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Só agora?! Cientistas encontram um novo órgão do corpo humano

Descoberta do interstício pode revolucionar a forma como encaramos o funcionamento de diferentes partes do organismo na saúde e na doença

Você, sua mãe, o Donald Trump e qualquer outro ser humano que habita este planeta é um aquário ambulante: 60% do nosso organismo é feito  de água. Claro que esse líquido todo não está reservado num único lugar, mas se espalha por diversos compartimentos e espaços. E um dos principais reservatórios de H2O, o interstício, sempre foi tratado como algo de menor importância pela ciência. Mas um novo estudo mostra que ele é mais relevante do que se imaginava e pode ser considerado como mais um órgão do corpo humano.

Essa história começou em 2015, quando os médicos americanos David Carr-Locke e Petros Benias faziam um exame de imagem para visualizar os ductos biliares de um paciente que estava com câncer. Esses tubos são responsáveis por transportar a bile, uma substância que ajuda na digestão, da vesícula biliar para o intestino delgado. Durante o procedimento, eles notaram a existência de uma estrutura desconhecida por ali.

Para matar a curiosidade, a dupla entrou em contato com o patologista Neil Theise, da Universidade de Nova York, também nos Estados Unidos. O especialista resolveu realizar outros testes e, estranhamente, aquelas novas partes do corpo tinham simplesmente desaparecido no novo exame do professor.

Eureka!

Foi nesse exato momento que aconteceu o pulo do gato: a diferença entre a primeira e a segunda análise estava no método usado. Carr-Locke e Benias se valeram de uma técnica avançada de nome rebuscado: laser confocal endomicroscópico.

Enquanto isso, Theise tinha utilizado o processo de estudo anatômico tradicional, que envolve fixar uma lâmina do tecido e desidratá-lo. Porém, ao retirar toda a água daquela amostra, a nova (e misteriosa) estrutura colapsava e deixa de existir.

O trio de experts decidiu, então, iniciar uma nova pesquisa empregando o tal do laser confocal endomicroscópico para examinar os ductos biliares de 12 indivíduos que precisavam passar por uma cirurgia. O trabalho concluiu que a parte desconhecida era mesmo o espaço intersticial (ou interstício para os íntimos), local onde são armazenados vários fluidos que servem de ingredientes para a produção da linfa, uma substância essencial para o organismo lutar contra as infecções.

Alteração de status

O interstício já era conhecido, mas até então sua classificação ficava como um simples tecido conjuntivo que colava diferentes partes do corpo humano, como os pulmões, as camadas da pele e os intestinos. O que a nova pesquisa propõe é classificá-lo como um órgão humano de verdade. Aliás, ele seria o maior de todos, representando 20% de nosso volume total. A pele, que possui essa primazia há décadas, responde por “apenas” 16% de nós mesmos.

Mais que seu próprio tamanho, chama a atenção o papel do interstício no agravamento de algumas doenças, como o câncer. De acordo com o artigo, publicado na terça-feira (27) no jornal científico Scientific Reports, quando as células cancerosas que atingem determinada parte do organismo alcançam essa “nova” estrutura, elas se espalham para as vias linfáticas e viram uma metástase. Há suspeitas também de sua influência no aparecimento de problemas inflamatórios.

“Nossa descoberta tem o potencial de levar a avanços dramáticos na medicina, incluindo a possibilidade de usar o interstício como uma poderosa ferramenta para diagnosticar doenças”, declarou Neil Theise, por meio de sua assessoria de imprensa.

O amanhã do interstício

O novíssimo órgão é sustentado por duas proteínas: o colágeno e a elastina, que servem de arcabouço para o estoque dos fluidos. Ele está logo abaixo da epiderme, a primeira camada da pele, além de circundar os pulmões, os intestinos delgado e grosso, todo o sistema urinário, os vasos sanguíneos e entremear os músculos.

Claro que a ideia de classificar o interstício como um órgão é muito recente (e, convenhamos, audaciosa). Antes de ser publicada nos livros de biologia, ela precisa ser aceita por boa parte da comunidade científica.

Para isso, as pesquisas iniciais serão replicadas em outras universidades para checar os resultados. Só o tempo dirá se as crianças do futuro irão aprender mais sobre o interstício em suas aulas de biologia ou se a descoberta da semana não passará de mais um fato irrelevante relegado à história.

Mas o detalhe mais impressionante dessa epopeia toda é notar que, apesar de tantos avanços incríveis que pintam a cada dia, ainda há muita coisa a ser descoberta dentro de nosso próprio corpo. Eis uma fonte inesgotável de surpresas e boas histórias. O que será que corre por nossas artérias, ossos e músculos que ainda passa despercebida diante de todos os olhares atentos da ciência?

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