Estudo questiona paradigma no tratamento do TDAH
Será que medicamentos estimulantes realmente devem ser a primeira escolha para o tratamento do transtorno?
Um estudo publicado no periódico Nature Mental Health em janeiro deste ano questiona um paradigma adotado há décadas, segundo o qual os medicamentos estimulantes são considerados, invariavelmente, a primeira escolha para o tratamento do transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).
O artigo foi escrito por dois grandes pesquisadores em TDAH, mundialmente conhecidos: Steven Faraone e Jeffrey Newcorn. E pode ser considerado breaking news para os profissionais que se dedicam ao tratamento do transtorno.
Os autores utilizaram dados de meta-análises e de estudos randomizados publicados anteriormente – inclusive os publicados por eles mesmos. Eles observaram que a eficácia dos estimulantes é apenas ligeiramente superior à dos não-estimulantes e, mesmo assim, essa superioridade não pode ser generalizada a todos os casos, sendo apenas uma média.
Até então, os estimulantes eram considerados muito superiores aos não-estimulantes e, por isso, sempre eram escolhidos pelos médicos para o tratamento de crianças, adolescentes e adultos.
Os achados também indicam que a tolerabilidade é semelhante, ou seja, a frequência de eventos adversos que podem exigir interromper o tratamento é similar.
Além disso, as chances de um paciente responder a um ou outro são quase 50%, ou seja, praticamente um “cara ou coroa”, ao contrário do que se imaginava e se ensinava nas escolas de medicina. Os autores concluem que os não-estimulantes também podem ser a primeira escolha no tratamento do TDAH.
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Atomoxetina amplia as opções terapêuticas
No Brasil, o único representante da classe dos não-estimulantes é a atomoxetina, comercializada desde o final de 2023. Ela já era habitualmente usada há mais de uma década nos Estados Unidos e Canadá, além de diversos países europeus.
Além de o novo estudo revelar equivalência aos estimulantes, até então a primeira escolha segundo todos os algoritmos de tratamento, ela tem a vantagem de não apresentar potencial de abuso, desvio ou uso não médico — o maior problema de saúde pública em todo o mundo com os estimulantes. E diversos estudos mostram que o abuso de estimulantes aumenta o risco de abuso posterior de drogas ilícitas (como a cocaína).
A atomoxetina também pode ser a opção preferencial em pacientes com certas comorbidades psiquiátricas (transtornos que podem coocorrer com o TDAH), como tiques motores, transtorno de Tourette e TEA. Alguns estudos sugerem que ela possa ser mais indicada quando há alterações do sono ou irritabilidade, algo relativamente comum em crianças e adolescentes com TDAH.
Por Paulo Mattos, psiquiatra e pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa







