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Sedentarismo na quarentena piorou a saúde de mulheres entre 50 e 70 anos

Segundo estudo, uma rotina de vida mais inativa afetou taxas como a de colesterol, além de comprometer a força muscular e a capacidade aeróbica

Por Karina Toledo, da Agência Fapesp* 19 Maio 2021, 10h03

Em estudo feito com 34 mulheres entre 50 e 70 anos, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) mediram de forma objetiva o impacto causado pela queda no nível de atividade física durante a quarentena imposta pela Covid-19. Testes feitos após as primeiras 16 semanas de confinamento apontaram piora no estado geral de saúde das voluntárias, incluindo perda de força muscular e condicionamento aeróbico, bem como aumento dos níveis sanguíneos de colesterol e hemoglobina glicada (que acusa o diabetes).

“Importante ressaltar que essas mulheres já eram consideradas fisicamente inativas antes do início da pandemia. Mas com o confinamento elas passaram a se movimentar ainda menos, porque deixaram de fazer práticas como passear com o cachorro, brincar com os netos, caminhar até o ponto de ônibus”, enumera Carlos Bueno Junior, professor da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP-USP) e um dos autores do artigo. Os resultados completos da pesquisa, apoiada pela FAPESP, foram divulgados na revista Experimental Gerontology.

Idealizado antes da pandemia, o estudo tinha como objetivo original avaliar o efeito de diferentes programas de treinamento físico em voluntários com perfil variado. Uma primeira bateria de exames foi feita com mulheres entre 50 e 70 anos em fevereiro de 2020, antes de iniciar qualquer intervenção.

Foram avaliados parâmetros como índice de massa corporal (IMC), percentual de gordura, circunferência abdominal, pressão arterial e perfil alimentar. Para avaliar a capacidade cardiorrespiratória, as voluntárias foram submetidas a um teste de caminhada com duração de seis minutos. Por último, foram coletadas amostras de sangue por meio das quais os pesquisadores analisaram os níveis de colesterol, as taxas de glicemia, insulina e hemoglobina glicada (exame capaz de indicar o risco de diabetes do tipo 2).

“A ideia era reavaliar as participantes após o término do protocolo de exercícios, mas, com a pandemia, o planejamento inicial tornou-se inviável. Decidimos então adaptar o projeto para avaliar os efeitos das mudanças sociais causadas pela Covid-19 nos parâmetros de saúde da população, principalmente no contexto do envelhecimento. Já tínhamos as medidas iniciais e refizemos os testes após as primeiras 16 semanas de confinamento”, conta Bueno Junior à Agência FAPESP.

A pesquisa contou com a participação dos estudantes de mestrado João Ribeiro de Lima e Gabriela Abud.

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O que o sedentarismo causou

A segunda bateria de exames não revelou alteração em parâmetros como percentual de gordura corporal e circunferência abdominal. Mas registrou-se, em média, um crescimento de 39,8% na taxa de insulina e 9,7% na de hemoglobina glicada. O nível de colesterol total aumentou 8%.

O teste de preensão manual indicou uma redução de 5,6% da força muscular. Já o teste de caminhada indicou perda de 4,4% da capacidade aeróbica.

“O estudo mostra que, no contexto da pandemia, algo que já estava ruim ficou ainda pior. Aumentou o risco de desenvolver doenças crônicas e, para aquelas que já tinham problemas cardiovasculares ou metabólicos, houve um agravamento do quadro”, comenta Lima.

Segundo Abud, foi possível concluir que não houve piora no padrão alimentar desse grupo após o início do confinamento. Os prejuízos à saúde observados na pesquisa, portanto, devem ser atribuídos principalmente à queda na movimentação corporal.

“Algumas relataram se sentir mais estressada. Isso também pode ter contribuído para a piora no estado geral de saúde”, afirma Abud.

Na avaliação dos pesquisadores, os resultados são um alerta para os governantes e para a sociedade em geral. “Com apenas 16 semanas, já foi possível notar mudanças significativas em parâmetros avaliados e, com o prolongamento da crise sanitária, as implicações para a saúde tendem a se tornar cada vez maiores. É preciso pensar em maneiras de promover a atividade física com segurança durante esse período”, defende Lima.

*Este conteúdo é da Agência Fapesp

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