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Cannabis medicinal é liberada nas Paralímpiadas por agência antidoping

Nos Jogos Paralímpicos de Tóquio, esportistas podem manter tratamento à base de canabidiol, que alivia sintomas crônicos, como dores e ansiedade

Por Fabiana Schiavon Atualizado em 30 ago 2021, 16h17 - Publicado em 27 ago 2021, 18h48

O uso de produtos à base de canabidiol ou CBD, um dos princípios ativos da Cannabis sativa — nome científico da maconha —, foi liberado aos atletas paralímpicos pela Agência Mundial Antidoping (Wada).

A decisão é um alívio para os esportistas. O CBD ajuda a reduzir inflamações, relaxar os músculos e controlar dores. “A substância apresenta todas essas vantagens em relação à recuperação física dos atletas e ainda tem menos efeitos colaterais do que os medicamentos tradicionais”, explica a médica Maria Teresa Jacob, de Campinas (SP), membro da International Association for Canabinoid Medicines (IACM). Sem falar que, segundo a especialista, auxilia no combate à insônia e melhora o foco.

A iniciativa também é um passo importante na luta contra o preconceito. Afinal, ainda é tabu utilizar medicamentos derivados de uma droga considerada ilícita no Brasil.

O nadador paralímpico Talisson Glock, que levou a medalha de prata, em 2016, e de bronze, agora em Tóquio, adotou o CBD em 2020, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a fabricação de produtos à base de cannabis.

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“Eu já conhecia o CBD há bastante tempo, mas nunca cogitei o uso no Brasil, porque me parecia algo muito distante e extremamente mistificado. Mas o fato de a Wada liberar o óleo já mostra que eles estão de olho na ciência e querendo quebrar esse tabu”, analisa Glock, em comunicado da empresa Pangaia, que fornece o produto. Ele teve braços e pernas amputados após sofrer um acidente.

A experiência do atleta fez outros colegas adotarem o tratamento. É o caso do nadador Roberto Alcalde. “O CBD tem me ajudado demais na recuperação entre os treinos e, principalmente, na qualidade do sono”, conta o esportista, que também viu melhora nos episódios de ansiedade. Alcalde nasceu com mielomeningocele, uma malformação na coluna vertebral.

Já a gaúcha Susana Schnarndorf foi diagnosticada com atrofia multissistêmica, uma doença degenerativa que não tem cura. Antes triatleta, ela passou, então, a competir como nadadora paralímpica.

Susana encontrou no óleo um alívio para as crises de ansiedade e insônia. Ela sente, ainda, que o tratamento diminuiu o ritmo da evolução da doença. “Eu não tinha a qualidade de vida esperada só com as práticas convencionais”, declara.

Como o CBD age?

O nosso organismo tem, acredite, seu próprio sistema endocanabinoide, onde são produzidos moléculas de canabinoides que atuam no sistema nervoso. O CBD, um dos ativos da cannabis, estimula essa engrenagem. Assim, um dos efeitos mais importantes é o alívio da dor.

“A maioria dos atletas paralímpicos passou por eventos traumáticos em suas vidas e podem ter pensamentos obsessivos pelo medo de sentir dores, muitas vezes crônicas”, analisa Maria Teresa.

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O estigma e a falta de conhecimento sobre as diferenças entre maconha medicinal e o uso recreativo impedem que mais pessoas tenham acesso a esse tipo de tratamento.

Cabe lembrar que a substância que “dá o barato” na droga recreativa é o THC – e não o CBD. De qualquer maneira, o THC também é recrutado em medicamentos. “Mas em doses infinitamente menores do que na maconha fumada. Aliás, os níveis dessa substância aumentam muito na forma de cigarro por causa da combustão”, ensina a médica.

A cannabis no Brasil

Por aqui, o CBD pode ser encontrado em forma de óleo, cápsula e pomada para lesões. Há até a versão íntima para problemas com libido ou dor durante a relação sexual e também itens com finalidade cosmética.

“Sempre é preciso ter a receita de um médico que vai passar pela aprovação da Anvisa. O cuidado é mais especial para atletas porque o produto precisa vir da indústria farmacêutica com a garantia de que não tenha traços de THC na composição, pois esse erro é capaz de enquadrar o atleta no doping”, esclarece Maria Teresa.

Para o advogado Henderson Fürst, presidente da Comissão Especial de Bioética da OAB Nacional, o reconhecimento da eficácia medicinal dos canabinoides pela Wada atesta o que a ciência tem comprovado e ajuda a desmistificar desentendimentos sobre o tema.

Já há achados sólidos sobre os benefícios da cannabis para epilepsia refratária, dores crônicas de origem neuropática, Parkinson, esclerose múltipla, autismo, náuseas e vômitos desencadeados por quimioterapia.

No Brasil, a legislação que libera medicamentos à base de canabidiol vem caminhando a passos lentos. Em 2015, a Anvisa autorizou a importação de medicamentos quando feitos em associação a outros tratamentos. Com o dólar nas alturas, só pessoas de alto poder aquisitivo conseguiam ter acesso.

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“Apenas em 2020 a agência reguladora autorizou a indústria farmacêutica nacional a fabricar medicamentos com princípio ativo derivado de cannabis, mas desde que o insumo seja importado. Ou seja, seguimos dependendo do mercado externo, da oscilação do câmbio e do frete internacional”, elenca Fürst.

Neste ano, a agência nacional permitiu a utilização de mais dois novos produtos à base de cannabis, mas ainda há a necessidade de importá-los. A resolução de 2021 libera outras dosagens à base de CBD, e formulações com concentração de THC de até 0,2%.

“Os produtos com concentrações de THC superiores a 0,2% só poderão ser prescritos a pacientes terminais ou que tenham esgotado as alternativas terapêuticas de tratamento”, detalha a Anvisa em um trecho do comunicado.

Quem utiliza o medicamento em forma de óleo tem algumas opções para consegui-lo no Brasil por um preço mais atrativo. “Há como adquiri-lo por meio de associações de pacientes que possuem autorização judicial para plantar, extrair e comercializar o óleo de CBD. Também dá para cultivar a planta e extrair o óleo em casa, mediante liberação judicial”, explica o advogado.

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