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Túnel do Tempo Por Blog O repórter André Biernath desenterra o passado e vislumbra o futuro da arte (e da ciência) da Medicina

Como está o combate ao coronavírus na América Latina?

Na segunda parte desta reportagem, fui atrás dos especialistas que estão combatendo a Covid-19 nos países que ainda não tinham enviado respostas

Por André Biernath 30 Maio 2020, 10h52

No dia 7 de maio de 2020, publiquei aqui neste blog o texto “A Covid-19 na América Latina pelos olhos de quem está na linha de frente”. A proposta era simples: entrar em contato com cientistas, profissionais de saúde e divulgadores científicos de toda a região para saber quais ações contra o coronavírus cada país estava tomando. 

Na primeira rodada, recebi respostas de Equador, Panamá, Costa Rica, Chile, México, Colômbia e El Salvador. De bate pronto, confesso a você que fiquei incomodado em ver que muitos dos nossos vizinhos tinham colocado em prática medidas mais enérgicas e efetivas que nós, brasileiros. Isso se traduziu em menores números de casos e de mortalidade nesses locais específicos.

Mas essa não foi a única pulga atrás da orelha que apareceu após a publicação daquele texto: queria completar meu “álbum de figurinhas” e ter um retrato completo da região, nem que fosse com todos os países da América do Sul. Para me aquietar, insisti com alguns especialistas e fui atrás de novas fontes das nações nas quais eu não tivera retorno. 

Depois de vários e-mails e mensagens de WhatsApp, finalmente concluí a apuração com os países sul americanos que restavam: experts de Peru, Paraguai, Bolívia, Argentina, Uruguai e Venezuela me enviaram as respostas. Ufa! Não posso deixar de agradecer aos meus colegas jornalistas da América Latina, que me indicaram e compartilharam seus contatos para que essas trocas de informações fossem possíveis.

Chegou a hora de conhecer, então, como está a situação da Covid-19 nos seis países que restavam:

Peru

Nosso interlocutor foi o médico e epidemiologista César Cárcamo Cavagnaro, professor da Universidade Peruana Cayetano Heredia, em Lima

“Possivelmente estamos no pior da pandemia. Vários hospitais colapsaram, mas temos a esperança que as coisas não se agravem muito mais. Para isso, precisamos eliminar os espaços reduzidos em que os peruanos costumam se concentrar, como mercados e veículos de transporte público. Isso pode melhorar os índices em curto prazo. O governo deve regular e controlar essas questões para que o povo evite esses locais. 

O segundo ponto é continuar com o fortalecimento dos estabelecimentos de saúde e melhorar o acesso aos equipamentos básicos para os profissionais de saúde. É importante também facilitar a realização de ensaios clínicos e estudos observacionais, que permitam identificar tratamentos efetivos. O governo precisa facilitar para que os cientistas possam fazer as investigações”.

  •  

    Paraguai

    Consegui uma resposta por e-mail da médica Elena Candia Florentín, presidente da Sociedade Paraguaia de Infectologia:

    “O fechamento antecipado das nossas fronteiras, que aconteceu antes do que nos países vizinhos, seria uma das razões para explicar a baixa quantidade de novos casos de coronavírus por aqui. Assim que aconteceu a segunda confirmação de um paciente com Covid-19 no Paraguai, o governo anunciou em 10 de março que estavam suspensos os eventos públicos, atividades educativas e tudo que implicava aglomeração de pessoas. 

    À medida que a pandemia avançava no mundo, nosso país não ficou parado e fechou as fronteiras no dia 24 de março, permitindo apenas a entrada de produtos essenciais. Posteriormente, a partir de 29 de março, houve uma nova medida, que todos aqueles que voltavam ao país deveriam ficar em quarentena obrigatória em albergues. Para garantir que essas ações fossem efetivadas, a polícia e os militares controlaram a biossegurança, o uso de máscaras faciais e a circulação de pessoas autorizadas pelas ruas ou pelo comércio. Para ter ideia, 2 419 indivíduos foram punidos por desrespeitarem a quarentena sanitária. 

