Clique e assine VEJA SAÚDE por R$ 6,90/mês

Coronavírus: o que podemos aprender com ele?

Em meio a temores e incertezas, a ameaça do novo coronavírus chega ao Brasil e continua alimentando o que há de melhor (e pior) na humanidade

Por André Biernath - Atualizado em 29 abr 2020, 16h31 - Publicado em 15 mar 2020, 10h52

No dia 2 de março de 2019, bem antes de se decretar a pandemia do novo coronavírus, os biólogos chineses Yi Fan e Peng Zhou, do Instituto de Virologia de Wuhan, publicaram um artigo científico que não teve grande impacto na comunidade acadêmica internacional, tampouco chamou a atenção da imprensa e de autoridades. Mesmo assim, há uma frase logo no primeiro parágrafo que hoje causa espanto pelo tom premonitório: “É altamente provável que surtos futuros de coronavírus se originem de morcegos, e há uma probabilidade maior de que isso ocorra na China”.

Nem o mais pessimista dos futurólogos poderia imaginar que, em menos de dez meses, a previsão se tornaria realidade com tamanha exatidão: a descoberta de um novo coronavírus, batizado de Sars-Cov-2, virou a preocupação mundial de 2020. As notícias começaram a brotar nas últimas semanas de 2019, quando médicos notificaram um aumento do número de crises respiratórias na cidade de Wuhan, na porção leste da China.

Poucos dias depois, já se sabia que o quadro misterioso era provocado por um tipo desconhecido de coronavírus, da mesma família de agentes que estiveram por trás das epidemias de Sars (sigla para síndrome aguda respiratória grave), em 2002, e Mers (síndrome respiratória do Oriente Médio), em 2012.

Até o fechamento desta reportagem, eram mais de 137 mil casos e 5 mil mortes pela doença chamada de Covid-19. Embora a maioria dos infectados ainda esteja concentrada na China, as notificações já se estendem por mais de uma centena de países, e o Brasil superou o número de cem casos confirmados.

Apesar de os sintomas serem leves 85% das vezes, idosos e sujeitos com doenças crônicas, como asma e diabetes, estão mais vulneráveis a complicações e morte. Outro temor é a possibilidade de o vírus ser transmitido de pessoa para pessoa numa fase inicial, quando não há sintomas, o que dificultaria o controle. Diante de um contexto tão instável, que lições podemos tirar dessa história, inclusive para contornar uma ameaça que ainda não foi vencida?

Continua após a publicidade

A reação das organizações de saúde diante da infecção

A história do cruzeiro Diamond Princess dá uma dimensão da seriedade do assunto: o navio viajaria pelo Sudeste Asiático, mas precisou ficar desde o dia 5 de fevereiro atracado em Yokohama, no Japão, após quatro passageiros serem diagnosticados com o coronavírus. Na quarentena, que foi alvo de severas críticas dos médicos que realizaram visitas ao navio, a doença se espalhou para outros 700 passageiros, cerca de 20% do total de turistas e tripulantes.

A boa notícia é que as autoridades estão formulando respostas com uma rapidez nunca antes vista. “Em menos de duas semanas, já se sabia qual era o vírus e suas informações genéticas”, observa o infectologista Celso Granato, do Fleury Medicina e Saúde. A título de comparação, a aids despontou nos anos 1970 e o HIV, seu causador, foi descoberto em 1983. Mais recentemente, o zika tocou o terror no Brasil em 2016. Mas ele circulou anônimo por quase um ano e só chamou a atenção após o aumento nos casos de microcefalia em bebês.

O comportamento da China durante essa crise, aliás, é digna de elogios. Em 2002, no surto de Sars, que também se iniciou por lá, eles demoraram um tempão para avisar o resto do mundo. O erro não se repetiu em 2020. Entre as ações tomadas pelo governo chinês, destacam-se a construção de um hospital de mil leitos em dez dias e a operação de isolamento de Wuhan, que tem 11 milhões de habitantes (o mesmo que São Paulo).

Nessa linha, órgãos internacionais adotaram uma postura firme e enérgica: a Organização Mundial da Saúde (OMS) logo decretou emergência pública internacional, o que incentivou as nações a criarem planos de contingência. Jornais científicos deram acesso livre e gratuito a todas as publicações com descobertas sobre o coronavírus. Governos de países ricos ajudaram os mais pobres nas medidas de precaução. “Só vamos sair dessa por meio da cooperação e do trabalho em conjunto”, acredita a médica Nancy Bellei, da Sociedade Brasileira de Infectologia.

O perfil do coronavírus

Essa família viral está no planeta há 300 milhões de anos — ela é mais antiga que os dinossauros!

Continua após a publicidade

A entidade: o coronavírus recebeu esse nome porque parece ter uma coroa em sua superfície quando visto no microscópio. Ele é comum em vários países, inclusive no Brasil.

Intermediários: o Sars-Cov-2, o coronavírus da epidemia atual, veio de morcegos. Existe a suspeita de que ele passou por um mamífero chamado pangolim antes de afetar humanos.

Portas de entrada: o novo vírus invade o corpo pelos olhos, pelo nariz ou pela boca. Ele foi aspirado pela primeira vez a partir das fezes de algum animal, muito provavelmente num mercado da cidade de Wuhan.

Senha correta: o coronavírus se conecta ao receptor ACE2, que fica na superfície das células. Após o ataque, ele usa o maquinário celular para produzir um monte de cópias de si mesmo.

