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Saúde é pop

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Tá na internet, tá na TV, tá nos livros... tá no nosso dia a dia. O jornalista André Bernardo mostra como fenômenos culturais e sociais mexem com a saúde — e vice-versa.
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Caso Vini Jr: os males que o racismo também faz à saúde

Ataque sofrido pelo jogador brasileiro expõe problema estrutural que produz cicatrizes físicas, psíquicas e sociais na população negra

Por André Bernardo
Atualizado em 6 jul 2023, 16h48 - Publicado em 20 jun 2023, 09h20

Já se passaram 29 dias desde que o juiz apitou o final do jogo entre Valencia e Real Madrid pela 35ª rodada do campeonato espanhol, mas o minuto 24 do segundo tempo da partida ainda não saiu da cabeça do jogador Vinícius José Paixão de Oliveira Júnior, o Vini Jr, de 22 anos.

Parte da torcida do Valencia xingou, em coro, o atacante do Real Madrid de “macaco” e o árbitro interrompeu a partida. Vini Jr. não se calou. Apontou os criminosos na arquibancada, mas nenhum deles foi expulso.

Reiniciado o jogo depois de oito minutos de paralisação, o único a receber cartão vermelho foi o próprio Vini Jr., por acertar um tapa no rosto de um jogador do Valencia depois de sofrer uma agressão. Dias depois, em decisão inédita, o cartão vermelho foi anulado.

Doutora em Saúde Pública pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Jeane Tavares afirma que o racismo produz desde microagressões, como piadas, xingamentos e humilhações, até macroviolências, como maiores taxas de desemprego, carga de trabalho extenuante e segregação em territórios hostis.

“A ascensão social não nos protege de violências raciais”, alerta a psicóloga. “Pode, inclusive, expor ainda mais a pessoa negra às agressões”.

“Por responder aos ataques e não aceitar o silenciamento imposto pelo medo de novas e mais violentas agressões”, prossegue a docente da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), “pessoas negras insubmissas como Vini Jr tornam-se alvos preferenciais de perseguição racista”.

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+ LEIA TAMBÉM: Como Vini Jr virou a grande voz contra o racismo

“Não é futebol, é desumano”

Não foi a primeira vez que o atacante do Real Madrid e da Seleção Brasileira foi alvo de ataques racistas na Espanha. Entre outubro de 2021 e março de 2023, Vini Jr foi vítima de ofensas em dez jogos do campeonato espanhol.

Às vezes, foi xingado de “mono” (“macaco” em espanhol). Outras, torcedores rivais imitaram sons e gestos típicos do animal. Outras, ainda, chegaram a desejar sua morte.

Em janeiro, torcedores do Atlético de Madrid penduraram pelo pescoço um boneco vestindo a camisa 20 do Real em um viaduto de Madri. A polícia espanhola prendeu sete acusados: quatro por “enforcar” o boneco e três por xingar o atleta. Os quatro primeiros continuam atrás das grades, mas os três restantes foram soltos depois de prestar depoimento.

Racismo é crime. Não punir é ser cúmplice”, afirmou Vini Jr em vídeo postado no Instagram, rede social onde tem 38,4 milhões de seguidores. “O problema é gravíssimo, e comunicados não funcionam mais. Não é futebol, é desumano”.

“A Espanha ainda está bem aquém daquilo que já alcançamos. Mas distante ainda do que temos que conquistar”, avalia a psicóloga Marizete Gouveia Damasceno, doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica e Cultura da Universidade de Brasília (UnB).

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“O combate ao racismo pode surtir melhores resultados quando se põe em prática uma combinação de medidas. O primeiro passo já demos: reconhecer nossa sociedade como racista. Sem o reconhecimento da existência de um problema, não há como tomar medidas para solucionar esse problema. Outra medida é o letramento étnico-racial tanto da população branca quanto da não branca. A ignorância grassa em todos os níveis de educação no país”, diz a pesquisadora.