    No dia em que mando essa resposta (12 de maio), se contabilizavam 737 casos de Covid-19 no Paraguai, sendo que 554 são provenientes do exterior. Um total de 10 pacientes estão internados e temos 10 mortos. O representante da Organização Mundial da Saúde em nosso país, Luis Alberto Escoto, disse à Agência Reuters que nosso êxito se deve às medidas agressivas de distanciamento social. A Sociedade Paraguaia de Infectologia também teve um papel preponderante, recomendando o uso massivo de máscaras logo cedo.

    Agora o país deve investir para que esse processo de controle da Covid-19 tenha um efeito sustentável por mais tempo, até que se tenha um tratamento antiviral ou uma vacina efetiva e segura. Para isso, precisamos pensar em educação, infraestrutura e tecnologia. Ademais, insistimos para que tenhamos o maior número possível de testes para detectar pacientes infectados, já que hoje em dia somos um dos países com menor número de exames por milhão de habitantes. Temos que pensar no uso de clínicas móveis, Big Data e parcerias com redes de celulares e aplicativos para acompanhar em tempo real a circulação de pessoas”. 

  •  

    Bolívia

    Nossa entrevistada é a pneumologista Ingrid Gaby Melgarejo Pomar, da Universidade Mayor de San Andrés, em La Paz. A especialista também é coordenadora do Comitê de Ética em Pesquisa do Comitê Nacional de Bioética da Bolívia

    “Até o dia 18 de maio de 2020, foram reportados 4 263 infectados por coronavírus na Bolívia, sendo que o maior número se concentra nas cidades de Santa Cruz e Beni. O número de mortos está em 174, o que indica uma taxa de letalidade de 4%, apesar de termos os indivíduos que não desenvolvem sintomas e aqueles que não declararam estar doentes. O número de recuperados é de 500 pessoas. 

    Atualmente na Bolívia se mantém a quarentena estrita nos domicílios, com algumas exceções. É o caso, por exemplo, do setor de construção e também dos serviços de produção de alimentos entregues na casa dos cidadãos pelo sistema de delivery. 

    Em meu ponto de vista, a quarentena foi uma medida instaurada dentro do tempo ideal, já que impediu uma maior propagação da enfermidade. No entanto, é importante mencionar que, apesar do controle exercido pelo governo, muita gente desobedece as normas, particularmente em algumas localidades como El Alto, La Paz e Cochabamba. Alguns setores sociais não entendem a razão do isolamento e simplesmente descumprem as orientações. 

    Essa situação de rebeldia se tornou mais manifesta nas últimas duas semanas, em que começou a pesar mais a falta de dinheiro e de alimentos nas casas. Há uma porcentagem muito importante da população nacional que depende do trabalho diário para sobreviver e lamentavelmente se dedica a empregos informais, como o comércio de diferentes produtos pelas ruas. Também se observa um número considerável de crianças infectadas devido aos pais não respeitarem as medidas de biossegurança básica, como a lavagem contínua de mãos, sobretudo depois de ir ao banheiro. 

    Penso que, para contra-atacar ou resistir a essa pandemia, é importante uma política governamental real que consiga instaurar em curto prazo um sistema de saúde cuja principal função seja promover, defender e proteger de maneira integral a vida e a saúde da população boliviana. Para isso, precisamos priorizar recursos destinados à infra-estrutura hospitalar e à contratação de profissionais capacitados, que possam trabalhar seguros e sem medo de contrair a enfermidade. 

    O sistema de saúde na Bolívia é precário em razão dos 14 anos de negligência na aplicação de políticas sanitárias. Agora neste momento tão difícil é quando mais se percebem todas as deficiências. Precisamos de ações políticas urgentes, que denotam um alto sentido moral e ético daqueles que agora nos governam para alcançar uma saúde justa, equitativa e solidária. 

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    Um grande obstáculo para combater a pandemia no meu país é a pobreza e a educação precária que é dada a uma porcentagem importante da nossa população nas áreas rurais e urbanas do país. Muitos poucos recebem a uma atenção sanitária adequada. O que dirá então do acesso aos testes de diagnóstico ou a tratamentos.” 

