiene com álcool imediatamente. E nem cogite tirar a máscara lá dentro.

Ilustração: Méuri Elle/SAÚDE é Vital

Loja e shopping

É seguro ou arriscado?
O cenário não muda tanto na comparação com os supermercados, por causa das várias superfícies de contato, o espaço reduzido das lojas e a ventilação limitada. Mas esses lugares têm menos experiência em lidar com os protocolos de segurança, já que ficaram mais tempo fechados. Shoppings têm um agravante: costumam ser espaços de socialização, que as famílias frequentam juntas, e isso pode elevar tanto a circulação de pessoas como a do vírus.

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Cuidados indispensáveis
Shoppings devem restringir o uso de espaços públicos e aglomerações. Nas lojas, o tipo de produto vendido demanda cuidados específicos. No caso das roupas, provadores precisam ser esterilizados após o uso, e as peças têm de passar por higienização após serem provadas ou devolvidas. Locais que vendem produtos usados na mão ou no pulso, como anéis e relógios, podem exigir uso de luvas.

Ilustração: Méuri Elle/SAÚDE é Vital

Salão de beleza

É seguro ou arriscado?
Apesar da limitação de usuários e dos horários de atendimento mais espaçados, o risco de contágio é maior porque salões e barbearias são ambientes fechados e o contato entre funcionário e cliente é bem próximo. Corte de barba e procedimentos no rosto podem exigir tempo prolongado e a retirada momentânea da máscara.

Cuidados indispensáveis
A limpeza recorrente do estabelecimento é o ponto fundamental. Cadeiras, escovas, pentes e toalhas devem passar por higienização após cada uso, e outros equipamentos, como lâminas de navalha, cera e lixas de unha, têm de ser descartados imediatamente. Funcionários também devem usar máscara e caprichar na limpeza das mãos. “E continua necessário esterilizar itens como alicates de unha e espátulas de metal”, lembra a professora da UFPel.

Ilustração: Méuri Elle/SAÚDE é Vital

Igreja

É seguro ou arriscado?
Espaços de congregação acabam reunindo uma “tempestade perfeita” em época de pandemia: grande número de pessoas, pouca ventilação, aglomeração por um período prolongado e variedade de superfícies de contato compartilhadas (assentos, hinários, livros, entre outros). Também são eventos sociais, em que a interação com outras pessoas é mais comum, o que aumenta o perigo.

Cuidados indispensáveis
Os templos devem reduzir sua capacidade e aumentar a distância entre os assentos. O recomendado é que missas e cultos tenham uma duração menor, sem orações de mãos dadas. Em igrejas católicas, a água benta na entrada foi removida e os novos protocolos impedem que o padre entregue a hóstia na boca dos fiéis. Se for recebê-la na mão, a orientação é usar álcool em gel antes de comungar.

Ilustração: Méuri Elle/SAÚDE é Vital

Escola

É seguro ou arriscado?
Embora crianças e adolescentes corram menos riscos diretos com o coronavírus, podem levar o patógeno para casa. O assunto ainda é controverso, mas uma pesquisa da Universidade Harvard (EUA) aponta que infectados entre 11 e 16 anos podem portar uma carga viral maior, o que aumentaria a probabilidade de transmissão. Protocolos de segurança, que incluem disponibilidade de itens de higiene e redução do número de alunos por sala, são determinantes para as escolas. “Inclusive porque é difícil fazer as crianças manterem o distanciamento”, observa Anaclaudia.

Cuidados indispensáveis
A palavra-chave aqui é orientação — e ela envolve professores, pais e filhos. As turmas podem ser fracionadas e frequentar a escola em horários alternados (os alunos mais velhos de máscara). Bebedouros estão vetados, mas é preciso reforçar as precauções na hora do lanche.

Ilustração: Méuri Elle/SAÚDE é Vital

Consultório

É seguro ou arriscado?
Falamos de ambientes fechados e que podem ser frequentados por pessoas infectadas, mas que são mais capacitados para cumprir as medidas de higiene e distanciamento. Os profissionais de saúde costumam receber treinamento e usam equipamentos de proteção. E existem regras específicas por setor: dentistas, por exemplo, devem zelar por cuidados extras no atendimento e na esterilização dos aparelhos levados à boca.

Cuidados indispensáveis
Clínicas, consultórios e hospitais demarcam as áreas e distâncias ideais entre os pacientes na sala de espera. Por precaução, vale a pena tomar um banho e trocar de roupa ao voltar — especialmente se você teve de ir a um centro hospitalar. Se for possível realizar uma consulta virtual, ela pode trazer orientações sem o risco de se expor presencialmente.

Ilustração: Méuri Elle/SAÚDE é Vital

Reunião em casa

É seguro ou arriscado?
A vida em quarentena não é fácil, mas, se alguns cuidados não forem respeitados agora, aquele que é considerado nosso refúgio mais seguro pode virar fonte de problemas. Quanto mais limitada e fechada for a residência (e mais acentuada a aglomeração no pedaço), maior o risco de contágio. Se a casa ou o apartamento têm uma sacada ou jardim, priorize sempre esses ambientes abertos.

Cuidados indispensáveis
O ideal é continuar evitando reuniões caseiras ou só ter contato com pessoas que você sabe que estão seguindo as medidas adequadas. “Se for encontrar alguém, escolha uns poucos amigos e restrinja a variedade e o número de pessoas”, sugere a professora da UFPel. Segundo a médica, ainda “não é o momento de ter contato se não houver necessidade”. E deixe sempre o álcool em gel à disposição das visitas.

Onde é que o vírus pega

Situações que geram aglomerações são consideradas as de maior risco, a despeito do local em questão. E o quadro se torna crítico em ambientes que não contam com ventilação natural adequada. Por isso, ainda são contraindicados eventos como shows, baladas e congressos.

Natalia Pasternak, do IQC, ressalta que o problema em si não é estar na rua, mas na relação interpessoal muito próxima e sem os devidos cuidados higiênicos. Nesse sentido, ir ao parque e andar de bicicleta ofereceria menor risco de contágio do que uma confraternização em um barzinho cheio. Mas tudo vai depender também do respeito às medidas de segurança.

“Qualquer lugar que convide muitas pessoas ao mesmo tempo acaba sendo mais perigoso. Afinal, o vírus está nas pessoas”, diz a bióloga, que também é pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP).

Quando não sair de casa (mesmo!)

A regra geral permanece: se puder, fique em casa e só saia para atividades pontuais. Pessoas que fazem parte do grupo de risco (idosos e portadores de doenças crônicas como diabetes e obesidade) devem ter cuidado especial, já que podem desenvolver formas mais severas da Covid-19.

Os especialistas dividem quem teve contato com casos positivos em dois grupos: os contactantes ocupacionais, aqueles que estão circulando em vários ambientes; e os contactantes domiciliares, pessoas que estão isoladas mas convivem com quem circula e pode levar o vírus pra casa. Em ambas as situações, se houver suspeita da infecção, deve-se monitorar a situação, de preferência com suporte médico a distância, e fazer isolamento total por 14 dias. Se houver falta de ar ou piora dos sintomas, é importante ir ao hospital quanto antes.

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