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Com a Palavra Por Blog Neste espaço coordenado pelo jornalista Diogo Sponchiato, especialistas, professores e ativistas dão sua visão sobre questões cruciais no universo da saúde

Obesidade: não podemos pensar só na perda de peso

Médico explica como a conscientização de que a obesidade é uma doença crônica pode ajudar numa abordagem mais saudável e efetiva contra o excesso de peso

Por Dr. Bruno Halpern, endocrinologista* - Atualizado em 4 Maio 2020, 19h38 - Publicado em 3 Maio 2020, 10h19

Cerca de 41 milhões de brasileiros têm obesidade hoje, número que se torna alarmante quando percebemos que a manifestação do problema aumentou quase 68% entre 2006 e 2018, de acordo com o Ministério da Saúde. Quando olhamos para o sobrepeso em si, os dados assustam: 116 milhões de pessoas, ao redor de metade da população, vivem nessa condição.

Mas números significam pouco se não entendermos a complexidade da doença e seu impacto no dia a dia. A falta de conhecimento sobre a obesidade contribui para o preconceito e leva muita gente a se queixar de como é tratada pelos profissionais de saúde, deixando inclusive de procurar tratamento adequado.

Médicos em geral oferecem pouco mais que orientações do tipo “Coma menos e se exercite mais”. Um caminho para reverter essa situação e conscientizar os brasileiros vem de campanhas como a Saúde Não Se Pesa, promovida desde 2016.

Para vencer a obesidade, o primeiro passo é reconhecê-la como doença crônica, com fortes componentes genético e ambiental, e não consequência exclusiva de maus hábitos ou questão estética. As pessoas respondem de formas muito distintas às intervenções de perda de peso — o que é excelente para um pode ser péssimo para outro.

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Daí a importância de buscar profissionais especializados e capazes de traçar um plano individualizado. Além disso, a ideia nem sempre é necessariamente levar o paciente a um IMC “normal”. Perdas de 5 a 15% do peso já melhoram a saúde.

Raramente dizer às pessoas para comer menos e se mexer mais é o suficiente, porque o organismo é altamente regulado: a cada quilo perdido, o gasto metabólico se reduz em média 30 calorias e a fome aumenta em 100 calorias.

É como um elástico: quanto mais eu puxo, mais força tenho que fazer para continuar puxando. Por isso o tratamento tem de ir além da perda de peso. Devemos focar também em manter o peso perdido, um processo que é como andar numa escada rolante ao contrário. Nesse sentido, o exercício físico é crucial (até mais do que para perder peso), e a vigilância sobre a balança, pesando-se com frequência e impondo limites, é outra tática bem-vinda.

Não existe ex-obeso. Existe obesidade controlada. Para ter sucesso no tratamento, precisamos ampliar a conscientização sobre o tema e capacitar mais profissionais de saúde para que possam ajudar os pacientes nessa jornada. Do contrário, a obesidade seguirá uma mão de via única e pouquíssimas pessoas que estão com a doença conseguirão perder peso e mantê-lo no nível ideal.

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* Dr. Bruno Halpern é endocrinologista, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) e da Federação Latino-Americana de Obesidade e chefe do Centro de Controle de Peso do Hospital 9 de Julho (SP)

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