Espera silenciosa: a infecção fica de dois a seis dias sem dar sinal. Esse é o tempo que os vírus demoram para se replicar e dominar novas células. Aos poucos, ganham terreno até chegar aos pulmões.

Continua após a publicidade

Graves repercussões: até 15% dos pacientes acometidos pela Covid-19 vão apresentar complicações como dificuldade para respirar e pneumonia. Isso é mais frequente em idosos e portadores de doenças crônicas.

Espalhou geral: estima-se que, numa situação sem controle ou isolamento, um sujeito com a moléstia seja capaz de transmiti-la para outras três pessoas por meio de gotículas de saliva, tosses e espirros.

Epidemia de fake news

Claro que essa urgência, motivada por um vírus desconhecido e perigoso, tem seus efeitos adversos. A disseminação de notícias falsas é uma delas. Em aplicativos de mensagem como o WhatsApp, circula um monte de imagens que revelam milhares de mortos espalhados pelas ruas, indicando que a situação seria mais grave que o divulgado. Em paralelo, textos sugerem tomar chá de erva-doce para se resguardar da doença ou que o álcool em gel ajuda a disseminar o novo coronavírus. Tudo lorota… A própria OMS chegou a classificar a situação com o coronavírus como uma “infodemia”, ou epidemia de informações mentirosas.

Teve até gente que se aproveitou do momento para levantar uma graninha. O dono de um centro de estética em São Paulo, que teve seu registro de médico cassado, postou um vídeo no Instagram oferecendo injeções de vitamina D para evitar a moléstia. Uma clínica de Minas Gerais passou a indicar sessões de ozonioterapia com a mesma finalidade.

O absurdo é que não há comprovação de que esses tratamentos tenham efeitos contra a Covid-19. “As fake news são um verdadeiro crime na saúde, pois geram um pânico enorme na população”, argumenta David Uip, coordenador do Centro de Infectologia do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

Continua após a publicidade

O biólogo e comunicador científico Atila Iamarino sabe bem como é lidar com esse mar de informações desencontradas. “Enquanto tudo está incerto, fica fácil vender um monte de certezas”, raciocina. Nas últimas semanas, ele vem produzindo uma série de conteúdos sobre o coronavírus em sua conta no Twitter, que tem mais de 180 mil seguidores, ou para o canal do YouTube Nerdologia, que agrega 2,6 milhões de inscritos.

Apesar do caos, o especialista vê melhoras no controle de boatos e mentiras na internet. “Na epidemia de zika, o YouTube trazia quatro vídeos feitos por fontes confiáveis e o resto era tudo teoria da conspiração. Hoje, o site não mostra aos usuários conteúdos que não tenham sido feitos por órgãos oficiais ou veículos de imprensa”, compara. Será que temos enfim uma luz no fim desse túnel?

O que aprendemos com o novo vírus

Entre avanços e retrocessos, o episódio do novo coronavírus serve ao menos para reforçar mensagens valiosas de proteção à saúde, úteis inclusive contra outras doenças mais comuns, como o resfriado e a gripe. É importante, por exemplo, lavar as mãos com frequência, especialmente ao chegar em casa, trabalho ou escola. Na hora de espirrar ou tossir, cobrir a boca e o nariz com o braço (nunca com as mãos!).

Se aparecerem sintomas leves, como mal-estar, nariz entupido e febre, ficar em casa para não transmitir a moléstia às pessoas ao redor. E, claro, só ir ao pronto-socorro se esses incômodos piorarem ou aparecerem sinais mais sérios, como falta de ar e confusão mental.

Em última análise, a experiência atual com o coronavírus deixa a humanidade mais preparada para lidar com pandemias futuras. “Quer apareça na natureza, quer pelas mãos de um terrorista, segundo os epidemiologistas, uma doença transmitida pelo ar que se propaga rapidamente pode matar 30 milhões de pessoas em menos de um ano”, alertou o empresário americano Bill Gates num discurso em 2018.

Continua após a publicidade

Todos os acertos e erros dessas primeiras semanas de 2020 serão repetidos (ou consertados) para enfrentar novos vírus que surgirão em algum canto do planeta daqui a dois, cinco ou 20 anos. “Temos que integrar os sistemas de vigilância e desenvolver vacinas e remédios com mais rapidez”, chama a atenção o virologista Edison Luiz Durigon, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP).

Por fim, o Covid-19 nos deixa uma rica lição sobre os cuidados com o meio ambiente. “Quanto mais preservarmos os ecossistemas, menor o risco de esses vírus saltarem dos animais silvestres para as pessoas”, avalia o virologista Paulo Eduardo Brandão, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP.

Eis uma responsabilidade que passa por nossas ações individuais, pela pressão da comunidade e pelas decisões de governantes. O que está em jogo é, nada mais, nada menos, o próprio futuro da humanidade.

Ilustração: Thiago Almeida/SAÚDE é Vital

Fontes: Edison‌ Luiz‌ Durigon, professor titular de virologia do‌ Instituto de Ciências Biomédicas da‌ Universidade de São Paulo (USP); Paulo Eduardo Brandão, virologista da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP; Regina Fernandes Flauzino, professora de epidemiologia da Universidade Federal Fluminense e membro da diretoria da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco); Agência Nacional de Vigilância Sanitária; Marcos Boulos, infectologia e professor da Faculdade de Medicina da USP.

Publicidade