  • Argentina

    Nosso entrevistado é o médico Omar Sued, especialista em medicina interna e o atual presidente da Sociedade Argentina de Infectologia

    “Te comento que a situação da Covid-19 por aqui é muito melhor que em outros países da região. Vemos, porém, com preocupação como está o panorama na cidade de Buenos Aires, pela circulação do vírus em populações vulneráveis, em particular nos bairros mais precários da província. 

    No restante da Argentina, a circulação do vírus tem se mantido estável. Temos 18 províncias sem nenhum caso no último dia (19 de maio). E várias províncias estão sem novas notificações por mais de duas semanas. Isso facilita a possibilidade de liberar a quarentena. 

    A mobilização para a quarentena no país aconteceu muito cedo, o que permitiu ter uma capacidade de resposta e organizar um plano para ser colocado em marcha. Temos cerca de 4 mil leitos de unidade de terapia intensiva (UTI) vazios. Apenas 150 estão ocupados por pacientes com Covid-19. Mas reitero aqui a preocupação com a província de Buenos Aires. 

    A verdade é que não podemos nos queixar do que fez o governo até o momento. Acreditamos que é necessário seguir acompanhando os casos ativos e colocá-los em isolamento. E crítico também avançar em técnicas de diagnóstico que sejam mais rápidas e mais baratas. 

    Aqui na Argentina, tivemos recentemente o registro no Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (Conicet) de um novo teste molecular que identifica a doença em duas horas a um preço de 8 dólares. Esperamos que isso sirva para fazer um diagnóstico mais rápido dos pacientes. Nosso país também está participando de um estudo internacional que visa identificar o melhor tratamento para a Covid-19. Oxalá isso permita a gente reduzir um pouco a letalidade por coronavírus. 

    De todo modo, o desafio continua grande. Somos muitos e os infectados estão concentrados nos locais vulneráveis. O Vila 31 de Buenos Aires, por exemplo, é um bairro tem mais de 60 mil habitantes. Trata-se de uma das densidades populacionais mais altas. Temos que focalizar os esforços nesses lugares para reduzir a transmissão. 

    Outro problema que há no país é a desinformação e o uso de redes sociais para produzir informações errôneas. Nossa sociedade de infectologia está trabalhando para identificar isso e denunciar médicos que vendem possíveis curas.” 

  • Uruguai

    O médico e bioquímico Carlos Batthyány, diretor do Instituto Pasteur de Montevidéu, foi o nosso ponto de contato em terras uruguaias:

    “No dia 23 de maio, estamos muito contentes e surpresos. Como você sabe, o Uruguai é um país pequeno, com 3,5 milhões de habitantes. Temos uma única cidade muito populosa, que é Montevidéu, onde há 1,5 milhão de pessoas. O resto são municípios menores, com 100 mil cidadãos ou menos. Outro ponto forte, que incide na resposta que tivemos à pandemia, é que o Uruguai tem um sistema integrado de saúde em que todos temos direitos de receber atendimento na rede pública e privada, inclusive em cuidados intensivos. Não há nenhum uruguaio que não tenha direito à atenção em saúde. 

    Com respeito à Covid-19, o primeiro paciente diagnosticado por aqui foi em 13 de março de 2020 e, rapidamente neste dia, o governo tomou medidas que tiveram repercussões no controle da enfermidade. Todas as atividades que implicavam a aglomeração de pessoas foram suspensas, como eventos sociais, shoppings centers, restaurantes, escolas e universidades.

    O governo também insistiu muito na quarentena voluntária e trabalhou o conceito que todos devem cuidar de todos. Os uruguaios acataram e receberam essa notícia de uma boa maneira. Se focou muito também nos pacientes de maior risco, como idosos e portadores de doenças crônicas. No dia de hoje (23 de maio), o Uruguai tem 753 pacientes diagnosticados, 20 mortos, 130 casos ativos e cinco em cuidados intensivos. Realizamos cerca entre 800 e mil testes de PCR por dia, com aproximadamente 1% de casos positivos. 

