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Ann Lindstrand, da OMS: “Ninguém está seguro até todos estarmos seguros”

Essa pediatra, uma das responsáveis na OMS por supervisionar a vacinação do coronavírus, discute os desafios para uma distribuição equitativa das doses

Por Theo Ruprecht Atualizado em 14 Maio 2021, 12h33 - Publicado em 4 Maio 2021, 15h11

Enquanto países como os Estados Unidos discutem a vacinação de adolescentes, outros mal começaram a campanha de imunização contra a Covid-19. E essa desigualdade, mais do que uma questão política ou diplomática, ameaça sabotar o controle da pandemia no mundo todo, inclusive nas nações mais ricas e com encomendas de vacinas que superam em muitas vezes a necessidade da própria população.

Daí porque o V Simpósio Internacional em Imunobiológicos da Fiocruz, que começou no dia 3 de maio de 2021, reservou um bom tempo para discutir a distribuição igualitária das vacinas contra o coronavírus. E um destaque da programação é a palestra da pediatra Ann Lindstrand,  coordenadora do Programa Expandido de Imunizações do Departamento de Imunização, Vacinas e Biológicos da Organização Mundial da Saúde (OMS)

Veja Saúde entrevistou com exclusividade essa especialista. Ao longo da conversa, ela explicou o motivo pelo qual uma vacinação desigual acaba deixando todos expostos à Covid-19. E revela quais medidas ajudariam nesse sentido. Lindstrand ainda aborda na conversa outro problema da atualidade: a hesitação vacina.

VEJA SAÚDE: A maior dificuldade para fazer as vacinas chegaram na população está na produção ou na distribuição?

Ann Lindstrand: Hoje, a limitação maior ainda está na produção. Há muitos países com encomendas que seriam suficientes para vacinar a sua população mais de uma vez, mas a dificuldade está em fabricar as doses rapidamente. A boa notícia é que, a cada mês, teremos maior oferta de vacinas. E aí o debate sobre distribuição deve se intensificar.

De qualquer forma, há países já avançados na vacinação, enquanto outros ainda estão bem atrás. Como a OMS está lidando com a distribuição no mundo?

É a primeira vez na historia em que existe um mecanismo global para distribuição equitativa das vacinas, que é a Iniciativa Covax. Ela faz acordos com as empresas, traz financiamento de setores privados e países e entrega doses para diferentes populações, em especial as com menor acesso.

É um maquinário que está funcionando, mas esperamos ter bem mais doses vindas de doações de países ricos, que fizeram acordos de compras de vacinas diretamente com as empresas, e que superam em várias vezes o número da população local. Se eles compartilharem essas doses, com a Covax, teremos como administrar e enviar doses de maneira organizada.

A Suécia anunciou recentemente a doação de doses à Covax. É fácil convencer os países mais ricos a compartilharem vacinas?

Eu acho que muitos países entendem a necessidade de compartilhar, porque é a coisa certa a fazer. Mas eu acho que é difícil para líderes políticos abdicarem de doses quando há uma pressão interna de proteger a própria população. Isso é uma pena, porque nós sabemos que a vacinação precisa chegar a todos os cantos do mundo para nós termos a chance de parar a pandemia de Covid-19.

O título da sua apresentação no simpósio da Fiocruz é “Ninguém está seguro até todos estarem seguros”. Por quê?

Um problema que é global, como uma pandemia, necessita de soluções globais. Todos queremos voltar a uma vida social e econômica dentro da normalidade. A não ser que compartilhemos as vacinas e façamos uma distribuição equitativa no mundo, corremos o risco de a pandemia ser mais ágil e superar nossos esforços. Em locais sem vacinação, pode haver desenvolvimento de variantes, porque esse é um vírus vivo, que sofre mutações. Algumas dessas dessas mutações se tornam mais transmissíveis e às vezes mais perigosas, com quadros mais severos.

Por isso que ninguém está seguro da Covid-19 até todos estarmos seguros. Precisamos parar o coronavírus globalmente, em todos os continentes, em todos os países, e ao mesmo tempo.

O deslocamento de pessoas pelo mundo é outro argumento nesse sentido? 

Sim, nós sabemos que os vírus viajam, então migrantes, viajantes e qualquer um que trafegue de um país a outro podem levar o vírus consigo, se não estiverem protegidos. É mais um argumento científico pra acharmos uma solução conjunta.

