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A eficácia e segurança das vacinas contra Covid-19 em crianças e gestantes

As mulheres grávidas e o público infantil já começam a participar de estudos com vacinas para o coronavírus. E os primeiros resultados são animadores

Por Ingrid Luisa 30 mar 2021, 16h13

Os estudos com as vacinas contra a Covid-19 começaram se concentrando nos adultos em geral (e em idosos), até por uma questão de segurança. Mas agora os cientistas já estão de olho em outras populações, e começam a aparecer resultados de pesquisas preliminares sobre a aplicação do imunizante do coronavírus em gestantes e crianças.

Eles são seguros nesses grupos? O que os números já dizem? Trazemos o que a ciência sabe até o momento.

O caso das crianças

Uma vacina que funciona nos adultos não obrigatoriamente terá o mesmo resultado nos pequenos, porque o sistema de defesa deles não está maduro. “As doses e o intervalo entre elas são definidos com base na capacidade de resposta do sistema imunológico em cada faixa etária”, explica a pediatra Natália Guerra, de São Paulo.

Dito isso, os dados disponíveis até o momento são positivos. No dia 22 de março, o diretor médico da Sinovac, Geng Zeng, afirmou em coletiva de imprensa que a Coronavac é segura e eficaz para a faixa etária de 3 a 17 anos.

A afirmação veio após testes clínicos conduzidos com mais de 550 participantes, que receberam doses médias ou baixas da vacina. Ainda segundo Zeng, os níveis de anticorpos desencadeados pelas injeções foram maiores nas crianças do que em adultos e idosos. O estudo, no entanto, ainda não foi publicado em um periódico científico, o que impede a avaliação dos dados por outros pesquisadores.

As pesquisas com outras vacinas também seguem a todo vapor: a fórmula da AstraZeneca e da Universidade de Oxford está sendo aplicada em participantes de 6 a 17 anos. A Pfizer, que tem sua vacina autorizada para uso a partir dos 16 anos, vem avaliando a eficácia entre os 12 e 15 anos — e prevê em breve o início de testes na faixa dos 5 a 11 anos.

O imunizante da Moderna já vem sendo estudado em jovens dos 12 aos 18 anos desde o ano passado. Recentemente, a empresa foi a primeira a anunciar testes em crianças a partir dos 6 meses de idade.

a vacina da Janssen (braço farmacêutico da Johnson & Johnson) pediu autorização para realizar pesquisas clínicas em crianças brasileiras. Cerca de 600 participantes nessa faixa etária vêm sendo estudados na Espanha e no Reino Unido — e os Estados Unidos acabam dar sinal verde para experimentos similares por lá.

Para além dos estudos, Isarel apresenta dados práticos encorajadores: cerca de 600 crianças de 12 a 16 anos receberam a vacina da Pfizer por lá, e não apresentaram nenhum efeito colateral. Isso aconteceu porque esse país já está em um estágio avançado na campanha de vacinação, e o governo recomendou que crianças com certos fatores de risco para complicações da Covid-19 tomassem as doses.

  • Cabe lembrar que a infância parece ser menos atingida pela pandemia. E, segundo o Braian Sousa, pediatra da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) que publicou um estudo sobre o assunto, os dados brasileiros apontam uma menor mortalidade em 2021 do que em 2020 nessa faixa etária.

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    “A maioria dos trabalhos mostra que a população pediátrica não é uma das principais disseminadoras, apresentando um risco menor de contrair e de transmitir a doença. Mas o tema é controverso e o comportamento da pandemia, principalmente com as novas variantes, pode mudar. É fundamental manter uma vigilância em todas as faixas etárias”, explica Sousa.

    Uma questão a considerar é a possível interação entre a vacina do coronavírus e as outras previstas na infância. Há casos específicos em que imunizantes não devem ser aplicados em uma mesma sessão, porque confundiriam o sistema imunológico, gerando uma redução na eficácia das injeções. Por exemplo: a vacina da febre amarela via de regra não é aplicada em conjunto com a tríplice viral (contra sarampo, caxumba e rubéola).

    Verdade que essa interação negativa ocorre com vacinas produzidas a partir de vírus vivos atenuados — e nenhuma das formulações mais famosas contra a Covid-19 usadas (Coronavac, Moderna, Pfizer, Oxford e Sputinik V) segue essa lógica. “Mas, como o conhecimento sobre a resposta vacinal na infância está em construção, provavelmente será solicitado um intervalo de pelo menos 15 dias entre a aplicação da vacina contra Covid-19 e a de outros imunizantes”, comenta Natália.

    Esse intervalo, aliás, já vem sendo recomendado aos grupos prioritários que estão recebendo a vacina contra o coronavírus. Vale lembrar que, a partir de 12 de abril, começa a campanha nacional de vacinação contra a gripe, que é especialmente importante durante a pandemia.

    E as gestantes?

    A maior restrição para as grávidas envolve, de novo, as vacinas com vírus vivos atenuado. Isso porque há um risco teórico de que, mesmo enfraquecido, o agente infeccioso presente no imunizante consiga afetar o bebê.

    “Isso pode levar a malformações fetais e algumas outras complicações. É um risco teórico, mas ainda não se indica imunizantes desse tipo às gestantes por uma questão de segurança”, afirma a ginecologista e obstetra Ana Maria Holanda, professora da Universidade Federal do Piauí (UFPI). “Felizmente, as vacinas contra a Covid-19 não têm essa composição”, tranquiliza.

    Mesmo sem grandes ensaios clínicos com essa população, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (Figo) recomendam a vacinação desse grupo. “A Figo considera que não há riscos, reais ou teóricos, que superem os potenciais benefícios da imunização para mulheres grávidas”, afirma o órgão em comunicado oficial. Nos Estados Unidos, cerca de 20 mil grávidas que são profissionais da saúde foram vacinadas, e não apresentaram complicações.

    Pra melhorar, resultados preliminares de pesquisas com gestantes começam a aparecer: uma feita em Israel concluiu que as vacinas da Pfizer e da Moderna, além de eficazes nas mães, resultaram na presença de anticorpos contra o coronavírus no leite materno. Outra, essa conduzida nos Estados Unidos com cerca de 130 voluntárias, reforçou esses achados e ainda encontrou anticorpos no sangue do cordão umbilical. São sinais de que a vacinação da gestante pode manter o bebê protegido quando ele nascer.

    Segundo Ana Maria Holanda, as evidências ainda estão se acumulando, porém, em uma situação de emergência como a atual, permitem presumir que os imunizantes contra o coronavírus são seguros para grávidas.

    Além disso, há indícios de que as gestantes correm um risco maior de complicações devido à Covid-19. “E o Brasil de hoje é um local de alto risco para pegar a doença. Por isso, é importante considerar a vacinação em gestantes”, acrescenta Ana Maria, que também é mestre em cuidados intensivos pelo Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP), em Pernambuco.

    O Brasil não possui uma recomendação oficial sobre o assunto. O posicionamento atual das sociedades médicas é o de que especialista e gestante tomem uma decisão compartilhada, avaliando cada caso individualmente.

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