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Com a Palavra Por Blog Neste espaço coordenado pelo jornalista Diogo Sponchiato, especialistas, professores e ativistas dão sua visão sobre questões cruciais no universo da saúde

Parcerias e pesquisas de ponta fortalecem o protagonismo do SUS

Aliança com hospitais privados permite investigar doenças emergentes e desenvolver novos tratamentos para pessoas atendidas na rede pública

Por Dr. Guilherme Schettino, médico* - 16 set 2020, 18h35

A geração de conhecimento em saúde foi capaz de transformar o rumo de diversas sociedades ao longo da história. No início do século 20, o inglês Alexander Fleming (1881-1955) abriu as portas para o controle de uma série de doenças por meio da descoberta da penicilina, o primeiro antibiótico da história. Esse marco possibilitou que milhões de pessoas pudessem viver mais e com mais qualidade de vida, trazendo novas perspectivas para o desenvolvimento humano ao longo do último século.

Hoje sabemos que não só as descobertas de novas substâncias e terapias são determinantes para o futuro da nossa saúde. Há também o importante papel das parcerias. Por meio de iniciativas que envolvem pesquisas clínicas, aliadas a políticas públicas de acesso e prevenção de doenças, podemos desenvolver soluções mais eficazes que assegurem o direito à saúde de qualidade em todo o mundo.

No Brasil, passamos por uma grande transição epidemiológica e demográfica que transformou as características da nossa sociedade. Se até meados da década de 1950 as doenças infecciosas eram importante causa de morte, hoje transitamos para um perfil onde as doenças crônicas não transmissíveis, como hipertensão e diabetes, contribuem de maneira determinante na carga de doenças da nossa população.

Esse complexo ecossistema de saúde traz desafios que demandam ações de fomento a estudos focados em temas de interesse público, ou seja, que buscam elucidar novos tratamentos para doenças que possuem alta prevalência na população brasileira, como problemas cardiovasculares, obesidade, além de doenças genéticas e virais.

Nesse sentido, a união das esferas pública e privada pode gerar resultados muito positivos. Atualmente, o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, é um dos maiores apoiadores do SUS no incentivo à pesquisa clínica brasileira. Por meio do Proadi-SUS (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde), lideramos projetos desenhados para atender as necessidades dos pacientes atendidos na rede pública.

Um exemplo dessa parceria é a criação de uma plataforma de pesquisa liderada pelo Einstein que busca definir as características epidemiológicas e clínicas das doenças hepáticas virais agudas no Brasil. O projeto vai ajudar a definir de forma mais precisa os tipos de hepatite em diferentes regiões, além de embasar ações direcionadas para a prevenção da doença e de suas complicações. A mesma plataforma possibilitou a identificação correta de um paciente com arenavírus, um tipo de infecção que não era diagnosticada no país há mais de 20 anos, causadora da febre hemorrágica brasileira.

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Além de embasar ações de prevenção, as iniciativas de pesquisa do Proadi-SUS também estão contribuindo para o pioneirismo do Brasil no tratamento da anemia falciforme, uma doença altamente prevalente na população negra, que historicamente carece de tratamentos inovadores.

A anemia falciforme é uma doença genética caracterizada por mutações que causam uma deformidade nos glóbulos vermelhos do sangue, provocando, entre outros sintomas, dores articulares e fadiga crônica e, em casos graves, desencadeando infarto e AVC. O projeto do Proadi-SUS está focado em desenvolver um tratamento curativo por meio da terapia gênica, que busca corrigir a mutação genética responsável pela doença.

A evolução genômica também possibilita que pacientes com doenças raras tenham novas perspectivas de diagnóstico e tratamentos no Brasil. Estima-se que 13 milhões de cidadãos convivam atualmente com alguma doença rara, sendo que a maioria é dependente do SUS para ter acesso aos tratamentos.

Também por meio do Proadi-SUS lideramos o projeto “Genomas Raros”, que fará o mapeamento genético de cerca de 7 mil pacientes com suspeitas de doenças raras no SUS. Esse é o maior estudo já feito no Brasil para o sequenciamento genético dessa população e será um divisor de águas na promoção de um diagnóstico rápido e de alta qualidade na rede pública.

Iniciativas como essas se alinham diretamente ao Plano Nacional de Pesquisa Clínica do Ministério da Saúde, instituído para aumentar a competitividade do Brasil no âmbito internacional da geração de conhecimento e inovação. Nosso propósito é claro e também ambicioso: garantir que a sinergia entre público e privado contribua para o fortalecimento e o desenvolvimento da saúde brasileira.

* Dr. Guilherme Schettino é médico e diretor-superintendente do Instituto Israelita de Responsabilidade Social da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, em São Paulo

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