Bactéria comum na infância pode ter relação com câncer colorretal precoce
Estudo encontrou uma ligação entre mutações causadas por uma toxina gerada por bactérias e diagnósticos de tumor colorretal antes dos 50 anos

De 1990 a 2019, a mortalidade do câncer colorretal cresceu 20,5% nos países da América Latina. Mas essa não foi a única tendência de alta relacionada à doença. Nos últimos 20 anos, o número de diagnósticos disparou entre quem tem menos de 50 anos.
Esses casos de câncer colorretal são considerados precoces. Um deles, que ficou famoso no Brasil, é o da cantora Preta Gil, diagnosticada aos 48 anos. A origem desse aumento entre os adultos jovens ainda é um mistério – mas uma pesquisa recém publicada na prestigiada revista científica Nature pode fornecer novas pistas para a situação.
O objetivo dos cientistas, liderados pelo biólogo Marcos Díaz Gay (da Universidade da Califórnia em San Diego), era investigar como mutações genéticas nos tumores colorretais se apresentavam em pacientes de diferentes idades, moradores de vários países.
Só que uma mutação específica se destacou entre os jovens e, agora, novos estudos devem apontar se uma infecção bacteriana comum na infância pode estar ligada a alta diagnóstica dos últimos anos.
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O que a pesquisa descobriu?
Cientistas analisaram o código genético de 981 amostras de tumores de pacientes com câncer colorretal, moradores de 11 países – incluindo o Brasil. Alguns dos fatores de risco relacionados à doença, como o tabagismo, deixam “assinaturas” específicas no DNA do tumor. Ou seja, fumar causa um padrão único mutações no código genético, que podem ser verificadas em laboratório.
Algo similar acontece com a bactéria Escheria coli, responsável por quadros de gastoenterite comuns em crianças. A E. coli produz uma toxina, chamada de colibactina, capaz de provocar mutações no DNA.
Já se sabia que essa mutação estava associado ao câncer colorretal, mas agora os pesquisadores encontraram uma relação específica entra a alteração genética e os casos da doença entre jovens.
Essas mutações eram três vezes mais comuns nos casos de pacientes com menos de 40 anos do que no grupo diagnosticado depois dos 70. No último ano, outro estudo britânico já havia encontrado essa mesma mutação em 13% dos pacientes avaliados.
Uma das possibilidades é que a infecção pela E. coli na infância faça com que alguns marcadores de câncer apareçam mais cedo. Assim, alguém cujo DNA foi afetado pela colibactina por volta dos 10 anos de idade pode ser diagnosticado com câncer colorretal aos 40, em vez de aos 60, como era mais comum décadas atrás.
Por enquanto, a conclusão ainda é uma hipótese, mas já é um passo além na investigação das causas para esses tumores.
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Os próximos passos da ciência
Agora, novos estudos devem tecer mais comparações para atestar que a mutação gerada pela colibactina realmente é uma das explicações para o câncer colorretal entre jovens.
A pesquisa da Universidade da Califórnia apontou a relação, mas ainda não conseguiu provar que a mutação é causadora direta dos casos.
Também será preciso comparar as amostras atuais com amostras de tumores de décadas passadas, para descobrir se a colibactina está ligada à tendência recente de alta no câncer colorretal precoce ou não.
As próximas pistas oferecidas pelos cientistas podem gerar novas formas de prevenir ou tratar o câncer colorretal.
Hoje, a diretriz brasileira orienta que colonoscopias de rotina sejam realizadas a partir dos 45 anos de idade, mas com as alterações no perfil dos pacientes, mudanças podem ser necessárias.