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Com a Palavra Por Blog Neste espaço coordenado pelo jornalista Diogo Sponchiato, especialistas, professores e ativistas dão sua visão sobre questões cruciais no universo da saúde

O mito da carência de vitamina D

Um médico questiona o alto número de pessoas que recebem suplementos de vitamina D. E mostra quando a reposição realmente é necessária

Por János Valery Gyuricza, médico da família* - 23 jan 2020, 17h47

Atualmente, estão mais comuns do que deveriam os pedidos médicos para os exames de vitamina D e as receitas que prescrevem a sua suplementação. E isso pode representar um perigo! Se pensarmos em um país tropical como o Brasil, em que durante todo o ano a exposição solar —a principal fonte de vitamina D natural — é suficiente, parece ser um exagero tantos pedidos de exames e prescrições.

A fim de prevenir problemas obscuros relacionados ao ‘envelhecimento celular’ e doenças autoimunes, além de ‘enfraquecimento dos ossos’, muitos profissionais receitam altas doses de vitaminas D aos seus pacientes. Mas será que isso é necessário?

É comprovado que a carência dessa vitamina prejudica a saúde de uma pessoa. Considerada um pré-hormônio, a vitamina D apresenta papel crucial na regulação do cálcio no organismo e, consequentemente, na saúde óssea.

Mas, se a falta dela traz problemas, as superdosagens também podem apresentar sérios riscos à saúde, quando usadas de maneira desnecessária. A hipercalcemia, ou seja, o excesso de cálcio no sangue, é uma das consequências do excesso de vitamina D. Não raro, ela provoca pedras nos rins e a perda da função desse órgão. A hipervitaminose D também pode, paradoxalmente, prejudicar a saúde dos ossos, pois induz ao desequilíbrio da renovação dos tecidos ósseos, entre outros problemas.

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Curiosamente, é possível observar uma dicotomia entre pedidos de exames e suplementação da vitamina D em dois países que fazem divisa, Canadá e Estados Unidos, e que compartilham de muitas características comuns.

Em 2000, quatro a cada mil adultos norte-americanos com mais de 70 anos declararam tomar o suplemento diário de 25 miligramas (mg) de vitamina D. Somente nos EUA, o volume de testes para avaliar os níveis dessa substância no organismo cresceu 83 vezes de 2000 a 2010, impulsionando o consumo de suplementos. Embora no Brasil não tenhamos dados tão refinados, é perceptível na prática clínica uma trajetória semelhante.

Já no Canadá, um estudo realizado por diversos especialistas sob recomendação da campanha Choosing Wisely, que promove o uso racional de recursos na área da saúde, indicou que a cidade de Alberta diminuiu em cerca de 91,4% o número de testes para medir a deficiência de vitamina D após a implementação de um formulário eletrônico.

Esse formulário basicamente exige que os médicos que solicitam exames de vitamina D comprovem que o paciente esteja em tratamento ou tenha algum quadro que justifique a avaliação e a eventual suplementação. Eles citam doença metabólica ou óssea, níveis anormais de cálcio no sangue, síndrome de má absorção, doença renal crônica ou doença hepática crônica.

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Esse estudo sugere que, na prática, boa parte dos médicos canadenses não tinha uma real necessidade para pedir o exame antes da implantação do tal formulário eletrônico. Novamente, não temos dados tão consolidados no Brasil, mas é pouco provável que essa lógica seja diferente.

Aliás, aqui no Brasil uma pesquisa recente da Universidade Estadual Paulista (Unesp) aponta, em ratos, que o déficit de vitamina D promove alterações importantes na forma e na função do coração, o que reforça a importância da substância para esse órgão. Porém, outro estudo indica que doses crescentes dessa substância (que até então não provocavam riscos ou toxicidade) levaram ao aparecimento de hipertensão e alterações na aorta, aumento do músculo cardíaco e piora da função do coração. De novo, o experimento foi conduzido em animais.

Ou seja, o equilíbrio entre falta e excesso de vitamina D é mais complexo do que nos parece à primeira vista. Os dados que citei revelam o impacto da vitamina no sistema cardiovascular, endossando a preocupação com as consequências de doses altas nesse contexto, por exemplo.

Então é importante determinar quem possivelmente precisará realizar exames e fazer suplementação dessa vitamina:

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  • Pessoas acima dos 60 anos
  • Sujeitos que sofrem quedas e fraturas recorrentes
  • Gestantes e lactantes
  • Indivíduos com osteoporose e doenças osteometabólicas, tais como raquitismo e osteomalácia
  • Portadores de doença renal crônica
  • Situações de má absorção de nutrientes, como quem tem doença inflamatória intestinal ou fez cirurgia bariátrica
  • Pessoas que usam medicações que podem interferir com a vitamina D: antirretrovirais, corticoides, anticonvulsivantes…
  • Pacientes com câncer
  • Presença de sarcopenia (perda de massa e força muscular)
  • Diabéticos
  • Indivíduos com obesidade
  • Pessoas que não se expõem ao sol ou possuem contraindicação a essa exposição
  • Indivíduos com pele escura
  • Pacientes com insuficiência cardíaca

Uma vida com hábitos equilibrados, que incluem uma alimentação diversa, atividade física frequente e exposição moderada ao sol, é suficiente para a maioria das pessoas manter níveis adequados de vitamina D, ossos fortes e corpos saudáveis. Essas práticas também evitam exames e suplementações desnecessárias. Muitas vezes, menos é mais.

*János Valery Gyuricza é Head de Medicina na Cuidas, startup que conecta empresas com médicos e enfermeiros para atendimentos no próprio local de trabalho. É médico formado pela Universidade de São Paulo, com residência em Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas, na mesma universidade. É doutorando pelo Departamento de Medicina Preventiva (USP), em parceria com a Research Unit for General Practice da Universidade de Copenhague.

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