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Academia para bebês

Novos espaços surgem com a proposta de oferecer estímulos às crianças a partir dos 2 meses de idade. Mas será que eles são realmente essenciais?

Por Bruna Menegueço 4 set 2020, 11h52

Na agenda das gêmeas Gabriela e Marina, de 10 meses, está anotado o compromisso das terças e quintas: academia. Durante 50 minutos, elas engatinham, escorregam, rolam, escalam, atravessam túneis e se equilibram em plataformas. Tudo isso em um grande ginásio colorido e acolchoado, com direito a música animada, brinquedos desconstruídos e acompanhamento de profissionais como psicomotricistas e pedagogos. No fim da aula, há ainda uma experiência sensorial. Nessa etapa, as crianças têm contato com alimentos, a exemplo de farinha e gelatina, ou objetos com diversas texturas.

“Quando acaba e elas entram no carro, pegam no sono em menos de cinco minutos”, conta a bancária Joana Montez, 37 anos, mãe das meninas. Apesar de morar em um condomínio com parquinho e brinquedoteca, Joana sentiu a necessidade de instigar as filhas de outras maneiras. “No prédio, elas se acostumaram com os brinquedos e, por mais que eu estimule, não se animam muito. Já na academia as duas ficam mais atentas e ainda podem socializar com outros bebês”, acredita.

Diante da demanda de pais e mães por atividades diferentes para os filhos, muitos espaços destinados a esse fim estão surgindo pelo país. A Baby Gym, criada pelo gaúcho Lucas Silva e pela venezuelana Laura Bego, ambos de 38 anos, tem mais de 20 unidades espalhadas pelo país. A primeira surgiu em 2014, quando eles se mudaram para o Brasil com o filho Mathias, de apenas 7 meses. Enquanto aguardavam uma vaga na escola, eles queriam que o menino frequentasse um lugar onde pudesse brincar e se desenvolver, mas não encontraram. “Já conhecíamos um modelo de negócio similar nos Estados Unidos e vimos uma oportunidade no nosso mercado”, conta Silva.

As grandes redes de academia, como a Competition, também passaram a incluir os menorzinhos na programação. “Além da natação, que é o carro-chefe da modalidade para bebês há seis anos, temos atividades que estimulam as interações e o desenvolvimento sensorial e motor da criança, como aulas de baby soccer, vivência motora e música”, relata Flávia Brunoro, diretora operacional da Competition.

Há quase um ano, a Bodytech inaugurou uma unidade só para bebês e crianças, no Rio de Janeiro. Por lá, os pequenos podem experimentar até 12 atividades, entre elas o CrossKids e o Ninja Parkour — uma gameficação do parkour, atividade de origem francesa em que a criança precisa transpor obstáculos. Para os bebês, há psicomotricidade e musicalização.

A cientista norueguesa Audrey van der Meer, professora da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, comemora a abertura de cada novo espaço focado nos bebês. Há 30 anos ela estuda a inteligência e o desenvolvimento dos pequenos. Inclusive, uma de suas pesquisas embasa o primeiro capítulo da série Babies, que estreou no serviço de streaming Netflix.

Para cada idade, uma atividade

  • De 2 a 9 meses: foco no afeto entre o bebê e os cuidadores. Na programação tem música, dança, brincadeiras e atividades sensoriais.
  • De 10 a 18 meses: na arena acolchoada, há escorregadores, rampas e túneis. O bebê mexe com tintas, alimentos e bexigas cheias de água.
  • De 1 ano e meia a 3 anos: há circuitos para chutar bola, jogos de memória e exercícios que estimulam a coordenação motora.
  • De 3 a 4 anos: fica mais desafiador, com treinos de equilíbrio, flexibilidade e força. As aulas sensoriais continuam.

Puro desenvolvimento

“Durante o primeiro ano de vida, aprendemos mais do que em qualquer outro período. No cérebro, até 10 mil conexões entre células nervosas são formadas a cada segundo durante os primeiros três anos”, revela Audrey. A cientista observa que, inicialmente, as redes neurais do bebê são como caminhos fracos e sinuosos na floresta.

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Mas, com estímulo e prática, eles se transformam em estradas capazes de transportar informações e conhecimentos de maneira rápida e eficiente. “Só que, enquanto os bebês estão apenas deitados olhando para o teto, eles não precisam de redes neurais avançadas para informá-los sobre distância, velocidade, direção e diferentes formas de movimento de si e de objetos”, argumenta Audrey.

O neuropediatra Saul Cypel, presidente do Departamento de Neurologia da Sociedade de Pediatra de São Paulo, tem um olhar cauteloso sobre as academias. “A proposta desses lugares é interessante, mas a frequência deve ser avaliada com parcimônia. Bebês precisam de estímulos muito simples e também de vínculos com seus cuidadores. Não há necessidade de brinquedos sofisticados, atividades elaboradas ou de muita estrutura”, defende. Para ele, o essencial é que as crianças se sintam acolhidas e que seu ritmo seja respeitado.

“Por maiores que sejam as expectativas dos pais, o desenvolvimento também é biológico e depende de um processo chamado mielinização do córtex cerebral, que nada mais é do que a cobertura das células nervosas por uma substância gordurosa chamada mielina”, ensina o neuropediatra. “É ela que vai permitir que os impulsos nervosos sejam transmitidos do cérebro para o corpo. Se essas estruturas não estiverem aptas, o desenvolvimento não acontece”, esclarece Cypel, que também é professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Aos pais, fica a dica de equilibrar a dose de estímulo e de ócio para que os filhos possam assimilar o aprendizado e ativar a imaginação. “No fim, tudo é desenvolvimento, porque a criança está em pleno crescimento”, resume a neuropediatra Liubiana Arantes de Araújo, presidente do Departamento de Pediatria do Neurodesenvolvimento da Sociedade Brasileira de Pediatria. Para ela, estimular o bebê dentro ou fora de casa reflete em vários benefícios. “As crianças se desenvolvem mais rapidamente de forma global, o que inclui aspectos como linguagem, cognição, sociabilidade, habilidade motora, força, equilíbrio e flexibilidade”, lista.

  • Todo espaço conta

    Por isso, quem está atrás de berçários para os filhos deve buscar mais do que limpeza e ótimo acolhimento. É preciso avaliar as atividades oferecidas. “Trata-se do lugar onde a criança passará o dia todo. Não é apenas um espaço de espera, e sim de desenvolvimento”, reforça a neuropediatra Marcília Martyn, do Fleury Medicina e Saúde. Ela lembra que o mesmo vale para as crianças que ficam com cuidadores ou parentes. “É importante que eles sejam treinados para estimular os bebês”, frisa.

    Não falamos de nada complicado. Deixar a criança de barriga para baixo por alguns minutos após a troca de fraldas, cantar, ler histórias, oferecer o alimento em sua mão e permitir que interaja com outros objetos já é muito divertido e enriquecedor.

    No fim das contas, os pais sempre querem proporcionar o melhor aos filhos. Então, basta ter em mente que todas as crianças gostam de brincar e que se desenvolvem dentro do seu tempo. O melhor é unir as duas forças, promovendo atividades e momentos de muito carinho.

    Vale trocar olhares durante a amamentação, deslizar um floco de algodão pelo rosto do bebê, cantar uma música ou ler histórias, rabiscar com tinta, passear com o carrinho por um jardim ou colocar a banheira na varanda para um banho sem pressa. E, se pintar a oportunidade de frequentar as academias para ter ainda mais estímulos e socialização, não há por que negar esse extra.

    Foto: Getty Images/ Ilustrações: Eduardo Pignata/SAÚDE é Vital
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