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O Fim das Dietas

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Antonio Lancha Jr, professor expert em atividade física e nutrição da USP e autor de livros como "O Fim das Dietas", ensina como emagrecer sem cair em promessas furadas
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Alimento vicia mesmo?

Nosso colunista questiona a ideia de que essa ou aquela comida causa dependência. E explica por que esse pensamento pode sabotar o emagrecimento

Por Antonio Lancha Jr.
2 mar 2021, 12h03

É socialmente aceita a expressão: “sou viciado em açúcar”. Mas vamos lá, alimento vicia?

Pense comigo: você conhece alguém que já sentiu sudorese ou tremores por falta de uma comida ou bebida (não alcoólica) específica, por exemplo? Porque esse tipo de reação que representaria uma possível crise de abstinência decorrente de um vício.

Eu particularmente adoro pizza. Se eu quisesse, poderia falar “sou viciado em pizza”. Mas eu prefiro não recorrer a essa expressão, porque ela pode gerar confusão. E já gerou, aliás. Hoje em dia, as pessoas acham que podem ficar viciadas em brigadeiro, ou em qualquer outro alimento ou nutriente.

Só que a definição de vício possui critérios técnicos para ser bem empregada na saúde. E os sinais e sintomas observados após a ingestão de alimentos não corresponde à definição de dependência que ocorre com drogas, álcool e jogos, por exemplo. É possível constatar isso pelo DSM-5*, um manual americano que determina os diagnósticos de transtornos mentais.

A dependência provocada por um vício de fato altera mecanismos neurológicos de captação de neurotransmissores. Essa interferência altera, por vezes, a racionalidade e o julgamento nas tomadas de decisão. Com frequência, chegam informações de dependentes químicos realizando atos pouco racionais, como furtos e até ações mais graves, pela falta da substância. Eles não raro colocam a própria vida em risco para suprir sua carência. Isso é conhecido como abstinência.

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O alimento realmente traz conforto e prazer. Daí porque as pessoas comumente recorrem à comida em momentos de tristeza, ansiedade etc. Isso até pode ser confundido com um vício, mas não é. Um alimento não compromete a racionalidade e o julgamento.

Neurologicamente, o prazer ao ingerir um alimento se assemelha ao de ouvir uma boa música, ver um bom filme ou assistir a uma boa peça de teatro. E não é por isso que a gente empregaria, de maneira pejorativa, a expressão “sou viciado em rock”, por exemplo.

Atenção: precisamos ter clareza na diferenciação de vício por alimento, que não existe, dos comportamentos compulsivos verificados nos transtornos alimentares, que existem. Esse é um tópico interessante, e que vou deixar para uma próxima conversa aqui.

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Mas o fato é que não há base científica para classificar um alimento como viciante. Ele pode trazer conforto e prazer, porém, na sua ausência, nós não perdemos a racionalidade nem arriscamos a vida para obtê-lo.

Pensar numa comida como viciante é o primeiro passo para encará-la como uma vilã. E isso vai contribuir para uma relação pouco saudável com a alimentação, o que favorece o ganho de peso.

Meu conselho é: na próxima vez que você for se referir a algum alimento que adora, lembre-se: adjetive-o pelas próprias características (doce, cheiroso etc), e não como uma dependência. Ele é apenas uma forma manifesta de prazer pelo aroma, sabor e sensação de bem-estar.

*MANUAL DIAGNÓSTICO E ESTATÍSTICO DE TRANSTORNOS MENTAIS 5ª EDIÇÃO

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