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O que você acha de doações bilaterais de vacinas, em que um país compartilha diretamente com o outro, sem a participação da OMS?

Eu acho que tanto isso como a Covax funcionam. O importante é ter vacinas nos braços das pessoas para conter a pandemia. A vantagem da Covax é que há uma alocação mais justa entre os membros que participam da iniciativa, que são 185 países e economias. Então, com ela, haveria um mecanismo coordenado para que as doses sejam distribuídas de maneira justa para vários países, em vez de tentar resolver o problema sozinho e compartilhar doses só para alguns países.

A suspensão das patentes é viável e eficaz para conter a pandemia no estágio atual?

É um assunto difícil, porque precisamos olhar no curto e no longo prazo. Por um lado, é verdade que os países produtores têm colocado dinheiro no desenvolvimento e na pesquisa das vacinas. Por outro, a patente é um jeito para companhias também investirem no mercado da vacina. Queremos proteger isso, porque as indústrias farmacêuticas são muito importantes no ecossistema de desenvolvimento e distribuição de vacinas. E não é que a suspensão das patentes aumentaria automaticamente o acesso. Há também uma questão de capacidade produtiva.

A OMS e os parceiros estão trabalhando mais no sentido de transferir conhecimento científico e expandir a produção a mais países do que os atuais. Eu acho que essa é uma solução melhor. Ou seja, trazer conhecimento para que mais locais possam produzir vacinas para lidarmos com a demanda.

O que motiva a hesitação vacinal [o receio de tomar uma vacina] especificamente na pandemia?

No começo, quando sabíamos pouco sobre o vírus, muita desinformação circulou. Isso é até normal: as pessoas têm medo e os rumores se espalham rapidamente, ainda mais nas redes sociais. Mas o que posso dizer é que as vacinas contra a Covid-19 são um avanço científico fantástico. Os dados de segurança e eficácia que temos no momento são reconfortantes, com os benefícios superando largamente qualquer risco mínimo. E já temos bilhões de doses administradas no mundo.

Até pela velocidade do desenvolvimento, é normal que as pessoas tenham questionamentos. Aí precisamos reforçar que nenhum dos passos necessários para estudos clínicos comprovarem a eficácia e a segurança de vacinas foi pulado. Os imunizantes só são destinados à população após uma revisão criteriosa de autoridades sanitárias. E conforme o número de vacinados aumenta, começamos a enxergar resultados muito promissores. No Reino Unido, por exemplo, a vacinação parece estar trazendo um impacto ótimo.

Devemos oferecer informações de fontes confiáveis para enfrentar a hesitação vacinal. A população deve tomar decisões sobre saúde baseadas em bons dados. Até por isso que as autoridades devem munir os profissionais de saúde com o conhecimento científico mais atualizado sobre essas vacinas. Quando uma pessoa tiver uma dúvida, ele poderá resolvê-la de maneira satisfatória.

O medo de tomar uma vacina pode afetar o controle da Covid-19 globalmente?

É muito cedo para dizer. No momento, a demanda por vacinas supera enormemente a oferta. Temos relatos esparsos sobre questionamentos e sobre indivíduos que se recusam a receber suas doses, mas ainda não sabemos se o número de pessoas com esse sentimento é grande o suficiente para afetar imunização global.

Mas eu acho que todo país deve entender as eventuais preocupações da sua população com as vacinas, e o que está por trás disso, para aí tentar mitigar a hesitação vacinal com medidas adaptadas ao contexto local.

Alguns países europeus suspenderam o uso da vacina da AstraZeneca, por causa de uma possível reação adversa bem rara que causa tromboses. Essa decisão pode gerar um medo global sobre esse imunizante especificamente?

Eu acho que pode ter um efeito negativo na hesitação vacinal, sim. As informações se espalham rapidamente, e nem sempre são devidamente contextualizadas. O que precisamos é nos certificar de que as pessoas tenham uma compreensão correta dos acontecimentos. A EMA [agência regula os medicamentos na Europa] já anunciou, por meio de seu comitê científico, que os benefícios dessa vacina superam em muitas vezes o pequeno e mínimo risco de possíveis efeitos colaterais.

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