Por que lotes de Aptamil foram proibidos pela Anvisa? Entenda crise no setor que já afeta 99 países
Produtos foram recolhidos por presença de toxina, problema que já afeta diversas marcas e foi alvo de alerta da OMS na última semana
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), após comunicado de recolhimento voluntário da Danone, determinou nesta quinta-feira (19) a proibição da comercialização, da distribuição e do uso de lotes da fórmula infantil para lactentes Aptamil Premium 1, de 800 gramas, produzida pela empresa.
De acordo com a autarquia, laudos do próprio fabricante constataram a presença da toxina cereulide no produto indicado para recém-nascidos de até seis meses.
Essa substância tóxica é produzida pela bactéria Bacillus cereus, comum em alimentos, e pode causar sintomas como vômitos intensos e diarreia, representando um risco maior para bebês.
Em virtude da contaminação, os seguintes lotes devem ser recolhidos:
- 2026.09.07 (fab. 08/03/2025)
- 2026.10.03 (fab. 03/04/2025)
- 2026.09.09 (fab. 10/03/2025)
Em um comunicado, a Danone destacou que um número muito limitado desses produtos está em circulação no momento e que os controles internos da empresa indicam que a grande maioria já foi consumida.
Segundo a fabricante, os lotes em questão foram produzidos exclusivamente com matérias-primas adquiridas em 2024 e se referem a produtos vendidos em 2025.
“Seguimos colaborando integralmente com a autoridade sanitária, como temos feito de forma constante nos últimos meses, e reforçamos que todos os demais lotes de Aptamil e demais produtos do portfólio nacional da Danone não fazem parte dessa medida preventiva e regulatória, permanecendo totalmente seguros para o consumo”, disse a empresa, em nota.
+Leia também: Entenda a crise das fórmulas infantis que afeta produtos da Nestlé e da Danone
Problema é internacional e já levou a alerta da OMS
Na última sexta-feira (13), a Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu um alerta sobre o evento internacional associado à contaminação por cereulide em diversas marcas de fórmulas infantis distribuídas pelo mundo.
Segundo a entidade, entre 10 de dezembro de 2025 e 25 de fevereiro de 2026, 99 países notificaram lotes de fórmulas infantis sujeitos a recolhimento devido à toxina. Desde janeiro, 144 casos suspeitos de intoxicação (crianças com sintomas após a ingestão de produtos recolhidos) foram relatados em 10 países.
No Brasil, já foram notificados cinco casos, incluindo dois bebês que foram internados no Distrito Federal após ingestão de produtos da Nestlé.
Investigações identificaram o óleo de ácido araquidônico (ARA) – um tipo de ômega-6 -, utilizado como ingrediente nos produtos envolvidos, como a fonte de contaminação.
Com base nas informações disponíveis, a OMS avalia o risco geral para a saúde pública como moderado devido à vulnerabilidade da população afetada (bebês), à incerteza contínua em relação à extensão total da distribuição dos produtos e às lacunas na detecção de casos e informações sobre a raiz do problema.
Em território brasileiro, os recolhimentos começaram em janeiro, quando foram identificadas as contaminações nos produtos da Nestlé, como fórmulas das linhas NAN, Nestogeno e Alfamino.
Fora daqui, a Danone já havia recolhido a fórmula Dumex Dulac 1, comercializada na Singapura, enquanto a Lactalis anunciava o recolhimento de lotes de fórmulas infantis em 18 países.
Agora, a Anvisa está aplicando um novo método para a avaliação de produtos, permitindo uma detecção ainda mais precisa da presença de toxinas. Segundo a Danone, desde janeiro a empresa já mantinha um diálogo com a autarquia e, por isso, agora, se antecipou com as novas análises e, consequentemente, o recall.
Até 25 de fevereiro, os seguintes países notificaram casos suspeitos de intoxicação, referente a diferentes marcas, segundo a OMS:
- Espanha (41)
- Reino Unido (61)
- Áustria (9)
- Brasil (5)
- República Checa (4)
- Singapura (3)
- China, Hong Kong SAR (1)
- França (11)
- Itália (1)
Em outros regiões, incluindo Dinamarca (32) e Países Baixos (221), o número de casos suspeitos baseia-se em autodeclaração e, por isso, não são comparáveis com os demais. Entre eles, até o momento, a Bélgica seria o único país com casos confirmados em laboratório, relatando oito intoxicações.
O que fazer caso tenha o produto em casa
Se você utiliza a fórmula infantil Aptamil Premium 1 – 800g, da Danone, verifique o número do lote impresso.
A orientação da Anvisa é que, se o produto pertencer a um dos lotes recolhidos, ele não deve ser utilizado ou oferecido para consumo. Além disso, a Danone informa que, nesses casos, o cliente deve entrar em contato com canal de atendimento ao consumidor para realizar a troca gratuita ou solicitar o ressarcimento total.
Vale lembrar que outros lotes desse produto não foram afetados.
Para verificar se a fórmula que você tem em casa faz parte da medida, observe a data de fabricação, como mostrado pela marca na seguinte imagem:
Se a criança apresentar sintomas compatíveis com a infecção após o consumo do produto dos lotes indicados, deve ser levada imediatamente para atendimento médico. Nesse caso, é importante informar o alimento que foi consumido, se possível com uma amostra da embalagem, caso a tenha disponível.
O que é cereulide e porque é arriscado para bebês
A cereulide é uma toxina produzida pela bactéria Bacillus cereus, que é muito comum. “Ela está presente no ambiente, no chão, em superfícies, nos alimentos… enfim, em todos os lugares. E nós consideramos impossível erradicá-la completamente”, explicou o infectologista Renato Grinbaum, da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).
É difícil impedir a sua presença no ambiente porque essa bactéria é dura na queda, graças aos seus esporos — uma espécie de casca protetora — que lhe permitem sobreviver por mais tempo mesmo em temperaturas extremas.
Consequentemente, a B. cereus pode contaminar vários alimentos, como carne bovina, peru, arroz, feijão e vegetais. “Todo e qualquer alimento vai ter um pouquinho dessa bactéria“, alerta o infectologista.
O problema surge quando há uma proliferação grande desse microrganismo em um alimento, aumentando, também, a presença das toxinas produzidas por ela. Uma delas é a cereulide.
E isso cria outro problema: técnicas que matam a bactéria não são suficientes para remover a cereulide do produto.
Quando ingerida em grandes quantidades, a cereulide pode levar a sintomas típicos de uma intoxicação alimentar, o que inclui vômitos e diarreias persistentes, que começam alguns minutos ou horas após o consumo do produto.
Em geral, o quadro é leve. Apesar disso, em bebês o risco de complicações é ainda maior, por dois motivos principais:
- Em função do peso corporal, eles precisam consumir quantidades bem menores da toxina para ter problemas sérios;
- Dependendo da idade da criança, seu sistema imune ainda é muito imaturo para enfrentar contaminações
Ainda assim, a situação costuma se resolver sozinha e, segundo os médicos, não existe antídoto específico contra a cereulide.
“O tratamento basicamente é suporte clínico, hidratação, manutenção do estado geral do paciente e avaliação de riscos de intoxicações mais graves, embora seja extremamente raro”, orientou, em reportagem, o pediatra Albert Bousso, diretor e pediatra do Hospital Infantil Darcy Vargas, unidade pública gerenciada pelo Einstein Hospital Israelita (SP).
De todo modo, a orientação principal é: diante de vômitos persistentes, recusa alimentar, prostração ou sinais de piora, os pais devem procurar atendimento médico.
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