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Coronavírus: como estão as pesquisas em busca de um remédio específico

Os tratamentos mais discutidos contra a Covid-19 foram criados para outras doenças. Mas cientistas vêm desenvolvendo drogas exclusivas para o coronavírus

Por Maria Tereza Santos - 4 set 2020, 15h59

Centenas de pesquisas estão sendo realizadas no mundo para encontrar um tratamento comprovadamente eficaz contra o novo coronavírus (Sars-Cov-2). Embora muitas se concentrem em testar remédios já usados para outras doenças (o que agiliza os estudos), algumas buscam desenvolver um medicamento específico para a Covid-19 do zero.

E, assim como no caso das vacinas, o Brasil é visto como o lugar ideal para esses estudos — a pandemia segue afetando muitas pessoas por aqui, o que oferece voluntários de sobra. Além disso, temos bons cientistas para conduzir os experimentos.

O princípio ativo ABX464, do laboratório francês Abivax, é um dos que está sendo colocado à prova no país. França, Alemanha, Reino Unido, Itália, México, Chile e Peru também participarão da empreitada.

“A fase um da pesquisa foi feita com indivíduos saudáveis. A segunda, em pacientes com colite ulcerativa, uma doença inflamatória do intestino. Agora que sabemos a dose que parece funcionar bem, começamos um estudo randomizado duplo-cego focado no coronavírus”, conta o imunologista Jorge Kalil, professor da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do estudo.

Dez centros brasileiros integram esse esforço conjunto. “E há mais dez em qualificação. A ideia é recrutar 680 pacientes aqui, esperando um total de 1 136 em todos os países”, relata Kalil. Os voluntários terão acima de 65 anos e/ou obesidade, diabetes, hipertensão e problemas cardíacos. A ideia é testar o fármaco em indivíduos com casos leves ou moderados do coronavírus e verificar se ele evita o agravamento do quadro.

O ABX464 é um medicamento oral que promete atuar como antiviral, anti-inflamatório e reparador dos tecidos pulmonares. Mas atenção: todos esses predicados carecem de comprovação.

“Os efeitos colaterais apresentados anteriormente são mínimos. Algumas poucas pessoas ficam enjoadas e têm dor de cabeça”, diz Kalil.

Acredita-se que esse estudo termine em dezembro de 2020. “Solicitei à Abivax que o Brasil entre em prioridade para receber o remédio logo depois da França”, revela o imunologista da USP.

Mas essa não é a única promessa a ser investigada em terras verde-amarelas. A farmacêutica alemã Merck iniciou recentemente a segunda etapa de uma pesquisa que irá checar a eficiência de uma molécula em 150 voluntários brasileiros e americanos com coronavírus.

Batizada de M5049, ela neutraliza os sensores das nossas células que detectam o RNA do Sars-CoV-2. “Esse bloqueio em pacientes com pneumonia no início de uma resposta hiperinflamatória pode suprimir a ‘tempestade de citocinas’, que leva a complicações potencialmente fatais”, explica Luiz Magno, diretor médico da Merck no Brasil. De novo, a proposta é impedir a progressão para um quadro crítico.

Se o estudo trouxer bons resultados, o princípio ativo partirá para a terceira e última etapa de avaliação. Não há previsão de quando ele ficaria disponível.

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Há ainda uma pesquisa que não está sendo realizada no nosso país, mas vale uma menção por ser conduzida pela AstraZeneca — a mesma empresa da vacina de Oxford, uma das mais avançadas na corrida contra o coronavírus.

O remédio possui uma combinação de anticorpos monoclonais que bloqueiam duas partes de uma proteína específica do Sars-CoV-2. Com isso, o vírus não conseguiria entrar nas células do organismo.

“Os anticorpos monoclonais impediriam o contágio em pessoas expostas ou a multiplicação do vírus em alguém já infectado”, conta Maria Augusta Bernardini, diretora médica da AstraZeneca no Brasil. Ou seja, ele não apenas trataria, como preveniria a Covid-19 (o que seria especialmente útil para profissionais de saúde, por exemplo).

A investigação se encontra na primeira fase com seres humanos — feita com 48 voluntários no Reino Unido. “No estágio atual, não dá para falarmos de evidências de eficácia”, pondera Maria Augusta.

Quais as dificuldades de criar um remédio contra a Covid-19

De acordo com o infectologista Marcelo Simão Ferreira, da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o atributo mais desejável de uma droga seria retirar o coronavírus do corpo o mais rapidamente possível. Isso para impedir o processo inflamatório exacerbado, que causa complicações em diferentes órgãos.

“É na primeira semana da infecção que o Sars-CoV-2 se replica”, informa Ferreira, que também é chefe do Serviço de Moléstias Infecciosas do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em Minas Gerais. Ocorre que não é exatamente fácil desenvolver moléculas com esse potencial.

Mais: um remédio, além de eficaz, deve ser seguro. “Às vezes, um princípio ativo funciona nos testes, mas apresenta muitos efeitos colaterais, o que impede seu uso. Não adianta funcionar contra o vírus e provocar arritmia cardíaca, hepatite, lesões nos rins etc”, aponta o especialista.

Quando falamos de uma doença que não existia até pouco tempo atrás, a coisa fica mais complicada. Faltam conhecimentos relativamente básicos sobre sua atuação, que dificultam a produção de candidatos a tratamento.

E, paradoxalmente, a aplicação de uma vacina comprovadamente eficaz na população pode diminuir o ritmo de experimentos com novas medicações. Ora, se as pessoas estão imunizadas, um tratamento se torna menos urgente. “O período para avaliarmos rapidamente a eficácia e a segurança de vários compostos é agora”, pontua Ferreira.

Mesmo assim, ele reforça a importância de dar continuidade a estudos como os que citamos mesmo após uma eventual vacinação em massa. “Nós não sabemos se novas ondas dessa pandemia podem acontecer, por exemplo. Se tivermos um medicamento, seria ótimo”, finaliza o profissional.

Principalmente se a imunidade contra o coronavírus se perder com o tempo, um remédio ajudaria a evitar mortes em possíveis novos surtos. E, claro, ele seria empregado nos casos em que a vacina não funcionou (ou não foi aplicada por algum motivo).

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