+ LEIA TAMBÉM: Como o preconceito abala a saúde física e emocional

Racistas não passarão

O episódio de racismo coletivo em um estádio da Espanha repercutiu mundialmente. Dentro e fora do futebol. O heptacampeão mundial de Fórmula 1, Lewis Hamilton, prestou solidariedade ao jogador brasileiro. “Estou do seu lado”, tuitou o piloto inglês.

No Brasil, o governo federal emitiu uma nota conjunta de cinco ministérios – Igualdade Racial, Direitos Humanos, Justiça, Esportes e Relações Exteriores – cobrando providências das autoridades espanholas.

No estado onde Vini Jr. nasceu, o Rio de Janeiro, o monumento do Cristo Redentor ficou totalmente às escuras por alguns minutos em repúdio aos ataques racistas. “A discriminação é sintoma de uma sociente doente”, declarou o arcebispo da cidade, o cardeal Dom Orani João Tempesta.

Na ONU, o novo chefe de Direitos Humanos, Volker Turk, condenou os ataques e pediu às entidades responsáveis pela organização de eventos esportivos mais estratégias para prevenir e combater episódios de racismo.

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“Contem comigo porque os bons são maioria e não vou desistir. Tenho um propósito na vida e, se eu tiver que sofrer mais e mais para que futuras gerações não passem por situações parecidas, estou pronto e preparado”, escreveu numa rede social.

“Os impactos do racismo na saúde da população negra no Brasil são nefastos e constituem um grave problema de saúde pública”, afirma a socióloga Diana Anunciação Santos, doutora em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). “A população negra é a que apresenta as mais altas taxas de doenças crônicas, como diabetes, hipertensão e obesidade”.

+ Leia também: Saúde não tem cor: campanha alerta para impacto do racismo na assistência

Os danos vão muito além da saúde física. Impactam, também, a saúde mental, com episódios de estresse, ansiedade e depressão; a cognitiva, com déficits de memória, aprendizado e raciocínio; e até a espiritual, como perda de fé, falta de esperança e sensação de desânimo, entre outros males.

Os números impressionam. A chance de um negro ser assassinado hoje no Brasil é 2,6 vezes maior que a de um não negro. E mais: a cada dez jovens que tiram a própria vida, seis são negros. Os dados são do Atlas da Violência e do Ministério da Saúde.

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Quanto ao fato de Vini Jr ter sido chamado de “macaco”, Diana alerta para o perigo da “desumanização”. “O racismo produz a negação do outro. Sua humanidade é bestializada. De cidadão, é reduzido à condição de animal”.

“Com racismo não tem jogo”

Semana passada, na concentração da seleção brasileira em Barcelona, o jogador Vini Jr. foi convidado pelo presidente da Fifa, Gianni Infantino, a integrar uma comissão antirracista. A ideia é sugerir punições mais severas para casos de discriminação racial no futebol.

Fora das quatro linhas, leis para combater o racismo, lembra Jeane Tavares, não faltam: 7.716/89 (Lei de Crime Racial), 12.288/10 (Estatuto da Igualdade Racial), 10.639/03 (Ensino da História e da Cultura Afro-Brasileira), Política Nacional de Saúde Integral da População Negra e 14.532/23 (Injúria Racial como Crime de Racismo).

“O antirracismo implica em um novo pacto civilizatório no Brasil. É benéfico a todos, mas pressupõe redistribuição de poder e sociedade igualitária. Isso não se dará sem conflitos”, afirma a psicóloga.

Sábado passado, o Brasil entrou em campo para um amistoso contra a seleção da Guiné. Em protesto contra o racismo, os jogadores da seleção brasileira jogaram o primeiro tempo de preto e o segundo de amarelo. Antes de a bola rolar, o estádio fez um minuto de silêncio.

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O Brasil goleou a Guiné por 4 a 1: gols de Joelinton, Rodrygo, Éder Militão e Vini Jr., de pênalti. E volta a campo para enfrentar o Senegal em outro amistoso.

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