    Outro fator que parece ter sido chave foi encontrar autoridades sanitárias abertas a escutar, colaborar e apoiar-se na ciência e na academia. Daí se criou um grupo de assessores científicos honorários, integrado pelo presidente da Academia Nacional de Ciências, o ex-presidente da Academia Nacional de Medicina e por um engenheiro matemático. Juntos com outros nomes, eles estão trabalhando com um grupo de especialistas do governo para o controle e os estudos de reabertura da sociedade. Estão sendo testadas várias medidas baseadas no monitoramento de casos e nas evidências científicas. 

    Por último, quero destacar outro componente que foi a rápida resposta que deu a academia para nossa sociedade. Todos se colocam à disposição ao sistema sanitário de saúde uruguaio. Diferentemente de países mais desenvolvidos, como os Estados Unidos ou na Europa, onde muitas equipes que queriam colaborar não conseguiram, aqui no Uruguai o próprio Instituto Pasteur de Montevidéu em colaboração com a Faculdade de Ciências pode montar um sistema de diagnósticos. Nós não apenas desenvolvemos um teste para o coronavírus, como todos os dias realizamos 200 análises que chegam pelo ministério de saúde pública. Com isso, pudemos compartilhar os esforços.

    A solidariedade entre academia e governo permitiu que Uruguai desse uma resposta muito acertada a essa pandemia. E cada vez que aparecia um surto local, muitos na fronteira com o Brasil, pudemos fazer um diagnóstico precoce e isolar os casos positivos. Até o momento, estamos muito satisfeitos e surpreendidos positivamente. Sabemos que ainda não ganhamos a guerra, apenas os primeiros rounds. Ou, falando na linguagem do futebol, chegamos no intervalo. Jogamos um bom primeiro tempo e agora precisamos fazer um ótimo segundo tempo. Pois agora vem o inverno e o desafio da reabertura com maior movimentação das pessoas”.

  • Venezuela

    O relato vem da pneumologista e médica intensivista Lérida Padrón, da diretoria da Sociedade Venezuelana de Pneumologia e Cirurgia de Tórax e profissional da Clínica Santa Sofia, em Caracas

    “Na Venezuela, temos um comportamento totalmente diferente dos países sul americanos. No dia de hoje, 27 de maio, chegamos a um total de 1 245 casos. Eles estão concentrados na maioria em cinco estados. Três deles são fronteiriços e recebem os migrantes que voltam ao país. Os outros são da região da capital e do distrito federal. Nesses locais está a maior quantidade da população e temos também o aeroporto internacional. 

    O governo decretou quarentena em 13 de março, com fechamento de fronteiras e paralisação quase total das atividades econômicas. Neste dia, foram diagnosticados os primeiros casos no país. Uma coisa importante que está ocorrendo é que temos um severo problema na produção de combustíveis. Como se sabe, a Venezuela é produtora de petróleo e, nessa crise, está importando gasolina do Irã. O primeiro barco chegou do Oriente Médio há dois dias. A falta de combustíveis para os carros e o transporte público fez com que a população ficasse mais em casa. Além disso, há restrição de circulação nas ruas pelo exército nacional. 

    Na Venezuela, se mesclou a situação política (e do déficit de gasolina) com a pandemia. Na última semana, tem aumentado os casos de maneira importante. Como disse, em 13 de março, apareceram os primeiros diagnósticos e se decretou a quarentena. Dois meses depois, se contabilizavam 440 casos positivos de coronavírus. Para 27 de maio, estamos falando de 1 200 casos positivos, o que representa 800 novos casos em apenas duas semanas. Tivemos o dobro de notificações em pouco tempo. 

    Nesse momento, o governo está planejamento uma estratégia que eles chamam de “início de normalidade relativa”. O que significa isso? A flexibilização da quarentena a partir de junho. Não há uma congruência entre o aumento dos casos e a conduta governamental. 

    Para melhorar o combate à Covid-19 no país, é preciso manter as medidas de quarentena que deram certo por muito tempo, já que temos uma mortalidade na casa de 1%. O mais importante agora são as medidas de prevenção: manter o distanciamento social, o uso adequado de máscaras, a lavagem de mãos, a disponibilização de álcool gel. Mas vemos que algumas pessoas tiram as máscaras de proteção na hora de conversar com os outros ou fazer pedidos no supermercado. É impressionante. Para evitar isso, necessitamos de campanhas nas redes sociais e nos canais de comunicação”. 

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