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Tempestade inflamatória não é exclusividade da Covid-19

Médico esclarece o que é esse fenômeno por trás de complicações do coronavírus e em que outras situações a inflamação intensa se manifesta

Por Dr. Edmo Atique Gabriel, cirurgião cardíaco* 19 jun 2020, 12h04 | Atualizado em 4 jun 2026, 22h32
coronavirus tempestade inflamatória
A tempestade inflamatória ocorre em quadros graves de Covid-19 e afeta órgãos como os pulmões e o coração. (Foto: GI/Getty Images)
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Tempestade inflamatória não é exclusividade da Covid-19 Priorizar nos meus resultados Google

A pandemia de Covid-19 trouxe à tona um conceito desconhecido para muita gente, a tempestade inflamatória. Falamos de um quadro de inflamação de grande magnitude e que, na infecção pelo coronavírus, afeta inicialmente os pulmões.

O primeiro aspecto a destacar sobre a tempestade inflamatória é que ela não é um fenômeno perceptível a olho nu. É diferente, por exemplo, de uma lesão que desperta inflamação na pele e leva a sinais evidentes como calor e vermelhidão no local.

Quem está por trás da tempestade inflamatória são substâncias chamadas citocinas, produzidas em diversas circunstâncias e doenças pelo organismo. Elas podem causar manifestações em diferentes órgãos e gerar complicações como obstrução do fluxo sanguíneo nos vasos ou mesmo hemorragias internas. Conseguimos dosá-las em exames de sangue

Durante décadas, o entendimento de problemas tão diversos como infarto, insuficiência cardíaca e câncer ficava restrito aos achados macroscópicos, ou seja, os danos visíveis aos órgãos acometidos. No entanto, pesquisas no campo da imunologia e da biologia molecular trouxeram uma visão microscópica dessas doenças e de tantas outras que, em comum, podem desatar um processo inflamatório intenso.

Vamos olhar para o coração. Na grande maioria dos casos, as pessoas infartam em decorrência da obstrução das artérias coronárias, que abastecem o músculo cardíaco, por placas de ateroma, popularmente conhecidas por aí como placas de gordura. Entupidos, esses vasos deixam de irrigar e nutrir adequadamente as células do coração.

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Acontece que essas placas não são apenas agregados de gordura bruta e pura, mas, sim, um conjunto de partículas e resíduos de uma inflamação que se processa ao longo de muitos anos e está associada a hábitos impróprios como tabagismo, etilismo, sedentarismo e alimentação rica em gordura e açúcar.

Nos casos de falência do músculo cardíaco, resultado de infartos recorrentes, problemas com válvulas cardíacas ou situações como a doença de Chagas, também observamos um efeito inflamatório pelas citocinas, que, em grande quantidade na circulação, desencadeiam uma deterioração progressiva da função do coração até chegar ao que chamamos de insuficiência cardíaca.

A mortalidade cardiovascular constantemente rivaliza com a mortalidade por câncer mundo afora. Independentemente do órgão afetado pelo tumor, sabemos que a doença consiste num desequilíbrio no comportamento das células, que se replicam de forma desordenada e causam danos ao corpo.

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O próprio comportamento anormal dessas células e o seu avanço pelo organismo estão relacionados a uma tempestade inflamatória disparada pela doença e pela reação do organismo. Dentro da imunoterapia, um dos pilares de tratamento mais modernos contra o câncer, já se utilizam medicamentos que potencializam nossas defesas naturais e inibem as moléculas inflamatórias associadas ao tumor.

O que podemos dizer é que boa parte das doenças se desenvolve a partir de um processo inflamatório ou mesmo de uma tempestade de citocinas. Se juntarmos a Covid-19 ao câncer e à insuficiência cardíaca, chegamos à conclusão de que ainda precisamos criar mais recursos terapêuticos para contra-atacar esse fenômeno e a alta mortalidade causada por essas doenças.

A grande expectativa, ainda mais com a pandemia do coronavírus, é que nos próximos anos se estudem e desenvolvam novas soluções para conter a inflamação no organismo a fim de prevenir e tratar tantas doenças.

* Dr. Edmo Atique Gabriel é cardiologista e cirurgião cardiovascular, doutor e pós-doutor pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e conselheiro de residência médica do Ministério da Educação

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